2 de fevereiro de 2019

Um crime com rostos

 1- Ao lermos o Relatório da auditoria à Caixa Geral de Depósitos parece que mergulhamos na trama de um filme de Al Capone passado em Portugal na primeira década do segundo milénio.
2- O dinheiro depositado na Caixa Geral de Depósitos serviu para criar uma teia de poder assustador, com a compra de participações em várias empresas incluindo a banca, privada como o BCP, que terminou depois quase numa tragédia salva pela participação angolana e chinesa.
3- Os empréstimos de milhões e milhões, eram feitos sem garantias para acautelar os riscos, e aprovados de forma leviana, direi mesmo irresponsável. 
4- Enquanto isso, para os pequenos empréstimos eram exigidas garantias reais e pessoais, algumas delas chegando a ser quase duas vezes o valor do crédito, mas sem as quais não havia empréstimo.
5- A Caixa, entre muitas outras operações, participou e financiou a compra de bancos, de cimenteiras, de petrolíferas e até um consórcio para a compra de uma empresa concessionária de águas no Reino Unido.
6- Com a Caixa, o poder político criou uma extensa rede de influência e controlo do tecido empresarial, tendo para o efeito contado com o contributo dos dirigentes da Caixa, agindo por acção ou omissão consoante os interesses em jogo. 
7- Analisados os mapas de grandes devedores que constam da auditoria à Caixa, concluímos que sete deles devem 1.092 milhões de euros, sendo que 3 deles são catalogados como de “risco grave” e 4 de “risco elevado”. Para cobrir o risco desses clientes a Caixa Geral de Depósitos criou uma reserva de 53,8% daquele montante para imparidades.
8- Depois seguem-se 30 clientes com empréstimos no valor de 1.725 milhões de euros considerados devedores de “risco médio”, mas que ainda assim a Caixa constitui uma reserva equivalente a 43,8% dos mil setecentos e vinte cinco milhões de euros de crédito.
9- Pela Caixa, na primeira década e meia do segundo milénio, passaram políticos do PS, do PSD do CDS, e muitos outros independentes, mas que se acomodaram ao partido que na ocasião lhes convinha, como é norma de quem vende a alma ao Diabo para ter poder em benefício e proveito pessoal.
10- Por isso, todos os governos têm culpas no cartório, embora se deva realçar o período em que o Governo de José Sócrates apostou, e conseguiu dominar o poder económico e o poder da comunicação social, através do sistema financeiro, no caso, através da Caixa, do BCP e do BES. 
11- O resultado está à vista e os culpados andam por aí, começando no próprio Presidente do Banco de Portugal, Carlos Costa, que entre 2004 e 2006 foi administrador da Caixa.
12- O que se passou com a gestão da Caixa Geral de Depósitos na primeira década e meia do milénio foi um crime de gestão danosa que tem responsáveis com rosto e que não podem passar incólumes, enquanto os contribuintes gemem com as consequências de toda a má gestão que já comeu mais de 16 000 milhões de euros do Estado. 
13- Espera-se agora que a Comissão de Inquérito a criar na Assembleia da República trabalhe de forma célere e conclusiva.
14- Que os deputados no trabalho que se segue, tenham em conta a indignação e revolta que qualquer cidadão sente por ter sido vítima do saque feito a um banco público alimentado com o dinheiro dos seus depositantes.
15- E por Comissão de Inquérito, aquela que ocorreu na Assembleia Legislativa dos Açores sobre o Sector Empresarial Regional, revelou-se um flop, pela falta de conclusões com medidas políticas a ter em conta uma boa parte das empresas que se vão manter no sector público regional.   
16- Pelos vistos estamos num planeta que transcende a realidade. Por tudo o que foi dito e pela matéria estudada durante os trabalhos temos de concluir que faltou criatividade e propostas alternativas por parte dos parlamentares. É pena!

                   

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Categorias: Editorial

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