Rapazes e raparigas acabam por cometer os mesmos tipos de agressões que são mais psicológicas do que físicas

É cada vez mais frequente visitar uma escola e assistir a comportamentos agressivos fisicamente. Já muitas pessoas pensam que estes são actos normais, mas não o são. Ricardo Barroso, psicólogo, elaborou o estudo PreVINT (Projecto Violentómetro) ao nível de todo o país e apresentou ontem a caracterização do cenário da região dos Açores. Este é um projecto que nasce em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, com a Região Autónoma dos Açores, através da Secretaria Regional da Solidariedade Social, com a Fundação Calouste Gulbenkian e com UMAR – União de Mulheres Alternativa e Respostas dos Açores. A amostra foi realizada com 2.619 adolescentes açorianos, entre os 12 e os 21 anos, sendo estes 1.305 rapazes e 1.314 raparigas. Ricardo Barroso afiançou que “os números que encontramos nos Açores são muito semelhantes aos de outras escolas do país. O projecto surge no âmbito das relações interpessoais, que também é conhecido por Violentómetro pela estratégia que usa no âmbito de intervenção. Foi implementado no último ano lectivo em 67 escolas em todo o país. No contexto dos Açores aconteceu em 18 escolas, em praticamente todas as ilhas”. O psicólogo vai mais longe e afirma que a violência psicológica é a mais verificada e que “habitualmente acaba por ser diminuída ou vista como banal, mas quando começamos a olhar para os comportamentos em causa não são tão banais quanto isso”. A violência no namoro é algo que também preocupa o coordenador, o qual explica que “as agressões que ocorrem são semelhantes em termos de sexo, porque rapazes e raparigas acabam por cometer os mesmos tipos de agressões que são na maioria psicológicas. Temos ainda uma quantidade considerável de agressões físicas e detectamos alguns casos, não uma percentagem muito elevada, felizmente, no âmbito da violência sexual”. Ricardo Barroso explica que os dados obtidos vieram das vítimas e dos agressores. “Questionamos o adolescente até que ponto ele tinha sido agressor de outro e elencamos 29 comportamentos para se perceber isso mesmo. Com base no violentómetro, avaliamos até que ponto eles tinham praticado comportamentos psicológicos como controlar o telemóvel, as redes sociais e em fases posteriores se tinham chegado a bofetadas e a pontapés nas relações de namoro. Ou seja, o grau de gravidade do ponto de vista dos comportamentos violentos vai crescendo.” O coordenador não tem dúvidas quando afirma que se registou “um número significativo de adolescentes que assumiu terem sido agressores nas suas várias relações interpessoais. Por outro lado, as vítimas acabaram também por admitir que tinham sido vítimas destas relações”. Do ponto de vista proporcional, Ricardo Barroso explicou-nos que “a violência psicológica é praticada por cerca de 60% dos indivíduos nas suas relações interpessoais, a violência física anda à volta de 40% e a violência sexual à volta dos 5%”. Presente também esteve a Presidente da UMAR, Maria José Raposo, a qual nos disse que “o senso comum nos dizia que nesta faixa etária se nota um enraizamento da violência e dos comportamentos deles entre si e nas relações íntimas juvenis bastante acentuada. E estava a faltar-nos números e confirmações para sabermos se realmente era esta a realidade ou se estávamos a empolar”. Nesse sentido, “os resultados vêm-nos dizer que temos muito que fazer e que trilhar. Infelizmente, nesta faixa etária a violência dos rapazes para as raparigas e vice-versa é frequente, diária e evidente”. Questionada sobre a motivação de realizar este estudo, a Presidente respondeu que “é necessário recuar um pouco, porque atendemos senhoras cada vez mais novas. Quando começamos a acompanhá-las, percebemos que esta violência começou no namoro, aos 15 e aos 16 anos, nas relações íntimas e juvenis. Os números são tristes e temos que pensar neles”. Maria José Raposo garante que nos Açores as instituições são muito próximas das pessoas, pelo que a visibilidade e o trabalho terão uma perspectiva maior. Além disso, é da opinião “que no Continente, infelizmente, os números acompanham os nossos, porque está provado que os países mediterrânicos são propensos a desenvolver estas relações íntimas agressivas”. As soluções para alterar a situação são “batalhar muito, falar do tema, quebrar mitos e estereótipos e recuar cada vez mais nestas idades. Temos a necessidade premente de ir aos meninos do básico e do pré-escolar”, trabalho este que será realizado “pelas instituições, pelas direcções regionais da Educação e da Solidariedade Social, pelas universidades e, evidentemente, que 50% desta mudança de comportamentos cabe aos pais”. Maria José Raposo concorda com Ricardo Barroso e diz que tanto as raparigas como os rapazes têm atitudes agressivas à mesma escala, “sendo que dos rapazes para as raparigas há mais uma violência física enquanto das raparigas para os rapazes é uma violência mais psicológica e emocional. E atenção que as redes sociais são um fenómeno que está a vir ao de cima. Aí a violência é quase simétrica, porque os jovens utilizam estes meios para atingir a outra pessoa, denegrindo e expondo a sua imagem, caluniando e insultando”. O Director Regional da Solidariedade Social, Paulo Fontes, fechou o momento de apresentação do projecto, o qual considerou como uma iniciativa meritória; “O Projecto Violentómetro tem como objectivo a consciencialização e sensibilização de adolescentes e adultos relativamente à violência nas relações e às suas dinâmicas de funcionamento”, esclareceu. Por isso, o director garante que é importante “aumentar a capacidade de antecipar ou determinar de modo mais rápido e eficaz estes comportamentos, evitando-se assim a sua escalada. Procura-se desenvolver competências de detecção de comportamentos considerados naturais no quotidiano e na sociedade, que não o são na verdade. São agressões muitas vezes com impacto e com um início de processo de escalada para agressões mais graves e simultaneamente obter conhecimentos sobre soluções práticas de resposta quando estas situações ocorrem”, rematou.
Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima