Hospitalização no domicílio é realidade no continente e pode chegar aos Açores

“No hospital acaba por ser a doença a estar no controlo do doente e em casa é o doente que está no controlo da doença”, diz Delfim Rodrigues

Apesar de não ser uma estratégia inovadora e moderna na medicina tradicional, a hospitalização domiciliária tem vindo a ser cada vez mais comum um pouco por todo o mundo, conforme explicou Delfim Rodrigues no seguimento da sua intervenção no 17.º Caminho dos Hospitais, realizado ontem no Hospital do Divino Espírito Santo subordinado ao tema “A saúde nas ilhas atlânticas”.
De acordo com o Coordenador do Programa Nacional de Implementação das Unidades de Hospitalização Domiciliária nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, esta poderia ser uma estratégia valiosa para os Açores, quando aplicada nas localidades ou ilhas com menor densidade populacional, uma vez que nesses sítios poderá ser mais difícil aceder aos cuidados de saúde.
Quando questionado se esta poderia ser uma estratégia valiosa para um arquipélago como o dos Açores, Delfim Rodrigues respondeu: “Penso que sim. Apesar de vir aqui apenas partilhar experiências, o que vemos é que até pela diversidade que a Região representa, com as suas nove ilhas muito dispersas, com diversidade de população e apenas com três hospitais, em ilhas como o Corvo que tem cerca de 400 pessoas e onde não haverá um hospital construído pela Região, poderia fazer-se uma prestação domiciliária, já que esta é a ilha mais remota do centro político e administrativo da Região”.
Apesar de existir, por vezes, o argumento de que nas regiões socialmente reprimidas esta estratégia não é válida, Delfim Rodrigues adianta que isto não é verdade, já que “até a Holanda e a Dinamarca estão a fazer prestação domiciliária aos sem-abrigo, tratados pelas associações e pelas igrejas”.
Em prática, para que um doente seja hospitalizado em casa, adianta o coordenador deste projecto nos hospitais do Sistema Nacional de Saúde, “o primeiro critério é a aquiescência do doente, dentro de um livre e informado consentimento, já o segundo critério passa por ter um diagnóstico clínico perfeitamente estabelecido, e o terceiro passa por ter algumas condições de habitabilidade, o que significa fundamentalmente ter água potável, saneamento básico e ter acesso de forma permanente aos meios de comunicação, nomeadamente telefone”.
Segundo o profissional de saúde, “na generalidade das situações, não é seguramente do interesse do doente e das famílias mantê-los no hospital, até porque os hospitais, por natureza, são locais perigosos e onde se adoece mais, e por termos uma população cada vez mais envelhecida, e a Região Autónoma dos Açores não foge a essa regra, as doenças crónicas acentuam-se”.
Assim, Delfim Rodrigues adianta que num doente que esteja hospitalizado no próprio domicílio, quando em comparação com um doente que esteja hospitalizado no ambiente hospitalar, há uma diminuição na taxa de mortalidade em 24%, havendo também uma diminuição em 30% da necessidade de reinternamento hospitalar, sendo esta uma forma de internamento que reduz para zero a taxa de infecção hospitalar.
Ainda no que aos internamentos hospitalares diz respeito, Delfim Rodrigues salienta que em cada dez internamentos pelo menos num são registados “efeitos adversos, efeitos que supostamente não deveriam acontecer, e 70% desses efeitos adversos poderiam ser completamente evitados”, algo que diz acontecer com mais naturalidade em casa do doente.
Outro aspecto negativo dos internamentos em ambiente hospitalar quando comparado com a possibilidade de haver um internamento domiciliário passa pelas condições de saúde apresentadas pelo doente após a alta hospitalar: “É do nosso conhecimento, através da análise de dados que fazemos, que 30% dos doentes com mais de 70 anos que são internados em hospitais, e não só aqui em Portugal, saem dos hospitais em piores condições de saúde do que aquelas com que entraram,  (…) e 60% dos doentes com mais de 85 anos saem também em piores condições de saúde do que aquelas com que entraram”.
Para o Coordenador do Programa Nacional de Implementação das Unidades de Hospitalização Domiciliária nos hospitais do SNS, esta forma de cuidar de doentes com várias patologias é “uma forma muito mais humanizada e centrada no doente e nas famílias. Aquilo que vemos quando vamos a casa do doente, e quando falamos com o mesmo doente quando este estava no hospital é uma diferença enorme e que se traduz numa coisa simples: No hospital acaba por ser a doença a estar no controlo do doente, e em casa do doente é o doente e a família que está no controlo da doença”.
Para além disto, através do internamento domiciliário a equipa médica consegue “dedicar mais tempo às pessoas do que aquele que podem dedicar nos hospitais, e esta relação de intimidade entre a equipa de saúde, o doente e a sua família acaba por contribuir de uma forma decisiva também para a recuperação do doente”, adiantando ainda que “os serviços de saúde não são o principal elemento responsável pela recuperação do doente”, ao contrário do que se pode pensar.
Já no que à operacionalização deste sistema de cuidados de saúde, Delfim Rodrigues adianta que este funciona como “um efeito de substituição” já que este se traduz na utilização dos mesmos recursos que são utilizados nos hospitais mas que permitem aliviar, em parte, o sistema, uma vez que “se diariamente tratarmos 20 doentes nas suas casas, então isso significa que não os terei no hospital”, sendo possível que um médico, com a intervenção de dois enfermeiros, consiga tratar até 10 doentes em simultâneo.
No entanto, para colocar esta rede de cuidados em funcionamento, o coordenador deste projecto nos hospitais ligados ao Sistema Nacional de Saúde adianta que “é necessária toda uma logística para pôr tudo isto em funcionamento, uma vez que é preciso uma viatura, é preciso estabelecer escalas e rotas e é preciso, sobretudo, envolver todo o hospital, desde os serviços farmacêuticos, os trabalhadores sociais, a nutrição, etc.”
Por seu turno, de acordo com o Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, organizador do evento que juntou vários profissionais de saúde em Ponta Delgada, “a hospitalização domiciliária é uma estratégia que reflecte a nossa capacidade de alargar a prestação de cuidados referenciados mais ajustadas às necessidades das pessoas, possibilitando que os doentes sejam internados na sua própria casa com a mesma qualidade de cuidados e de uma forma muito mais agradável”.
Neste sentido, para Alexandre Lourenço, esta não é uma estratégia utilizada no sentido de reduzir os custos que os hospitais actualmente têm, uma vez que esta opção reflecte a necessidade de se fazer “um investimento inicial, quer na questão da formação dos profissionais quer na dotação de equipamentos para iniciar este trajecto”, sendo no entanto uma “experiência muito melhor do que a hospitalização em ambiente hospitalar”.
 

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