Ou como se ganha com eficácia defensiva

A equipa do Santa Clara realizou perante o Desportivo de Chaves uma partida de acordo com as armas que possui, com as condições climatéricas e com o estado do relvado. Foram jogadores de barba rija, mas com muita ambição que lutaram denodadamente pela posse da bola. Não houve lugar a gala futebolística. Jogaram conforme as circunstâncias. Bola pontapeada para longe e para fora quando era necessário, grande entreajuda, muita concentração e jogar com os métodos trabalhados enquanto e quando foi possível. Há jogadores que não aparecem tanto, mas que são de grande utilidade. Anderson Carvalho foi um desses. Mais um vez. Grande sentido posicional, muita disponibilidade para o jogo. Esteve sempre no local certo. Um tampão para o futebol atacante do adversário. A entrada de César para a defesa, devido à lesão de Accioly, tem vindo a ser profícua. Passou Fábio Cardoso para a esquerda no centro da defesa e os dois vão cumprindo a preceito. Bom entendimento. César, além da altura, com cortes preciosos nos lances de bola parada, coloca a bola jogável com passes certinhos. Pena as lacunas na rececção de alguns dos colegas que estão nas posições mais adiantadas. Tudo isso com a ajudas defensivas e ofensivas dos laterais Patrick, a subir de rendimento, e de Mamadu. Como a defesa é o melhor ataque, o treinador João Henriques coloca Dennis Pineda, porque tem sido muito útil a defender, no apoio a Patrick ou, agora, a Mamadu. Esta eficácia do atacante de El Salvador disfarça as lacunas ofensivas, atenuadas com a velocidade que imprime. Depois, Bruno Lamas, que neste tipo de jogo anda perdido porque precisa de ter espaço e bola, Rashid e Fernando, especialmente este, vão fazendo as despesas do ataque. Alfredo Stephens é lutador, mas trapalhão com a bola. Quer tanto marcar que se esquece de quem tem ao lado em melhor posição. Perante o cenário que se foi desenrolando e às disponibilidades de espaço oferecidas, o Desportivo de Chaves teve duas situações de maior perigo. Uma em cada parte. Nem mesmo depois de Fernando ter feito um golo (73m) só ao alcance dos predestinados. Minhoca, entrado um minuto antes do golo, foi, mais uma vez, útil face ao jogo desconcertante que imprime. Sofreu várias faltas numa altura em que era preciso parar o jogo e fazer passar o tempo. São as exibições de Fernando e de Rashid que vão inquietando quem gere técnica e administrativamente. Os rumores do interesse de clubes mais poderosos vão chegando e a partir de Janeiro podem ambos assinar por outras equipas para a nova época sem retorno financeiro para o Santa Clara. Ou são transacionados os passes naquele mês ou há o prolongamento dos contratos que expirem em Junho de 2019, prendendo-os ao clube e então os façam sair no final do campeonato através de negociações. Terceira melhor casa O quarto jogo do Santa Clara no estádio de São Miguel, disputado num feriado de Sexta-feira, levou 3 431 espectadores, sendo a terceira melhor casa da época. Os aguaceiros fortes que foram ocorrendo, como o que aconteceu pouco antes do apito inicial, podem ter retirado mais algumas pessoas. A falta de cobertura na maioria dos lugares nas bancadas é um problema no estádio que só poderá ser solucionado se o Santa Clara ficar por muitos anos na 1.ª Liga. Recorde-se que a melhor assistência foi no jogo com o Boavista, com 4 448 espectadores, seguida dos 3 915 do jogo com o Sporting de Braga. Na partida com o Rio Ave foi a assistência mais fraca até ao momento, com 3 199 pessoas. Recado A animada claque do Santa Clara, que não se cansa de apoiar e de puxar por um público que está mais vibrante do que outrora, apresentou pouco antes do começo do jogo uma tarja que dizia “Unidos por um Santa Clara mais forte!” Será um recado para as divisões que acontecem entre o Conselho de Administração e os pequenos investidores e outros associados do clube, já públicas e sentidas na longa Assembleia Geral da véspera? Talvez... As críticas aumentaram de tom quando se soube dos valores astronómicos, descontextualizados para uma SAD devedora e em crise financeira, auferidos pelos três membros da administração desde Julho e que rondam os 24 mil euros mensais. Com 11 pontos à 7.ª jornada, os mais desprevenidos, os menos conhecedores de um campeonato que reúne muitas vicissitudes e de uma equipa que tem lacunas, têm a tendência de começarem com pensamentos fora da realidade. O treinador João Henriques, independentemente do que vier a acontecer no futuro, tem demonstrado uma sensatez de enaltecer. No campo das funções que lhe foram confiadas, assim como a quem o acompanha de perto, conseguiu formar uma equipa coesa, com uma mentalidade forte. Dispondo de um grupo que não é homogéneo, até carenciado, mas imbuído de uma forte determinação, de um espírito de luta que esconde as fragilidades, o treinador tem uma cota grande de responsabilidade neste trajecto inicial. Com uma serenidade que resguarda a ansiedade, João Henriques não é espalhafatoso na orientação da equipa, não desfere palavreado que pode ferir a susceptibilidade dos árbitros ou dos adversários. Tem sempre um discurso ponderado, objectivo e não ilusório. Quando, no final da partida, o repórter da Sport TV questionou o treinador do Santa Clara se com este início de carreira, com tantos golos marcados, se a equipa pode discutir um lugar numa competição europeia, João Henriques fez descer à terra quem já pensa assim: “Nós temos consciência daquilo que valemos e daquilo que podemos fazer. Nós queremos é olhar jogo a jogo e conquistar os 3 pontos para atingirmos a meta da manutenção na 1.ª Liga. Fazemos disso o nosso principal objectivo. Quando atingirmos a manutenção reformularemos os objectivos para adicionarmos mais pontos. Atingir uma prova europeia é uma meta que, nesta altura, não é razoável porque sabemos o que valemos.” João Henriques não se cansa de alertar que o campeonato está no início e da necessidade de todos terem consciência onde a equipa está envolvida: “Como sempre disse, a manutenção é o nosso grande objectivo. Sabemos que estes 11 pontos à 7.ª jornada são bastante positivos e fora do que tínhamos prognosticado para esta altura. Mas repito: temos de ter os pés bem assentos nos chão porque vamos ter jogos extremamente difíceis, vamos passar por períodos menos positivos e temos de saber dar a volta nesses momentos. Vamos desfrutar das duas vitórias seguidas e aproveitar a semana de paragem para voltarmos a equilibrar a equipa e destes desgastantes últimos dias”. “As viagens são tremendas” O técnico “encarnado” trouxe à cena uma situação que é bastantes penalizadora quando as equipas dos Açores jogam na Madeira. Ainda bem que o Santa Clara já lá foi as duas vezes para o campeonato. “As viagens são tremendas para nós, provocando um desgaste que não imaginam. Para irmos jogar à Madeira despendemos 7 horas para lá chegar e mais 8 horas para regressarmos a Ponta Delgada. Isto pesa. Além disso, jogamos no domingo e voltamo-lo a fazer 5 dias depois. Até parece que estamos na Liga Europa ou na Liga dos Campeões”. Dois jogos sem sofrer golos, amenizando os 11 que a equipa havia sofrido nos 4 jogos iniciais, foram referenciados por João Henriques. “O aspecto defensivo tínhamos de melhorar e melhoramos nestes últimos dois jogos. Conseguimos conter um bocadinho aquilo que eram os nossos erros individuais e alguns colectivos que estamos a cometer e o resultado está à vista”. E sobre o jogo, em mais uma resposta ao jornalista da operadora televisiva que transmitiu a partida, o treinador foi, mais uma vez, assertivo: “Efectuámos uma boa partida, com um resultado final justíssimo, mas conscientes que estamos no início do trajecto”. João Henriques voltou a não esquecer os adeptos: “Uma palavra de apreço para os adeptos açorianos que nos têm vindo a apoiar incondicionalmente. Somos os representantes desta Região e queremos continuar a sê-lo de uma forma bastante positiva como o temos feito até agora.” “Santa Clara foi melhor em termos gerais” A passagem de Daniel Ramos em direcção ao banco de suplentes destinado à equipa do Desportivo de Chaves foi acompanhada por uma efusiva salva de palmas dos adeptos do Santa Clara. Apesar de terem sido cerca de dois meses e meio em Ponta Delgada, não foi esquecido o trabalho de qualidade desenvolvido, repercutido nas 8 vitórias e num empate entre jogos do campeonato e da Taça da Liga. Sendo, também, um treinador coerente, o discurso final sobre o jogo foi igualmente coerente: “Parabéns ao Santa Clara. Foi melhor em termos gerais. Durante o encontro houve minutos de divisão de jogo, minutos em que uma equipa ou outra estiveram por cima. Uma primeira parte jogada a favor do vento com o Santa Clara retirando maior proveito, conseguindo anular a nossa estratégia e as nossas intenções. Na 2.ª parte tivemos mais bola, mas faltou sabermos o que fazer com ela. Tivemos possibilidades de criar mais dificuldades daquelas que criamos ao Santa Clara. É que não chega ter bola. É preciso saber tê-la, ser mais objectivo e mais perspicaz para encontrar a melhor forma de atacar a baliza. Foi o que nos faltou. Não foi o resultado que queríamos. Foi, sim, um bom jogo de seguir.” Daniel Ramos não deixou de apontar um problema estruturante do relvado do estádio de São Miguel. Um defeito de fabrico que não foi solucionado quando em 1995 foi renovado. Pese as melhorias e os cuidados introduzidos na manutenção, a relva solta-se à medida que o jogo se desenrola. Situação que se agrava se chove muito antes dos jogos. O que aconteceu. Um problema para quem pretende circular a bola. “Neste jogo houve duas variáveis que influenciaram o desenrolar do jogo: o vento e o relvado. O vento diminuiu de intensidade na 2.ª parte e à medida que o jogo decorria o relvado foi-se degradando e tornou-se mais pesado, tornando o jogo mais lento para a bola circular. Por isso, a equipa que cometesse mais erros ficava sujeita a sofrer golos. Como não circulamos a bola com mais rapidez de pé para pé e ao não deixarmos que o Santa Clara chegasse às posições que pretendia e a defender bem, como o fez na 2.ª parte, não alcançamos outro resultado. Poderíamos ter sofrido o golo mais cedo porque o Santa Clara teve oportunidades para fazê-lo. Acabamos por sofrer o golo devido a um erro. O futebol é também o aproveitar e o conceder. Acabamos por conceder mais do que aquilo que devíamos e não aproveitamos o que fizemos.”
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Autor: CA

Categorias: Desporto

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