Açores T-Shirt é uma loja irreverente que recorre a jovens artistas para divulgar o melhor das ilhas

Alunos de artes são bem vindos e trazem geralmente desenhos originais e “uma lufada de ar fresco” ao conceito de loja de recordações a que estamos habituados. Fabiane Morais e Paulo Moleiro têm já três lojas Açores T-Shirts onde tudo é personalizável e nunca há dois produtos iguais. O cliente escolhe o artigo, as cores, o tamanho e o desenho para ilustrar e no final sai satisfeito com uma recordação única que leva para se lembrar que esteve nos Açores, como o caso das meias verdes com pequenas vacas pretas e brancas que têm sido um sucesso. Apesar de terem três lojas abertas (duas em Ponta Delgada e uma na Lagoa), o casal queixa-se que o valor proibitivo das rendas no centro da cidade é muitas vezes o entrave para que se iniciem novos negócios. Na baixa de Ponta Delgada há duas lojas que chamam imediatamente a atenção dos turistas e também dos locais. Em redor da porta, numa aplicação de madeira, são anunciadas várias frases tipicamente micaelenses, onde também não faltam desenhos de vacas. Nas montras, t-shirts com as ditas frases, canecas e porta-chaves com desenhos que nos remetem para as criaturas marinhas ou mesmo para o ananás. São as lojas “Açores T-Shirts”, propriedade de Fabiane Morais e Paulo Moleiro, que há cerca de quatro anos enveredaram pela estampagem e personalização de t-shirts e canecas, numa loja mais virada para o mercado local. A irreverência das frases e até dos desenhos, muitos deles originais, elevaram as lojas ao estatuto de “gift shop” [loja de recordações] e agora são os turistas que mais procuram levar consigo um pouco dos Açores que visitaram. E têm muito por onde escolher. Há sacos de praia, em pano ou impermeáveis, com frases de cores garridas, ou simplesmente com um irreverente ananás colorido. As t-shirts apresentam-se de todas as cores e tamanhos para que o cliente possa escolher na hora a frase ou imagem com o que pretende personalizar uma recordação da sua passagem pelos Açores. Há canecas com vários dizeres, ímãs, bases para copos, porta-chaves e até peúgas com base verde, a lembrar os pastos verdejantes, e pequenas vaquinhas brancas e pretas espalhadas pelo verde. Na mais recente loja, na rua Manuel da Ponte, há ainda uma pequena secção com comida e bebida regional e uma outra com uma parte mais vintage e retro, onde se usa design conhecido e imagens icónicas, com um tom de irreverência e desafio. Esta é a secção mais orientada para a filha do casal, Raiane, que se encontra em Lisboa a estudar design na Faculdade de Arquitectura de Lisboa mas que enquanto estudava na Escola Secundária Antero de Quental desenvolveu, juntamente com os colegas de artes, várias imagens originais para a loja. Este contributo de jovens de artes é, no entender de Fabiane Morais, uma grande mais-valia para as três lojas mas também para os jovens artistas que muitas vezes para ali vão estagiar e também ajudam ao balcão. No ano passado houve três alunos a estagiar nas lojas, principalmente na que existe na Lagoa e onde fica o atelier, mas agora as aulas acabaram de começar e “ainda estamos à espera de contactos deles, mas eles já sabem que estamos disponíveis para os receber”. Fabiane Morais explica que “eles são jovens, estão a aprender mas também trazem muitas ideias que se calhar nem imaginávamos. Trazem a cabeça fresca e quando vêem uma peça que eles fizeram, nós produzimos e damos-lhes logo a primeira para eles usarem, eles ficam contentes”. Fabiane Morais explica que nas três lojas se pode personalizar tudo, desde que dê para entrar na máquina de decalques. “Temos ímãs, canecas, t-shirts, porta-copos, puzzles, brinquedos de madeira, aviões, porta-chaves, sacos. Conseguimos personalizar com as nossas imagens ou qualquer outra que o cliente nos traga”, refere a responsável pela loja. “A única coisa que não produzimos são as almofadas de emojis”, afirma Paulo Moleiro que garante que são almofadas originais e que vêm de um fornecedor em Inglaterra garantindo a mesma qualidade dos restantes produtos. Fabiane Morais diz que os turistas ficam à partida “um bocadinho assustados porque em lugar nenhum encontram loja com produção e com tanta escolha” mas “nunca tive nenhum turismo que não nos desse os parabéns pela loja”, refere. Quanto aos locais “já nos conheciam porque estávamos com esta dinâmica de estampagem de t-shirts para o comércio local e já tínhamos uma clientela fixa”. E quando o turismo começou a desenvolver-se “começámos a ter mais coisas vocacionadas para o turismo. Por exemplo, os magnéticos, as bases de copos que não tínhamos. Antes era só t-shirts e fotos”. Além disso, o conceito sustentável também ajuda já que é usada madeira local quer nos contra-placados e prateleiras como “os arcos à mostra” que agora são visíveis na loja Manuel da Ponte. “Esta loja estava danificada e quando arranjámos colocámos os arcos à mostra, para ser também mais acolhedora e fica mais ampla”, explica. Originalidade até nos desenhos A maioria dos desenhos usados pela loja para personalizar os artigos “estão assinados e são originais”, explica Fabiane Morais que acrescenta que a maioria são da filha Raiane mas “temos muitos estudantes de artes que vêm vender alguns desenhos e nós compramos, desde que sejam desenhos originais e que tenham a ver com a dinâmica da loja e que sirva os turistas e os locais”. Os ananases, por exemplo, o desenho em si não é propriamente original “mas é uma visão minha e do meu marido, porque procuramos dar-lhes novas cores e estampagens. São parecidos com o original mas também acabam por dar novas cores à nossa loja, para além de conseguirmos colocar a imagem dos ananases em várias coisas, como mochilas, sacos, porta,chaves”, acrescenta. A “Açores T-Shirts” tem vindo a apostar agora em pequenos blocos de notas com desenhos ou frases típicas de São Miguel na capa. “Fomos ajudados por açorianos, pedimos às pessoas que escrevessem uma frase típica que gostassem e temos agora blocos de notas” que são totalmente feitos nas lojas. Mas também há desenhos na frente dos blocos, principalmente da Raiane “mas também do Tomás e do Mário Ledo. Nós pedimos e eles fazem desenhos originais ou propõem os desenhos”. Quanto ao registo das imagens, Fabiane Morais entende que não há necessidade “porque somos nós que temos os originais e ninguém vai copiar. Mesmo que alguém tente fazer uma cópia nunca vai ser igual”, explica. Aponta para as baleias, cachalotes e polvos em tecido e enchimento, que são feitos na própria loja e que também nem esses conseguem ser iguais “porque o tecido também não fica igual”. Excepto um caso de um senhor que lhe pediu certo dia para fazer três baleias exactamente iguais para presentear bebés trigémeos. “Ficaram muito parecidos, mesmo com o tecido que foi cortado igual, mas forma os únicos que fizemos mesmo iguais”, explica Fabiane Morais. O mesmo acontece com os porta-chaves em forma de prancha de surf que apesar do formato ser igual, a decalcagem das imagens não fica exactamente no mesmo local e “não há porta-chaves iguais”, revela. “Temos também uma linha de bijuteria que não somos nós que fazemos, é uma artesão, a Milene, mas é feita à mão, ela vai apanhar as pedras à praia e faz para as nossas lojas. As pulseiras, são feitas em decoupage, ela faz os desenhos no papel e passa para as pulseiras. É original e gostamos. Já as caixas onde são vendidas somos nós que personalizamos. Dou muito valor ao que é feito à mão”, garante Fabiane Morais. Quanto aos artigos mais vendidos, Paulo Moleiro diz que “tudo tem saída, é consoante os dias. Uns dias vendemos mais t-shirts, noutro dia saem mais aviões em madeira personalizados. Nunca se sabe”, explica enquanto Fabiane Morais acrescenta que quando entra na loja uma família inteira “cada elemento consegue encontrar uma coisa para si nas nossas lojas. Por isso temos esta diversificação”. No entanto, ambos reconhecem que os homens procuram mais as t-shirts, enquanto as mulheres “compra de tudo um pouco” e as crianças “levam as nossas almofadas que em forma de baleia que são 100% algodão ou os emojis”. Todas as peças para o público infantil “são 100% algodão e têm 100% filtro de protecção de raios ultravioletas”. Surpreendentemente, conta Paulo Moleiro, um dos artigos da loja que nunca pensaram que tivesse tanta saída principalmente no Verão são as meias. “Meias e pijamas nunca são de mais. As meias de vaquinhas é uma loucura, nunca pensámos que de Verão íamos vender tantas meias. É impressionante, praticamente todo o turista que vem aqui, compra 4 ou 5 peças e leva um par de meias, para contentar quem falte oferta leva meias”, explica. Também nas meias, produzidas no continente, são aplicados desenhos e frases micaelenses e servem até para fazer pequenos conjuntos de oferta já que os temas e os desenhos são transversais a vários pequenos produtos. Incluindo o tema de azulejos portugueses que não é uma tradição açoriana mas que tem bastante saída junto dos turistas. Este é um dos novos produtos que o casal Fabiane e Paulo querem introduzir em breve nas três lojas. “Azulejos e pratos pintados à mão, peças únicas de colecções únicas, registadas” que acreditam, “vai colmatar uma lacuna porque estamos nos Açores mas também estamos em Portugal e há pessoas que vêm de outros países que o único contacto que têm com Portugal é através dos Açores”. Por isso em breve vai haver também uma secção dedicada também a Portugal, que agora se resume a bonés e meias. “Na outra loja onde personalizamos na hora já tivemos clientes a pedir para colocarmos apenas a palavra “Portugal” numa t-shirt porque não encontrava nada sobre Portugal aqui. E têm razão”, explica Fabiane Morais. Em breve também haverá isqueiros personalizados, que terão de vir de um fornecedor nacional, já que a máquina que possuem não consegue personalizar os pequenos objectos. E esperam que o segmento das bebidas e comidas possa expandir-se “porque abrimos ao fim-de-semana e ao Domingo e quando chega um navio de cruzeiro, ao Domingo está praticamente tudo fechado, e nós temos aqui esses produtos”, explica o casal. O turismo é algo que a proprietária acredita que não irá acabar tão depressa. “A maioria das pessoas que chegam aqui da América, dizem-nos que já têm passagem marcada para voltar ou familiares que já vão vir. Se passa de boca em boca a propaganda, o destino tem de crescer”, refere Fabiane Morais que acrescenta que no outro dia foi surpreendida com uma turista americana que se apresentou na loja com um guia com o “Top10” de coisas diferentes que se podem encontrar em vários países. Num desses guias “que é pago e que quem compra pretende saber o que está na moda em qualquer país que visita, estava lá a nossa loja. Nós nem sabíamos”, explica Fabiane Morais que acredita que o que faz a diferença “é os donos estarem nas lojas e ver que não temos aqui peças iguais às que encontram noutras “gift shop”. Agora também as pessoas procuram mais o que é feito à mão”. É por isso que entende que no futuro “quem tiver um atendimento personalizado, se tiver qualidade no artigo e tiver a porta aberta vai-se manter. Temos assistido a uma baixa da qualidade por causa do turismo, mas temos vários sites na internet que nos classificam, e por isso tentamos manter um padrão de qualidade. Mesmo que aquele cliente não volte, vai indicar alguém para vir”, refere Fabiane Morais. Rendas caras são entrave O casal entende que quem vive deste negócio tem de se mostrar disponível para “trabalhar aos fins-de-semana, Domingos, não temos horas para entrar nem para sair. Nos primeiros meses deste ano trabalhámos de Domingo a Domingos em conseguir parar, porque é mesmo preciso. Tivemos navios a chegar e se abrimos ao Domingo e está tudo o resto fechado, conseguimos captar as pessoas que passam na rua. Foi preciso abrir tomar esta decisão”, explicam. É assim, aos poucos, que querem que as lojas crescem. Sustentáveis. Tal como aconteceu desde o início. Fabiane Morais, brasileira, explica que veio para os Açores porque tinha família cá e “apaixonei-me pela ilha mal cheguei. Já conhecia por fotografias que a família ia mandando mas temos de pisar o chão para sentir”, afirma. Paulo Moleiro não nasceu cá, mas há 40 anos que veio acompanhar o pai que veio para cá trabalhar “e fiquei desde então”. Fabiane veio por conta de uma empresa e ao fim de seis anos a trabalhar por conta de outrem, decidiu apostar no seu próprio negócio. “Abri uma loja pequenina para sentir o mercado, porque tinha experiência no atendimento ao cliente mas tinha de ver como ia ser a reacção do público” e começou com uma loja na rua Dr. Bruno Tavares Carreiro. “Seis meses depois abrimos a loja na Lagoa e uns 8 meses depois abrimos a loja na rua Machado dos Santos”, acabando por encerrar a loja inicial, e abrindo recentemente o espaço na rua Manuel da Ponte. “Nunca tínhamos arriscado com medo porque as rendas são caríssimas no centro da cidade, mas conseguimos sentir que as coisas são possíveis”, explica Fabiane Morais que acrescenta que “as rendas muito altas são um problema” para quem iniciar um negócio. “Em Ponta Delgada as rendas custam os olhos da cara. As pessoas têm rendas por metro quadrado na rua Machado dos Santos mais caro do que na baixa de Lisboa. E tem imensos espaços fechados que acabam por se deteriorar. Como este, na rua Manuel da Ponte, que estava horrível. Os senhorios não fazem nada, a água e a luz, tudo deteriorado e você é que tem que fazer obras e pagar a renda caríssima para poder entrar. Pode dar certo o negócio mas e se não der?”, questiona para ilustrar o facto de estarem tantos edifícios históricos fechados na baixa. “Estamos numa lógica que já estamos numa grande cidade. É muito caro. Na loja da Machado dos Santos tivemos térmitas, tivemos material danificado mas a lei só protege o arrendatário. E não se pode comprar o edifício porque não conseguimos chegar lá. Os prédios históricos estão muito acima. As rendas são o principal entrave” para que jovens empresários se aventurem nos negócios. “É a realidade que temos”, desabafa enquanto espera que a legislação se altere para também proteger os arrendatários e o turismo continue a fluir para que muitos consigam avançar com os seus negócios.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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