V Fórum Vacas Leiteiras

“Se mantivermos o pasto, o mesmo alimento concentrado, melhorarmos a silagem de milho e a feno-silagem já poderemos produzir mais”

“As forragens e as pastagens são a nossa diferenciação e a forma que temos de produzir leite de uma forma mais eficiente e a mais baixo custo”, afirmou o Vice-presidente do Grupo Finançor aquando da realização do V Fórum Vacas Leiteiras, subordinado ao tema “A relevância das pastagens e forragens na alimentação da vaca leiteira”, que pretendeu fornecer aos produtores de leite ali presentes informações e estratégias para melhorar a produtividade das explorações e dos animais.
Neste sentido, de acordo com Romão Braz, “na questão do leite e do custo do leite, o preço da produção é algo que está sempre em cima da mesa, mas entre a produção e a venda há sempre algo que podemos fazer melhor (…), desde a forma como olhamos para as pastagens, a escolha das sementes certas, as forragens bem conservadas. Tudo isso vale muito dinheiro para o dia-a-dia do produtor, ao contrário do que se poderá pensar, e não se pode desperdiçar isso”.
Segundo o empresário, a solução para alguns dos problemas que existem actualmente nas explorações passa pelo maneio que lhe é dado, com uma especial atenção para as questões da salubridade e da alimentação que é dada aos animais, uma vez que estes são dois aspectos que representam “os maiores custos directos” das produções.
Por esse motivo, Romão Braz salienta que para melhorar a qualidade das pastagens açorianas há que “apostar nas forragens e garantir que a ingestão de matérias secas pelas nossas vacas seja, no mínimo dos mínimos, de 50% porque é uma forma de assegurar rentabilidade e sustentabilidade nas explorações de vacas leiteiras”, tendo ainda em conta que “as pastagens e forragens com produção própria garantem menores custos”.
Em dados apresentados durante a sua intervenção, o Vice-presidente do Grupo Finançor adiantou que nas análises laboratoriais levadas a cabo pelos laboratórios da empresa ligada ao ramo agro-alimentar entre o mês de Julho de 2016 e o final do ano de 2018, referentes a cerca de 4 mil amostras de forragens, verificou-se que “em termos de pasto, o que vemos é que, em comparação com os valores de referência, o pasto nos Açores é bom à excepção da distributividade da matéria orgânica que podia ser um bocadinho melhor”.
Já no que diz respeito à silagem de erva, os mesmos dados adiantam que “face aos intervalos de referência poderíamos fazer melhor, já que dá o mesmo trabalho fazer uma silagem com bons parâmetros. Já na feno silagem temos coisas certas e coisas erradas, tal como na silagem de milho”.
De uma forma geral, Romão Braz afirma que estes dados permitem concluir que os produtores açorianos têm “dificuldade em garantir as necessidades dos animais, e isso limita-nos a produção. Já se mantivermos o pasto, o mesmo alimento concentrado e melhorarmos a silagem de milho e a feno silagem já poderemos produzir mais um litro de leite. Pode parecer demasiado simplista mas a verdade é que forragens e silagens de qualidade dão dinheiro e menos custo a fazê-lo”.
Apesar disto, o engenheiro defende que os Açores “são um caso de sucesso do leite”, e que embora “não existam negócios perfeitos, até porque as empresas têm que se adaptar, os produtores têm que se adaptar, nós temos melhorado imenso. Crescemos muito em termos de produção, estamos mais eficientes mas há hipóteses de sermos ainda mais eficientes e termos melhores forragens para conseguirmos produzir leite com menor custo e sermos mais competitivos”.
Para isso, Romão Braz afirma que poderá haver um decréscimo na quantidade de rações que compram os produtores, uma vez que essa pode ser uma das estratégias utilizadas para maximizar as potencialidades das explorações agrícolas e do sector leiteiro: “O meu objectivo não é vender ração mas sim o de ter produtores que sejam sustentáveis e que estejam presentes, se isso implicar que haja um menor consumo de ração então cá estaremos para apoiar o sector”.
Essa diminuição, ou não, do consumo de ração por parte dos produtores irá depender, afirma o Vice-presidente do Grupo Finançor, de cada uma das explorações, uma vez que cada caso é um caso: “O que sabemos é que cada exploração é uma exploração e nós temos centenas de clientes que têm forragens em abundância e um bom complemento de ração, e há outros que têm menos forragens e que por isso dão mais ração aos seus animais. O nosso papel é tentar ajudar da melhor maneira possível o produtor”.
No que diz respeito ao sector agro-pecuário da actualidade, Romão Braz afirma que “mais do que pensar que é necessário reduzir vacas ou tomar outras medidas, o importante será perceber se o nível de produção de leite que temos se adapta às necessidades da indústria e se a indústria vê na produção aquilo que precisa para desenvolver os seus mercados”, constatando que o preço do leite nos Açores está “realmente baixo e que não houve recuperação ao contrário daquilo que aconteceu a nível europeu”, culminando nas dificuldades de escoamento de produtos que existe actualmente.
Por esse motivo, Romão Braz adianta que, na sua opinião, o que deverá acontecer na indústria de lacticínios será, num panorama estabelecido para o médio e longo prazo, uma procura de “novos mercados e novos produtos” que poderão estar, por exemplo, na China, na Índia ou num conjunto de vários países africanos que “são deficitários em produtos alimentares e no leite” e que, por isso, “qualquer produto alimentar, seja dos Açores, de Portugal continental ou do resto da Europa, vai ter que passar pela exportação para os mercados asiáticos”.
No que à estratégia da Finançor diz respeito, uma vez que está ligada à produção de alimentos para animais, Romão Braz afirma que “ao não existirem produtores de leite também não teremos negócio, e por isso precisamos e queremos muito que o sector do leite e lacticínios tenham futuro”, sendo por esse motivo uma das preocupações do empresário fazer com que os produtores “sejam mais eficientes e tenham um custo menor com a alimentação das vacas, enquanto os produtores procuram ser mais eficientes e a indústria tem que procurar os seus mercados e lançar os seus produtos”.
De acordo com a intervenção de Luís Magalhães, que ao longo da sua vida profissional tem vindo a aprofundar conhecimentos no que diz respeito a pastagens e a silagens de erva, a fórmula mágica para garantir o sucesso de uma exploração agrícola passa por “combinar a alimentação e o maneio com as necessidades dos animais da forma mais eficiente possível, pois só assim se poderá continuar com a actividade e ganhar dinheiro como se pretende”.
Assim sendo, uma das estratégias principais para garantir este sucesso passa também pelo “pastoreio nas alturas certas, de forma correcta e com cargas animais adequadas”, o que inclui ainda fazer uma boa gestão da pastagem, tal como “saber quando cortar e como cortar”, optando assim por melhorar os recursos existentes e ponderar, “se necessário, instalar novas pastagens e semeá-las”, ou saber quando deixar a pastagem repousar.
Numa intervenção destinada aos produtores presentes no evento, Luís Magalhães afirmou ainda que “é possível fazermos melhorias nas pastagens com herbicidas selectivos, para retirar algumas espécies que não queremos e com a fertilização selectiva fertilizarmos com determinados nutrientes com o objectivo de puxarmos pelas grainhas ou pelas leguminosas”.
Para o engenheiro convidado a fazer parte deste evento, a incubação de leguminosas nas pastagens açorianas pode também ser vantajosa, uma vez que “melhoram a qualidade do alimento por terem mais quantidade de proteína e permitirem uma maior capacidade de ingestão”, considerando ainda que as leguminosas permitirão fixar uma grande quantidade de azoto atmosférico, “que fica disponível para a própria planta mas também para as plantas que estão ao lado, permitindo poupar dinheiro em fertilização porque também aumentam a fertilidade dos solos”, explicou.

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Revista Pub açorianissima