20 de janeiro de 2019

Responsabilidade que não se assume

1- Os estudos são uma ferramenta recorrente no pós modernidade. Hoje decide-se pelos estudos que se manda fazer e não pela política que em democracia advém dos partidos políticos, consoante a ideologia que cada um professa. 
2- Em vez de se estudar o efeito das medidas políticas que resultam dos mandatos recebidos em eleições, ou das opções que provêm do sector empresarial, fazem-se antes estudos, para justificar e sustentar depois as decisões políticas, e as opções dos dirigentes empresariais perante os seus accionistas. 
3- É assim que se cria a tecnocracia que complica a vida dos cidadãos ao mesmo tempo que os afasta da sua participação cívica. O exemplo acabado vem de Bruxelas e do emaranhado de directivas gerais e obrigatórias que a Comissão Europeia elabora e impõe aos Estados membros, esquecendo que a realidade difere de país para país. Depois, queixem-se da contestação populista que se opõe às medidas provindas da União Europeia.
4- A McKinsey Global Institute e a Nova School of Business and Economics, apresentaram um estudo que conclui que, com as tecnologias que já existem, cerca de metade do tempo dispendido no trabalho em Portugal poderá ser automatizado, levando à perda de 1,100 milhões de postos de trabalho até 2030, afectando os trabalhadores da indústria transformadora e do comércio.
5- A população activa em Portugal em 2017 era de cerca de 5, 2 milhões de pessoas, o que quer dizer que a manter-se esse número, a automatização prevista no estudo implica um desemprego de 21% da população activa.
6- O estudo, segundo o que veio a público, considera que a automatização poderá, em contrapartida, criar depois entre 600 mil a 1,1 milhões de novos postos de trabalho até 2030, considerando que tais empregos poderão ser criados na saúde, assistência social, ciências, profissões técnicas e construção.
7- Sem fazermos qualquer juízo de valor sobre o mérito do estudo, em consciência, parece-nos que é uma fantasia dizer que a saúde, a assistência social, ciências e a construção, criarão no mesmo período, até 2030 o número de postos de trabalho equivalentes aos que serão extintos com a automatização da indústria e do comércio. 
8- E dizemos isso, porque sabemos a precariedade que envolve a investigação e a ciência bem como a construção, bem como o encargo que representa para o Estado ou mesmo para a Região o Serviço de Saúde tal como está, e não acreditamos que o orçamento comportará depois os custos da automatização por um lado, e do reforço dos meios humanos por outro. 
9- A inflação de estudos banaliza a sua importância e tornam-se peças para que o markting se encarregue depois de criar necessidades e encontrar mercado para vender sonhos aos incautos que, levados pela moda, materializam, mas depois não têm suporte que os sustente.
10- Não pomos em causa a evolução do mundo moderno, antes enaltecemos tudo quanto ele representa para a humanidade.
11- O que nos preocupa é a alienação racional nas pessoas, levadas pelo imediatismo que sem fundamento apelidam de sensacionalismo factos que, para a opinião publicada, são uma “pedrada no charco” para nos confrontar com situações que resultam do comportamento social no pós - modernidade.
12- Foi o que aconteceu com a publicação na Quinta-feira passada da carta deixada por um jovem que pós termo à vida, vítima de bullying na escola que frequentava. 
13- A carta é um testamento de dor que merece ser lido e reflectido pelas várias instituições que lidam com a juventude, desde a família à escola.
14- E não temos medo dos abutres que pela calada da noite se tornam especialistas de tudo, vociferando opiniões que não são mais do que manifestações das frustrações que carregam da vida mal vivida.
15-    Vamos esperar que as entidades competentes averigúem as causas e os causadores da dor que levou aquele jovem de dezasseis anos a pôr termo à vida, para que sejam responsabilizados pelos seus actos.
      
 

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Categorias: Editorial

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