Padre João Furtado da Paróquia de Água de Pau e responsável pela Ouvidoria da Lagoa

Problema da pobreza e exclusão social “ainda não foi erradicado após tantos anos de Autonomia” e isto “impressiona-me”

O Padre João Furtado falou à nossa reportagem, entre outras coisas, da Rede de Pólos Locais de Desenvolvimento e Coesão Social, prevista no Plano de Acção 2018-2019 da Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, relevando que impressiona-se “com o facto deste problema ainda não ter sido erradicado, após tantos anos de Autonomia”.
No demais considera que “quem tem este poder é o Estado e esta missão de bem servir. O Estado somos nós, mas tem os seus governantes que foram eleitos, legitimamente, em relação aos quais tenho de ter muito respeito. Estou certo, que na consciência muitos governantes têm este objectivo, que é estar ao serviço do ser humano, acima de tudo. E acima de tudo para com aquelas pessoas que têm mais fragilidades. Sabemos que, por vezes, esse trabalho não é fácil. Contudo penso que têm boas intenções e se calhar fazem o melhor que podem, naturalmente com a colaboração de várias instituições e também a Igreja entra em acção. Aqui em Água de Pau estamos sempre muito em comunhão com as comunidades e com os serviços sociais da Câmara Municipal, com as Misericórdias e com os núcleos da Cáritas. O que é que a Igreja pode fazer? Tem duas casas, uma já está ao cuidado de uma pessoa que tem uma mãe e uma filha, que lá estão. Há uma outra casa para o lado do Paul, que é da Paróquia e lá teve uma família, mas como a moradia não oferecia boas condições foi de lá retirada e foi para um pré-fabricado para podermos reparar a casa. A Câmara Municipal da Lagoa vai também entrar no processo e já tem, inclusivamente, um projecto para depois a família vai ser realojada”. 
“O sacerdote também pode exercer a sua influência, mas sempre com espírito de diálogo e com o espírito de cooperar e é o que está a fazer, com pequenos gestos que vão acontecendo em prol das pessoas que mais precisam”, acrescentou.

Padre natural do Porto Formoso e responsável pela Ouvidoria da Lagoa

Natural do Porto Formoso, o Padre João Furtado, de 61 anos de idade, está em Água de Pau há 14 anos, feitos em Agosto de 2018. Na Ouvidoria da Lagoa vai fazer 25 anos, em Outubro próximo.
Antes tinha estado na Fazenda do Nordeste, quer isto dizer que a sua primeira Paróquia foi a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na Lomba da Fazenda, acumulando depois a Paróquia de Santana, no Concelho do Nordeste, ficando mais tarde com a Paróquia de Nossa Senhora do Amparo, na Algarvia.
Precisamente no último domingo de Agosto de 1994, o Padre João Furtado faz a sua despedida naquela zona do Nordeste e vem para Santa Cruz da Lagoa, a 2 de Outubro desse ano, onde ficou Pároco na Matriz de Santa Cruz e dos Remédios, que é um Curato ficando ainda a leccionar Educação Moral Religiosa e Católica nas escolas dos Fisher e dos Frades.
Também naquela altura, os padres e os sacerdotes elegeram-no como Ouvidor Eclesiástico com D. Aurélio Granada Escudeiro a anunciar a sua nomeação, para ser Ouvidor, durante 12 anos.
“É uma Ouvidoria que tem sete paróquias, tem um Curato, tem oito sacerdotes, seis no activo e dois na aposentação. A começar por Nascente, temos a Paróquia de São José, da Ribeira Chã, a Paróquia de Nossa Senhora dos Anjos de Água de Pau, a Paróquia de Santa Cruz da Lagoa, a Paróquia onde está incluído o Curato de Nossa Senhora dos Remédios, que é Paróquia é um Curato, a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário da Lagoa, a Paróquia de Nossa Senhora das Necessidades da Atalhada, a Paróquia de Nossa Senhora da Misericórdia do Cabouco e Paróquia de Nossa Senhora do Livramento. São estas as paróquias que compõem esta Ouvidoria da Lagoa”.
Esta Ouvidoria da Lagoa foi criada em Abril de 1985 e é uma Ouvidoria que ultrapassa, mais ou menos, as fronteiras do Concelho porque vai desde a Ribeira Chã até à Atalhada, inclusivamente até ao Livramento, que pertence ao Concelho de Ponta Delgada. Tem cerca de 18 mil e 600 pessoas.

“Já sou padre há 36 anos 
e noto diferenças substanciais”

Questionado acerca das diferenças que encontra do tempo que chegou a Água de Pau comparativamente com os dias de hoje, releva que “as coisas estão em aceleração e estão em mudança permanente. Já sou padre há quase 36 anos e noto que há diferenças substanciais. Os contextos são outros, as circunstâncias, as coisas estão a evoluir de formas diversas, e portanto, ser Pároco e ser Sacerdote hoje em dia é um pouco diferente de há 20 ou 35 anos atrás. Nota-se que as coisas estão a ter outros contextos e outras circunstâncias e a Igreja vai-se adaptando ao nível da Catequese ao nível da Liturgia, ao nível de estar com as pessoas, dos nossos relacionamentos, quer dizer que tudo é diferente. No essencial é sempre igual, naquilo que é fundamental em termos de Igreja, mas a roupagem é diferente até mesmo ao nível da linguagem porque os contextos são outros e nota-se por exemplo, nas catequeses as crianças estão muito diferentes, mesmo nas escolas tudo é diferente e ser Padre hoje é diferente hoje em dia. Ser Padre ou ser professor é diferente e ser pai ou mãe também é diferente e quer isto dizer que hoje as exigências são outras e são diferentes daquelas que existiam há 30 anos atrás”.

As novas tecnologias trazem vantagens 
e desvantagens

No seu entender, as diferenças notam-se mesmo ao nível das tecnologias. Aqui tudo é ainda diferente. “Estamos na era digital que permite um grande relacionamento, no virtual, não de uma maneira pessoal e directa, mas permite uma comunicação muito mais acelerada, mas também tem inconvenientes porque sabemos que há prós e contras. Vamos agora admitir, por exemplo, filmar ou colocar uma celebração na Internet, isso trás vantagens no sentido que há emigrantes e há pessoas que são da terra e estão a acompanhar o que está a acontecer, e ficam contentes e matam as saudades, porque vive-se a nostalgia nesses lugares, no Canadá ou na América, e nota-se isso. Por outro lado, também, torna-se numa rotina, ou seja, não passa daquilo e, mais, já que os que participam ou os que estão a ser, como que alvo da imagem também, por vezes, perde-se um pouco da sua privacidade e questionam qual é a necessidade de ficarem a saber que sou daquela paróquia e fui àquela assistir a uma missa, ou seja, há também esses inconvenientes. Tudo tem o seu tempo e percebo, utilizo a Internet, mas não tenho Facebook por opção. Não preciso porque às vezes criam-se necessidades sem necessidade. Ouço que tem coisas muito boas, sobretudo para comunicar, partilhar e tudo mais, mas também tem muito inconvenientes”.

Viagem histórica do Papa aos Emigrados 
Árabes “é factor de comunhão”

Sobre a viagem histórica do Papa Francisco aos Emirados Árabes, o Padre João Furtado “vê com bons olhos essa aproximação, porque o que está aqui em jogo é humanidade com respeito pela diferença. Nós sabemos que há três grandes religiões monoteístas, que é o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, que são religiões que acreditam em Deus. É claro que há uma concepção diferente pela maneira como se vê o nosso Deus, que é Pai, que é o Criador e o Senhor de toda a criação. Para nós cristãos temos uma concepção de um Deus em família, Pai, Filho e Espírito Santo. E que nos fala e quem diz isso é o nosso Jesus Cristo, que fala do Pai e fala do Espírito Santo, que é um só Deus entre as pessoas distintas na função, na missão, mas iguais na essência, na substância, ou seja, é o mesmo Deus. Para o Judaísmo é um Deus numa pessoa, o Deus de Abraão, portanto ainda não tinham descoberto que é um Deus de família. Para o Islamismo, também este Deus, que é o nosso Deus, o Deus de Abraão, numa pessoa, o Allah, o nosso Deus, isto já é um factor de comunhão e o Concílio Vaticano II chama a atenção para isso, para este respeito e também para este movimento de encontro, uns com os outros, respeitando a diferença.
Gostei e o facto do Papa Francisco ter ido aos Emirados Árabes, vejo isto como uma aproximação e também para que haja pontos comuns a serem respeitados pela humanidade. Aliás, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram uma declaração inédita que condena terrorismo e intolerância.
A declaração alude a uma “deterioração moral” que influencia a acção internacional e questiona o “silêncio inaceitável” perante as crises que originam “a morte de milhões de crianças”.
“Condenamos todas as práticas que são uma ameaça à vida, como o genocídio, actos de terrorismo, deslocamento forçado, tráfico de pessoas, aborto e eutanásia. Da mesma forma, condenamos as políticas que promovem essas práticas”, acrescentam os signatários.
Acho que isto é uma bênção de Deus, quer dizer que a humanidade, que tem concepções diferentes na vida, porque também tem as outras igrejas, como a Igreja Ortodoxa, a Igreja Anglicana, a Igreja Evangélica, entre outras, acaba por assumir que somos todos irmãos em Cristo e todos têm uma concepção de Deus em família, Pai, Filho e Espírito Santo. É a grande religião cristã e é o movimento ecuménico de aproximação destas igrejas. Quando é que isso vai dar, essa comunhão, só Deus é que sabe e o Espírito Santo vai também trabalhando. Uma coisa é certa, hoje em dia há muito mais respeito entre as igrejas e não se desconsideram. Numa leitura espiritual o Santo Padre está a concretizar os desígnios de Deus, respeitando a diferenças.

À espera de melhor teto: 14 pessoas vivem empilhadas em pré-fabricado

Não são dados mundiais de pobreza da ONU, muito menos do Banco Mundial. São factos reais que se passam em pleno Século XXI na nossa ilha. E o que a seguir lhe contamos passa despercebido a todos quantos passam pela via rápida que segue em direcção para Vila Franca do Campo com saída para Água D’Alto. Em Água de Pau, mesmo por debaixo dos pilares do viaduto da SCUT vivem 14 pessoas num único pré-fabricado, à espera de um melhor teto. São 12 membros da mesma família e outros dois de outro agregado familiar que partilham a mesma cozinha e uma minúscula casa de banho, sem esquecer a divisória onde todos dormem empilhados.

Maria Medeiros sobrevive com pensão 
de pouco mais de 50 Euros

Um membro da família concordou falar connosco, concretamente Maria dos Anjos Vieira Medeiros, com 65 anos de idade. É viúva e recebe uma pensão de pouco mais de 60 Euros, porque deixou de receber o Rendimento Social de Inserção (RSI). Paga 20 Euros por ocupar aquele espaço e o restante é para a alimentação, já que a luz, água e gás são despesas que o Governo assegura.
E porque o dinheiro não dá para pagar a alimentação de todos, esta família vive da caridade das pessoas e das instituições de solidariedade social, à espera que a casa, que é propriedade da Paróquia venha a ter as condições indispensáveis para sua habitabilidade. Até lá, não há outro remédio senão esperar e já lá vão 7 meses, sem que a obra se inicie.

Diagnóstico até ao final do mês

Entretanto, o Pólo Local de Desenvolvimento e Coesão Social de Água de Pau, em São Miguel, terá diagnóstico até final deste mês, os casos mais prementes naquela Vila e isto foi tornado público por Paulo Fontes, coordenador deste pólo, que falava à margem de uma reunião com a equipa de intervenção e monotorização e após a visita a algumas instituições da localidade, que também contou com a presença da Secretária Regional da Solidariedade Social, Andreia Cardoso, e dos secretários regionais da Educação e Cultura, Avelino Menezes, e da Saúde, Rui Luís.
O Director Regional salientou que, logo após o diagnóstico, o plano de acção para Água de Pau será apresentado.
Recorde-se ainda que a Rede de Pólos Locais de Desenvolvimento e Coesão Local, prevista no Plano de acção 2018-2019 da Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, foi criada com o intuito de olhar para os territórios a partir do seu interior, identificando as fragilidades e as potencialidades, e capacitando as comunidades para a construção de soluções participadas.

Plano do Governo para 2018-2019: 
Prioridades e objectivos

A Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social do executivo açoriano, que foi aprovado através da Resolução n.º 72/2018, de 20 de Junho, para o período de 2018/2028 está definida em quatro grandes prioridades de intervenção, com o objectivo central de reduzir os níveis de pobreza na Região.
São prioridades: 
- Assegurar a todas as crianças e jovens, desde o início de vida, um processo de desenvolvimento integral e inclusivo; 
- Reforçar a coesão social na Região; 
- Promover uma intervenção territorializada; 
- Garantir o conhecimento adequado sobre o fenómeno da pobreza na Região.
A partir das prioridades definidas na Estratégia e face às áreas de maior fragilidade identificadas no referido Diagnóstico, identificam-se, para este primeiro biénio, quatro objectivos específicos norteadores da acção, a saber:
- Assegurar que todos os cidadãos, em especial as crianças e os jovens, possam exercer plenamente o direito universal aos cuidados de saúde, nomeadamente através de medidas de promoção da saúde e prevenção da doença, bem como o acesso a serviços de saúde de qualidade;  
- Tornar os sistemas educativos mais aptos a romper o ciclo vicioso da desigualdade, fazendo com que todas as crianças e jovens usufruam de uma educação inclusiva e de qualidade, que contribua para o desenvolvimento físico cognitivo, social e emocional;  
- Garantir a equidade no acesso a serviços de qualidade e economicamente comportáveis para as famílias;  
- Melhorar a inserção no mercado de trabalho, particularmente dos jovens, através do suporte à procura de emprego e qualificação adequada.

 

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