“Se Carlos César tivesse tido maioria absoluta sem mim, eu ainda hoje estava a defender um porto no Corvo”

João Greves é nascido e criado no Corvo. Foi cabouqueiro, agricultor, carteiro, deputado, Presidente de Câmara e agora reformado. Diz que o mandato de quatro anos à frente da autarquia de Vila Nova do Corvo foram “os piores anos” da sua vida,já que teve de “aguentar o barco” que era a autarquia, mas diz que tudo o que tem actualmente foi conseguido antes de entrar na política. Ficou doente e já quase sem esperança, quando regressava ao Corvo depois de passar por vários médicos parou junto ao Convento do Senhor Santo Cristo. Dois dias depois, já em casa, o corpo voltou a funcionar normalmente. É nascido e criado no Corvo? Há 64 anos. Nunca virei as costas à minha terra. Como cresceu no Corvo? Tive algumas dificuldades, mas comparando a miséria que encontro aqui na cidade de Ponta Delgada, posso dizer que nasci num berço de ouro quando não nasci. Quando eu era criança só se tomava banho numa celha de madeira aos Sábados. De resto, era lavar as axilas, a cara e os pés e não havia mais nada. Hoje em dia tomamos banho todos os dias e até mais do que uma vez por dia. Eu aos 13 anos era o homem da casa. Os meus pais eram pobres e além de pobres eram doentes. Eu nunca fui criança. Mas Deus sempre me amparou, deu-me força para trabalhar. Fui cabouqueiro perto de cinco anos, fui carteiro durante 22 anos, fui deputado quatro anos e fui Presidente de Câmara quatro anos. Hoje, Graças a Deus, estou reformado. Quantos irmãos teve? Era filho único. Por ser filho único deixei pelo menos um sonho por realizar. Que sonho foi esse? O sonho de ser Capitão-de-fragata. Foi carteiro porque e gostava? Não, foi uma coisa que apareceu. Foi uma bênção de Deus. Apareceu o concurso, tive sorte e fiquei. Quando veio a inspecção tinha um sonho então de ser Capitão-de-fragata. A minha inspecção aconteceu no primeiro ano que houve testes psicotécnicos e esforcei-me ao máximo. Havia uma prova de matemática, que é o meu fraco os números, havia uma prova escrita que para mim era mais fácil, e havia uma prova de mecânica que não era muito difícil. Veio um Tenente que me disse que a minha prova era a melhor e perguntou-me qual o ramo em que queria ingressar e eu disse que queria ir para a Marinha, para poder ser Capitão-de-fragata. O Tenente disse-me que ia fazer o que lhe competia, que ia preencher a papelada mas que chegar a Capitão-de-fragata ficava depois nas minhas mãos. Disse-me que ia assentar praça na ilha Terceira e depois ia ser transferido para a Base Naval do Alfeite e que ia andar embarcado uma temporada e, passo a passo, havia de chegar lá já que era o meu sonho. Mas cheguei a casa e olhei para os meus pais e perguntei-me o que queria mais da vida. Estava numa bela empresa, tinha uma bela lavoura que, para o Corvo, já era boa o bastante. Pensei que tinha de arranjar uma rapariga que gostasse de mim para seguir uma vida. Fui falar com ela e perguntei se queria casar comigo e ela, Maria Alfredina, disse-me que há muito tempo já estava à minha espera. Estou casado vai fazer 41 anos e companheira melhor não podia arranjar. Já era carteiro, tinha a sua lavoura. Como entra a política na sua vida? A política entra após o 25 de Abril. Toda a gente me dizia que eu tinha uma veia política, mas eu sempre achei que não. No entanto, chegam as primeiras eleições autárquicas e eu concorri como independente, nas listas do PSD. Nunca me filiei e não estava refém de partido nenhum. O Presidente da Câmara de então, que era do PSD, falou comigo para saber se queria ser Presidente da Assembleia Municipal. Disse-lhe para preparar as listas que ia trabalhar com ele para se fazer alguma coisa pela nossa terra. Fiz dois mandatos mas depois veio o dinheiro da União Europeia e decidi que ia sair. Assim foi até aos 41 anos. Depois as pessoas, menos o PS que tinha o seu deputado, diziam-me que eu ia ser deputado regional, mas eu disse que já havia dois deputados pelo Corvo na Assembleia Regional e que não valia a pena ir. Disseram-me que eu era o único que defendia a nossa ilha quando a televisão ia ao Corvo e por isso tinha de concorrer para deputado. Na estação dos correios diziam-me a mesma coisa, em casa a mesma coisa, e avancei pelo CDS/PP enquanto independente. Disse que queria saber quais tinham sido as promessas do Governo que ainda não tinham sido cumpridas e quais as necessidades da ilha. Foi assim, por ironia do destino ou por vontade de Deus, que consegui negociar bastantes coisas para o Corvo. Tudo aquilo que o Presidente do Governo Carlos César prometeu, tudo pagou na hora certa. Que luta mais emblemática teve? Tenho tanto gosto em recordar esses tempos. Foi uma luta, mas de guerrilha, onde eu não tinha armas perante gente experiente na política como Carlos César. A primeira coisa que fiz foi procurar os Serviços Administrativos da Assembleia Regional e saber o que é que o Governo tinha apresentado de proposta alternativa para o Corvo. Carlos César tinha toda a oportunidade de avançar com uma proposta alternativa, prometeu tantas vezes o porto e nunca o fez. Foi falar com os meus companheiros, o José António Monjardino era eleito pelo círculo de São Miguel, disse que viabilizava o Plano e Orçamento se fosse feito o saco do porto aqui na doca em Ponta Delgada. Alvarino Pinheiro, penso que pediu a via rápida Angra do Heroísmo - Praia da Vitória. Carlos César veio depois ter comigo, disse que já tinha acertado as coisas com os meus companheiros e perguntou-me o que é que eu queria para viabilizar o Plano e Orçamento. Disse-lhe que já tinha contas feitas, que ele ao pé de mim, na política, era um catedrático, e que eu era o mais humilde eu estava dentro da Assembleia. Disse-lhe que tinha lido o que tinha sido prometido para o Corvo e que queria o porto para a ilha. Que se abrisse uma rubrica para o estudo, planeamento e viabilidade do porto. Disse-me que não, que não tinha dinheiro para isso. Disse-lhe que me ia bater por aquilo. E conseguiu? Sim. Além do porto, tudo o que se prometeu para o Corvo eu consegui. Se Carlos César tivesse tido maioria absoluta eu ainda hoje lá estava a pregar que não tinha tido sorte. Provavelmente já teria feito o porto mas outras coisas não teria feito. Valeu o xadrez político. E como se viveu o 25 de Abril? Eu não tinha nenhum conhecimento de política, embora ouvisse de vez em quando as notícias. Sabia que os estudantes se ia revoltando contra o Governo mas, sinceramente, achava que aquilo era uma heresia, que aquelas pessoas não tinham noção do que estava a fazer. Eu tinha noção que tínhamos um bom Governo, que ajudava, que dava emprego, que estava a abrir estradas. Achava que era um bom Governo. Veio então o 25 de Abril e achava que se dava liberdade demais em algumas coisas o que também estava errado, mas não tinha formação política, era o que nos ensinavam na escola. Mas como soube da Revolução? Eu estava a lavrar uns currais acima da Vila e veio um homem de casa e disse ao meu pai que “estava o diabo em Lisboa”, que havia uma Revolução e que o Governo tinha caído. O meu pai disse que o Governo não tinha caído e que quem estava a fazer essas coisas ia tudo parar a Caxias. O meu pai não acreditava, mas aconteceu. Foi um golpe de Estado muito bem feito e em nenhum outro país se fez uma Revolução praticamente sem sangue como aqui. Aconteceram umas balas perdidas mas não houve muitas mortes. E estava no Tejo uma fragata preparada para disparar para o Terreiro do Paço. O Comandante deu ordens para o Imediato disparar mas o Imediato não disparou, senão tinha sido um banho de sangue. Foi depois de ser deputado é que chega a Presidente de Câmara? Foram os piores quatro anos da minha vida. Então porquê? Porque a Câmara estava completamente desgraçada. Não havia nem uma pá nem uma enxada. Eu tomei posse e no dia seguinte de manhã entrei ao serviço mas avisei as raparigas que estavam na Câmara que chegava ali como um rapaz que vai pela primeira vez à escola, e que ia aprender com elas. Disse-lhes que queria saber das finanças. Havia 250 mil contos de dívida à banca, 3 obras adjudicadas e nada pago, facturação com 11 meses de atraso, ofícios em cima da secretária, passagens da SATA em requisição. Eu pensava que as coisas estavam mal, mas não sabia que estavam assim daquela maneira. Disse na Câmara que ia ter de cortar muito e a primeira preocupação foi se ia mandar alguns funcionários embora. Disse que não os podia mandar embora porque precisava deles, mas também não queria que a Câmara fosse à falência no meu mandato. Comecei a ver as contas da padaria. Tinha um buraco como o mar. Fui ter com as padeiras e quis saber quantos papo-secos dava para fazer com um saco de farinha, mas não me sabiam dizer. Disseram-me que era dali que engordavam os porcos, que davam pão a amigos e família, coziam a mais e vendiam no dia a seguir mais barato. Disse-lhes que aquilo era para acabar porque a Câmara não tinha dinheiro. Que meio saco de farinha tinha de dar 700 papo-secos e que se faltasse um que fosse tinham de pagar. A padaria no mês seguinte começou logo a dar lucro. Fui para as oficinas com o cadastro na mão e havia milhares de litros de gasóleo e óleo que eu achava que eram demasiado. Pedi contas porque as viaturas e máquinas estavam todas velhas quase nem andavam e por isso queria saber para onde tinham ido aqueles litros todos de gasóleo. Disseram-me que tinham carta-branca, os funcionários e os amigos, para gastar dali. A partir daquele dia aquilo acabou. Pus um relógio em cada máquina para saber quanto é que cada uma gastava ao dia. Cada litro acima disso era para ser pago pelos funcionários. Perguntei pelas ferramentas porque não via nem pás nem enxadas. Disseram-me que tinham sido dadas no início do mandato mas que tinham ficado por ali e por aqui e que ninguém tinha ido atrás das ferramentas. Nem chaves de caixa havia. Disse que ia comprar três malas de chaves de caixa e cada empregado ia ter a sua caixa. Quando partissem uma, punham dentro da caixa e ninguém pagava nada, mas se a chave desaparecesse iam ser responsabilizados. Nunca mais desapareceu uma chave. Cheguei à Câmara e disse o que tinha cortado e que ainda ia ser cortado mais. Havia muita gente a tempo inteiro, tínhamos dois advogados. Como não sou formado em direito administrativo precisava de advogados para me ajudarem mas resolvi não os manter a tempo inteiro mas à tarefa, quando precisasse de um documento havia de os contactar e pagar-lhes por esse serviço. Havia também muitos técnicos nessas condições, por causa do alargamento do Plano Director Municipal. Defini que iam receber consoante o que trabalhassem e não ser pagos a tempo inteiro quando eles não estavam o tempo inteiro ao serviço da Câmara. A Câmara tinha dois empréstimos a 20 anos. Tive de dizer ao Governo que tinha os lavradores à perna e precisava de dinheiro para cobrir a estrada Leste com bagacina. Ao fim de muita negociação lá conseguimos. Fui negociando com o Governo e fui comprando uma carrinha para levar o pessoal para as obras, fui conseguindo algumas máquinas. O mandato foi assim. Cheguei ao fim e estava exausto. Tive de ir para Lisboa no limite. Fui ter com uma médica amiga que me disse que devia ter ido ter com ela há mais tempo. Eu em quatro anos nunca tirei férias, queria era salvar o barco, mas tive de fazer muita ginástica. Ela começa-me a tratar e estive mais de três meses com poucas melhores. Essa médica indicou-me para um psiquiatra que me disse que o meu caso era bicudo e que tinha de me receitar comprimidos para dormir. Tomava três comprimidos dormicums quando só se deve tomar um e mesmo assim não descansava, passava as noites a sonhar, o cérebro não descansava. Fui ter com ele que me alterou a medicação, deu-me uns comprimidos mais fracos, mas passado uns tempos paralisou-me o intestino. Começo a andar de médico catedrático para médico catedrático em gastrenterologia, faço colonoscopias atrás de colonoscopias. O intestino estava parado, nem o esfíncter abria. A minha esposa dava-me um clister todos os dias. Tinha uma grande barriga. Até que alguém me aconselhou a ir a Coimbra falar com um investigador holandês. Disse-me que tinha apanhado um choque no sistema nervoso central e que tinha o sistema todo parado. Disse-me que me ia instalar uma pilha, à experiência, e que tinha de esperar dois dias para ver o que acontecia. Mas nada resolveu. Disse que ia para a minha casa e havia de ser o que Deus quisesse. Chegámos a São Miguel numa Segunda-feira à tarde, íamos de táxi e passámos no Convento do Senhor Santo Cristo. Mandei o motorista parar, levantei as mãos para o céu e disse “Senhor, criaste o meu intestino há mais de 60 anos atrás, sem defeito nenhum. Se eu merecer concerta-me, se eu não merecer pronto. Mas se merecer, dá-me um sopro de vida. Estou no fio da navalha”. Fomos para casa e no outro dia às 19 horas comi uma sopa e peixe e fui-me deitar, porque há muito tempo que não sentia as pestanas pesadas como naquele dia. Deitei-me e adormeci logo. De madrugada a minha mulher acorda-me para saber se estava bem e eu senti uma leve vontade de ir à casa-de-banho. O esfíncter abriu-se finalmente a partir desse dia. Aconteceu assim. Eu merecia? Acho que não. Mas Deus deu-me esta graça. Já está reformado então… Sim. Os correios já não tinham interesse em me manter porque já tinham um carteiro a meio termo na estação por causa da minha doença. Eles eram obrigados a dar-me o meu posto de trabalho mas eu já tinha 40 anos de serviço e uns meses e saí. Dedica-se agora a quê? Leio, vejo televisão, faço grandes caminhadas, tenho uma horta, duas quintas de fruta, e é assim que me entretenho. Ainda tem lavoura? Não. Quando fiquei com esse problema de saúde não podia. O meu genro estava comigo mas eu ajudava. Quando eu fiquei doente ele disse-me que não ia conseguir sozinho e que tinha de emigrar. Então, arrendei tudo. Mas uma coisa posso dizer, quando fui para a política não comprei nada, tudo o que tenho foi com o dinheiro dos correios e da minha lavoura. Não sou rico. Tenho uma margem a que podemos recorrer se adoecermos, porque se esperamos pelo Estado morremos. Vamo-nos ajudando um ao outro e ajudando as filhas. Quantas filhas tem? Tenho duas e um casal de netos. Vivem no Corvo? No Canadá, em Toronto. Uma das minhas filhas vive no Canadá e a outra é que vive no Corvo, junto a mim. Como é viver na mais pequena ilha dos Açores? Para se viver no Covo temos de ser como o camaleão, senão é muito difícil viver lá. Temos de nos saber adaptar. À mínima coisa tens a crítica em cima de ti. Ou tentas não meter o pé fora da tiradeira, usando um termo agrícola, ou então estás despachado. Mas vive-se bem? Sim senhora. O maior rendimento per capita está no Corvo. O Corvo ao pé de São Miguel é o paraíso, e aqui é o inferno. No Inverno escasseiam bens no Corvo… Já não há tanta falta. O porto já tem melhores condições, o barco que faz a carreira entre as Flores e o Corvo é maior, desde que o canal dê uma aberta navega à vontade. O que se passou antigamente já nunca mais se volta a passar. Pode falhar uma ou outra coisa, mas coisa mínima. Nunca foi fácil viver no Corvo. Só à terceira tentativa é que se conseguiu fixar ali gente. Eu sou descendente desses teimosos ou de algum pirata. Houve uma altura que os piratas fizeram muito estrago, mas também contribuíram muito para a economia da ilha. Os piratas tinham no Corvo uma base do Atlântico Norte e ao princípio havia muitos estragos. Foi a única ilha que não teve um forte, foi a única ilha onde os Jesuítas não pararam. Aquilo era uma sociedade entregue a si própria, como algumas zonas do interior do país. Mas nos Açores não havia uma ilha que não tivesse um convento de Jesuítas, mas nunca chegaram ao Corvo. O primeiro pároco do Corvo foi o primeiro bispo dos Açores, D. Agostinho Ribeiro. Que diferenças nota entre São Miguel e o Corvo? Aqui está o inferno e no Corvo está o céu. No Corvo há dificuldades? Não. Mas a inter-ajuda também já se perdeu. Cada pessoa é agora uma ilha dentro de uma ilha.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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