8 de fevereiro de 2019

Cesto da Gávea

A doença grevista

Tem sido uma constante dos últimos dois anos o aparecimento em Portugal de notícias negativas em todas as áreas de caráter social, nomeadamente na Educação, Justiça e Saúde. Dá impressão que um vento de mau agoiro percorre o Estado Social e os 3 pilares de sustentação daquilo que são hoje necessidades prementes da vida na União Europeia. Grande parte desta situação decorre da desastrada atuação dos governos e da obsessão pelas metas de défices, crescimento, finanças e todo um rol de matérias que, tendo como objetivo o lucro para alguns, esquecem o lado humano da imensa maioria. Num país como o nosso, onde ainda se vive em democracia e respira liberdade, os tais pilares fundamentais têm de ser sólidos e merecer atenção e recursos do Estado, particularmente na Saúde, por uma razão simples: sem ela pode morrer-se e tudo o resto deixa de ser importante. 
Uma greve nos estivadores do porto de Setúbal compromete uma fatia importante da riqueza nacional (3 a 4%, segundo consta) outra nos magistrados ou nos funcionários judiciais provoca descrença e alimenta revoltas, uma semelhante nos professores afeta  jovens e  famílias. Mas, ao que se sabe, um adiamento de milhares de cirurgias devido a greves do pessoal de saúde, sejam médicos, enfermeiros, técnicos superiores ou auxiliares vai mais fundo, porque põe vidas em risco. Ora. Ao contrário do que a propaganda político-partidária mais ou menos governamental difunde, a principal responsabilidade cabe ao Governo, a quem cabe proteger os cidadãos, criando condições que evitem greves em hospitais públicos e centros de saúde. Para isso pagamos impostos, não para tapar os buracos criados pela incompetência e avidez  da banca e da finança. Para as quais, infelizmente, existem recursos permanentemente disponíveis. Chegamos assim ao ápice da questão,  a greve da enfermagem cirúrgica que tanta celeuma vem provocando, com relativo silêncio dos principais lesados, os pacientes que aguardarão mais meses até serem operados. 
Parece estranho, mas não é, porque os inquéritos aos utentes dos hospitais públicos  continuam a demonstrar um apreciável índice de satisfação com o Serviço Nacional de Saúde. Além de que, por mais mal que digam, os serviços convencionados com hospitais privados proliferam com sucesso evidente. Até aqui nos Açores veremos isso, com a entrada em funcionamento do Hospital Internacional de Lagoa. Então, porque se deixam agudizar crises como esta dos enfermeiros? Porque se politizam a tal ponto os debates, discussões e negociações entre Governo e Ordem dos Enfermeiros? Porque se “crucifixa” a Bastonária da Ordem, como se fosse uma criminosa, ameaçando com requisições civis e procedimentos judiciais? Julgo termos a resposta na forma inédita como os enfermeiros, em tempo eleitoral, usaram as redes sociais e a angariação de fundos para apoiar a greve, pondo em xeque sindicatos tradicionais, partidos políticos e governantes. E se a “moda” pega, vai ser o bom e o bonito para tratar esta e outras doenças grevistas.

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Categorias: Opinião

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