“Hoje percebo o tamanho da ignorância das pessoas que pensam que um agrónomo está limitado a plantar batatas”

Fale-me um pouco do seu percurso? O percurso escolar foi idêntico a todos os colegas da minha geração; tive o privilégio de ser estudante na Escola Preparatória Gaspar Frutuoso, na Ribeira Grande. Na altura, após a 4.ª classe, tinha eu 9 anos e 1,23 de altura (risos), íamos todos de ‘camioneta’ que nos deixava na actual paragem de autocarros da Ribeira Grande e íamos em grupo e a pé até à escola com ou sem chuva. Só mais tarde passaram a deixar os alunos directamente na escola. Os meninos do Norte, era como nos chamavam os colegas e professores. Recordo com carinho alguns professores que marcaram esta fase, a professora ‘Blue’ pela sua simpatia e método de ensino, a professora Fátima Senra com uma presença muito forte, mas sempre muito bonita e arranjada, a professora de Matemática que sempre nos pedia para dizer a tabuada à entrada da sala, entre muitos outros. Havia um respeito enorme pelos professores e uma relação muito próxima entre nós. Terminei o secundário na Escola Secundária da Ribeira Grande e daí decidi concorrer à Universidade. Ingressei, primeiramente, no Curso de Biologia Marinha, em Peniche, embora na segunda fase tenha concorrido para Engenharia Agronómica, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde acabei por ficar e terminar o curso. Estudar na Faculdade de Ciências foi uma experiência muito enriquecedora pela aprendizagem, pelos profissionais de excelências, alguns dos quais ainda hoje mantenho contacto e recorro sempre que necessito, mas acima de tudo por ter sido através da Faculdade de Ciências que consegui frequentar um estágio na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos da América, pelo período de 7 meses. Esta experiência, na Universidade de Illinois, permitiu um acesso a novas tecnologias e essencialmente a uma visão diferente do que é a agricultura no mundo. Recordo, que quando entrei no Curso de Agronomia, um colega que estudava Medicina perguntava se era isso que queria, ‘passar a vida a plantar batatas’ e hoje percebo o tamanho da ignorância das pessoas que pensam que um agrónomo está limitado a plantar batatas. Considero, que a Agronomia é uma ciência que está lado a lado com a Medicina por diversas razões e que, de forma alguma, podemos desvalorizar o produtor que diariamente produz alimento para o mundo ou o agrónomo que, em várias áreas faz com que os alimentos correspondam às exigências do mercado, às condições climatéricas, às pragas, às doenças, etc… Em 2007 regressei aos Açores e fui muito bem recebida no Laboratório Regional de Sanidade Vegetal, na altura pelo Dr. Carlos Santos e por toda a equipa, onde estagiei através do Programa Estagiar L. Quem é a Sílvia Bulhões, o que faz no dia-a-dia e que projectos futuros pessoais, tem em mente? Nunca é fácil falarmos de nós, porque ser pessoa é lutar para alcançar os nossos objectivos, os nossos sonhos e neste percurso estamos sujeitos a cometer erros, e portanto não existe a perfeição. Neste momento, se tivesse que escolher uma palavra para definir a minha forma de estar no mundo seria resiliência, foco. A Sílvia é uma apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelas coisas, é motivada pelos sucessos diários, pelas pequenas conquistas, pelo reconhecimento do seu trabalho, acredita que tudo é possível se nos propusermos alcançar. Grande parte da minha vida e do meu dia-a-dia está relacionada com o trabalho que desenvolvo na Terra Verde, que longe de estar restrito a um horário acompanha-me em casa ou onde estiver. Hoje em dia e passados dois anos e meio a trabalhar na Terra Verde, são várias as solicitações que chegam por telefone, mensagem, Internet e todas elas com resposta, independentemente de estar ou não no horário laboral, isto acontece porque acredito neste projecto e identifico-me com ele, encaro-o como um projecto pessoal. Na verdade, posso dizer que sou uma das pessoas que faz exactamente aquilo que, gosta e não seria mais feliz a trabalhar em outro local, ou em outra profissão. Claro, que isto só é possível porque a direcção da Terra Verde o permite e dá-me liberdade para desenvolver os projectos da forma que acredito e sem qualquer rigidez para parte deles. Em termos pessoais e no futuro penso desenvolver o meu próprio projecto. Para já penso que há muito trabalho a fazer na defesa e no desenvolvimento do sector hortofruto-florícola, na alteração de mentalidades, na aproximação entre consumidores e produtores, na valorização e promoção dos produtos e é neste sentido que quero trabalhar. Sempre teve este gosto pela agricultura? A agricultura está presente na minha vida desde cedo, nasci e cresci numa família de agricultores, o meu avô era horticultor, o meu pai tem uma pequena exploração leiteira, e todos em casa ajudávamos nos trabalhos de campo. Lá em casa, também costuma desenvolver algum tipo de actividade relacionado com a agricultura. Se sim, o que costuma cultivar? “Sempre ouvi dizer que em casa de ferreiro, espeto de pau (risos). Sendo o meu pai, produtor leiteiro, os terrenos são ocupados para esse efeito. O meu interesse pessoal está muito mais direccionado para a hortofruticultura porque considero que é uma área com grande potencial e pouco explorada na região, essencialmente em São Miguel, no entanto, é preciso dizer que o preço dos terrenos é muito elevado para que um jovem agricultor possa avançar sozinho para além da questão dos créditos que nem sempre é fácil para um jovem agricultor”. Como surge a ligação com a Terra Verde? Curiosamente, o meu lugar na Terra Verde parece ter sido destinado. Já em 2014, dois anos antes de ter sido contratada, fui a uma entrevista para integrar a equipa, no entanto acabei por desistir porque tinha outros projectos. Nessa altura viajei para a Holanda onde trabalhei na empresa Holtmaat van der beijl e Strooper Dekker, na produção de bolbos de tulipas, gladíolos, coroas imperiais e também produção de peónias. Em 2016, após ter regressado percebi que estavam a recrutar novamente, concorri e fui seleccionada. A dificuldade inicial enquanto técnica da Terra Verde foi perceber como poderia desenvolver esta actividade de forma mais dinâmica, rapidamente percebi que o trabalho da Terra Verde não poderia passar apenas por ir às explorações identificar pragas e doenças, porque isto os produtores já conseguem fazer, não podemos querer ensinar a produzir um produto que o produtor passou a vida toda a fazer, o pensamento é ao contrário, são os produtores que tantas vezes nos ensinam sobre uma cultura. O desafio era e continua a ser, como é que eu posso conciliar os meus conhecimentos teóricos e práticos com a experiência do produtor e fazer com que resulte em melhores produtividades, em diminuição da incidência de pragas e doenças, na correcta nutrição das plantas, na aplicação de boas práticas agrícolas, numa produção agrícola sustentável e segura, mais do que isso, como é que vamos fazer chegar esta informação aos consumidores. A partir deste ponto, foi fácil definir uma estratégia que passaria por dar visibilidade à Terra Verde, dar cara aos produtores, partilhar sem reservas as suas produções e a forma como produzem, hoje conseguimos que grande parte dos produtores colabore com a Terra Verde, porque entendem que esta associação é deles e para eles, independentemente de ser jovem ou menos jovem, grande ou pequeno produtor, ser profissional ou não. Diariamente trabalho para combater algumas mentalidades mais rígidas e que continuam a encarar a Terra Verde como um inimigo, mas acredito que no longo prazo seremos muitos a seguir um caminho único que será a valorização do sector sem atropelamentos. Daquilo que vai sabendo, nos Açores, e em São Miguel em particular, já começa a aparecer muita gente a tentar desenvolver alguns sectores da agricultura que até há pouco tempo não era habitual termos? Sim, o trabalho na Terra Verde tem permitido ter acesso a informações a esse respeito, felizmente, são cada vez mais as pessoas que recorrem à Associação a pedir apoio e conselhos mas também a partilhar as suas experiências. Rapidamente se percebe que as pessoas têm tentado culturas diferentes por sua conta e risco, recorrem muito a informação existente na internet pela inexistência de informação cá, alguns inclusive viajam atrás de conhecimento prático. Culturas como os cogumelos, espargos, aipo, papaia, pitanga, quiabo já existem em São Miguel mas numa dimensão muito pequena e na maior parte das vezes para consumo doméstico, claramente uma situação em que é fundamental transmitir confiança aos produtores e mostrar que é possível adaptar a oferta à procura e estabelecer um ponto de equilíbrio. Ainda é muito deficitária a produção local e portanto há um leque muito vasto de produtos e culturas que ainda podem crescer no sector hortícola, mas no que diz respeito à fruticultura, por exemplo, podemos dizer que a produção é muito residual, no meu entender uma oportunidade para novos investidores. Workshop de Espargos Verdes com expectativas elevadas Depois do workshop dos cogumelos vamos ter o workshop de espargos verdes. Expectativas, para esta nova acção levada a cabo pela Terra Verde? O workshop de produção de cogumelos revelou ser um sucesso e serviu para mostrar que existem muitas pessoas interessadas em produzir, recordo que foram mais de 30 pessoas interessadas no workshop, embora apenas 18 tenham estado presentes. Destes 18 participantes, metade já tinha experiência com a produção de cogumelos em troncos e em substrato. Estamos já a trabalhar numa segunda edição, desta vez numa vertente avançada para início do próximo ano. Em relação ao workshop agendado para 24 de Novembro sobre produção de espargos verdes, as expectativas são igualmente elevadas até porque temos conhecimento de pessoas que produzem espargos de excelente qualidade em São Miguel, que é uma cultura interessante apesar de exigir bastante mão-de-obra. O objectivo será sempre trazer aos Açores pessoas que mais do que conhecimento teórico, tenham experiência prática e consigam transmitir aos formados os melhores métodos de produção, dicas e conselhos práticos para evitar erros de principiantes, todos sabemos que produzir um produto sem conhecimento poderá traduzir-se em perdas consideráveis. Neste caso, estabelecemos uma parceria com a Villa Bosque, uma empresa da região do Ribatejo, principal produtora de espargos verdes a nível nacional e que numa fase inicial, sendo a produção muito técnica contratou um consultor francês, Christian Befve, considerado um dos melhores especialistas do mundo para apoiar na produção. No workshop contamos com a presença e experiência de Rui Paulo Sousa, gestor da empresa Villa Bosque. No workshop serão abordados temas como produção, comercialização, nutrição, operações culturais, maquinaria, equipamentos de armazenamento e embalamento. Serão abordados ainda temas como produção de physalis e quiabo, duas culturas que fazem parte dos novos projectos da empresa. Passatempos? Na verdade tenho muito pouco tempo livre, mas o que tenho é dedicado à família e a fazer o que gosto. A profissão que tenho exige uma actualização constante de conhecimentos e muito do meu tempo é passado a ler e a partilhar opiniões com outros profissionais de forma a melhor responder às necessidades dos produtores. O facto de ser a única técnica da Terra Verde faz com que tenha de ser capaz de responder a solicitacões de várias áreas, o que neste momento já não é fácil e é bastante pertinente a contratação de mais técnicos. Depois da agitação semanal e porque estou constantemente em contacto com várias pessoas gosto de recolher-me e estar em casa ou em locais tranquilos que transmitam alguma serenidade. O que mais gosta de fazer e o que menos gosta de fazer? Gosto de viver e trabalhar, participar em projectos interessantes e com impacto, que me façam crescer pessoalmente e profissionalmente, e gosto de viajar. Não gosto de conflitos nem de estar parada no tempo.
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