Brüi (ruído) é nome de atelier e galeria que dá o mote para agitar várias formas de arte em Ponta Delgada

Na Rua d’Água, em Ponta Delgada, interligada no projecto Quarteirão, surge agora um novo espaço que se intitula atelier galeria e que dá um novo colorido ao conjunto das três ruas que integram o chamado Quarteirão (ruas Carvalho Araújo, Pedro Homem e d’Água). O nome é sugestivo: Brüi, ou barulho em francês, a terra natal do responsável pelo espaço que abriu portas em Maio deste ano, Gregory Le Lay, que desde há sete anos visita os Açores para passar três a quatro meses e ajudar uma amiga que tem um alojamento local no Faial da Terra. Depois de tantos anos a regressar Gregory Le Lay achou que era tempo de assentar e arranjar um local onde pudesse mostrar a sua arte e também dar oportunidade a outros artistas, locais e estrangeiros, de expor e ali criar. Assim nasceu a Brüi cujo espaço foi reabilitado pelo próprio Gregory, e onde antes existia um escritório de contabilidade há agora uma explosão de cores e de arte que tem atraído adultos mas também crianças, talvez atraídas pelo som de desenho animado que sai de uma televisão colocada no chão onde uma espécie de fantoche conta, em italiano, a história do Pinóquio. Em frente à televisão uma grande almofada colorida convida a sentar. Nas paredes há três auto-retratos do próprio Gregory Le Lay “com creme de barbear, que pode ser um monstro para falar sobre a transformação de Pinóquio em burro”. A um canto, um fósforo gigante que o artista também identifica com a história do pequeno boneco de madeira. Espaço de exposição Na sala ao lado, que conservou uma parede em arco com pedra de lavoura, numa das paredes brancas exibe um colorido quadro retratando uma das passagens da história do pequeno boneco de madeira transformado em burro. No fundo do quadro é usado o amarelo que vai ligar com uma parede amarela do espaço. É ali que está instalada uma miniatura do atelier/galeria que irá servir, conta Gregory Le Lay, para espaço de exposição dentro da própria miniatura. “É um trabalho pessoal e uma maqueta do espaço que vai ser espaço de experimentação de exposições. A ideia é convidar artistas de cá e até estrangeiros, tenho já pensada uma amiga artista coreana, que tem uma caixinha de cartão com uma mini escultura. Ou um trabalho fotográfico dentro da maqueta com pessoas que vão participar com fotografias da maqueta. É possível abrir tudo, pôr a câmara e tirar fotografias. Penso que será engraçado este jogo entre a realidade e a miniaturização”, explica o artista. Ao lado, mais um auto-retrato, desta vez mais colorido, que Gregory Le Lay diz que tem vários tipos de leitura. “Pode ser uma construção mental com os elementos de cor e elementos visuais. Para mim é também uma crítica da sociedade actual em que agora as pessoas estão sob o controle, dos telemóveis, com os olhos fechados”, avança. Ao lado, um pano vermelho com uma abertura circular dá entrada para um antigo tanque de água que existia no edifício. Uma máquina antiga em destaque e de um lado um pequeno sofá improvisado enquanto do outro passa “uma escultura no interior, um texto que para mim é como uma paisagem”, onde várias palavras vão surgindo em letras vermelhas. “Isto era antigamente um tanque de água e acho que é um espaço com uma energia forte, calmo mas com a energia do lugar. Tudo foi pensado para ter uma coisa muito neutral”, refere o artista. Ao lado situa-se o espaço mais funcional da galeria, onde Gregory Le Lay tem alguns dos seus desenhos e gravuras e onde se realizam os vários workshops e aulas individuais de impressão, de desenho, de papel feito à mão ou serigrafia. Voltamos à frente da galeria, onde o colorido volta a fazer parte das paredes. Com várias impressões, gravuras, pinturas a decorar a parede, servindo de montra de artistas. No balcão há desenhos que foram passados para linogravuras que serão depois passados para metal ou papel. “Gosto muito de empresas de impressão da ilha, como a Tipografia Micaelense” e este projecto também pretende fazer várias edições com as imagens das exposições e fazer um trabalho educativo para ensinar as técnicas e fazer vários workshops de impressão”, diz Gregory Le Lay que admite que gosta muito de trabalhar com pessoas. Dar espaço a outros artistas O artista aponta para alguns dos seus trabalhos de impressão, mas ressalva que aquele espaço também serve para expor trabalhos de outros artistas e de amigos, como Anne Bruyere, que tem postais, “livros de segredos”, e uma vasta selecção de papel vegetal artesanal. “Ela faz um trabalho de fabricação de papel de forma artesanal a partir de plantas do quintal, de plantas endémicas, até de conteira, de fibras. Fabrica fibras de papel, é um trabalho ancestral, feito com muita água. É um processo muito antigo é o início da impressão como a conhecemos hoje”, explica Gregory Le Lay. O novo espaço tem tido bastante adesão quer de locais quer de estrangeiros e “tem sido engraçado porque há várias crianças da cidade que vêm aqui e várias pessoas que vêm aqui mostrar as suas obras e já se tornaram habituais” visitantes do espaço que na opinião do proprietário “já se tornou vivo”. Era esse o objectivo de Gregory que acredita que “o mais interessante é o facto do espaço estar sempre a mudar, as pessoas gostam de ver as imagens, são curiosas”. No fundo a loja/galeria/oficina “é diferente” e é por isso que quando ali entram “dizem que nunca viram nada assim e muitos vêm aqui experimentar”, diz Gregory que acrescenta que vai agora estabelecer uma parceria com um jovem que estudou arquitectura e que enveredou pela área do turismo “mas que vem cá para trabalhar em conjunto comigo e construir coisas”. Sendo um espaço vivo, já no próximo dia 19 de Outubro pelas 19 horas, recebe mais uma iniciativa diferente: um micro-concerto. “Um vizinho, o Dj Mr. Wolf vem aqui apresentar um disco, vem fazer música para crianças com instrumentos pequenos”, explica Gregory Le Lay. Experiência muito positiva Para já o artista está a ver esta experiência como positiva. Até porque é a primeira vez que tem um espaço físico para trabalhar, “o que é novo para mim”. Antes passou pela Alemanha, e claro viveu em França, onde ia fazendo exposições mas sem um lugar próprio onde pudesse dar asas à sua criatividade. É por isso que decidiu trocar os escassos três a quatro meses que passava nos Açores por um ano inteiro e a experiência também tem sido agradável. No entanto, o francês acredita que São Miguel podia ser mais aberto em termos culturais. “Acho que há várias coisas aqui muito engraçadas, mas necessita de mais coisas, algo mais aberto e popular” onde todos se sentissem acolhidos e pudessem desfrutar de arte e entretenimento. É esse Brüi que Gregory Le Lay pretende trazer para Ponta Delgada e para os Açores.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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