FACE A FACE!... com Sónia Borges de Sousa

“Considero fundamental para o progresso da Região a criação de partidos regionais e de círculos uninominais”

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Mulher, 56 anos, mãe de dois filhos.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Aos 18 anos, tendo concluído o 12º ano e tendo em conta que as aulas na universidade só começavam em Janeiro fui trabalhar para o Armazém Canadá, onde vendi muitas calças de ganga na secção de homem. No 2º ano da universidade comecei a dar aulas de contabilidade, e fui professora durante 6 anos.
Posteriormente, trabalhei numa empresa de navegação em regime parcial até integrar os quadros da A.C. Cymbron. Comecei pela contabilidade, passei pelos serviços técnicos, direcção comercial até ascender à Administração. Este percurso permitiu-me conhecer “os cantos à casa”.
Pelo caminho, estive envolvida em causas, sou membro da Amnistia Internacional desde os meus 19 anos, integrei a Direcção da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, fui vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada, e estive envolvida no projecto InfoSolidário, e no Rotary Club de Ponta Delgada.

Como se define a nível profissional?
Quer a nível profissional, quer no geral julgo que me pauto pela justiça, pela verdade, e pela perseverança em atingir os fins a que me proponho.

Quais as suas responsabilidades?
Quando se gere uma empresa com 100 trabalhadores, garantir o ordenado de cada um deles no final de cada mês, cumprir as obrigações para com toda a cadeia, tendo presente a ética e moral.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família está sempre em primeiro lugar, está no meu coração. A grande diferença é o tempo disponível, quer pela carga horária escolar e actividades extracurriculares dos filhos, quer pelo facto de ambos os pais trabalharem. Quando me criei, a minha mãe estava em casa, acompanhava os meus estudos, matava a minha curiosidade, educava-me e instruía-me.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Penso que talvez o maior impacto do desaparecimento da família tradicional seja a prevalência do individualismo versus o colectivo. Hoje lida-se mais com o egoísmo, prepotência, o fosso entre classes sociais regrediu, e oportunidades iguais é um mito.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Os amigos são os nossos psicólogos, antidepressivos, companheiros de alegrias, vitórias e derrotas. No meu caso, por vezes são os irmãos que não tenho.

Além da sua actividade, o que mais faz?
Gosto de cozinhar, inventar novos pratos. Por vezes escrevo, outras vezes pinto, outras, bordo. No Verão gosto de nadar.

Que sonhos alimentou em criança?
Aos 6 anos dizia que queria ir trabalhar com o meu pai, o que na realidade aconteceu. Ensinaram-me a lutar pelo que desejo, e julgo ter realizado a maioria dos meus desejos.

O que mais o incomoda nos outros?
O que mais me incomoda é a injustiça e a mentira dolosa.

Que características mais admira no sexo oposto?
Admiro, seja no sexo oposto ou no meu, a rectidão de carácter, a verdade, o companheirismo.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
“O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, “O Meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos, “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, “O Profeta”, de Kahlil Gibran.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
As redes sociais abriram o acesso à informação, há que saber escolher e seleccionar o que tem conteúdo e bases verídicas, das notícias constituídas para atingir alvos. Hoje os órgãos de comunicação têm uma concorrência activa por esta via.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Presumo que sim, vivi anos sem os mesmos, tenho muito com que me entreter, contudo teria a vida mais dificultada em termos profissionais.

Costuma ler jornais?
Leio diariamente a impressa regional e notícias da área económica provenientes de vários jornais (uma das vantagens da internet).

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
Acredito na participação cívica, não podemos criticar, destruir, e não estarmos disponíveis para contribuir e construir. Creio em causas, mas não gosto de ideologias (talvez tenha uma veia anárquica no conceito mais puro da palavra). Ao longo da minha vida sempre que considerei que poderia dar um contributo positivo, estive disponível.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto de viajar, e a ida a Patagónia foi a minha viagem de eleição, espero voltar um dia.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Tive um avô da Beira Alta e uma avó Algarvia donde adoro “arroz lingueirão”, “cabrito assado”, “chicharros recheados”, e um bom queijo de São Jorge.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Não há fome no mundo.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Garantir o acesso à saúde, educação a todos, criar proteção para as pessoas de 3ª idade.

Qual a máxima que o/a inspira?
Respirar fundo, pensar, agir.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Na actual.

Como vê a economia dos Açores neste início de 2019?
Embora os indicadores económicos tenham melhorado, a dívida pública e privada são preocupantes. A nossa economia é frágil, não somos auto-suficientes e sobrevivemos de subsídios. Uma crise financeira mundial é o suficiente para regredirmos uma dezena de anos.

Quais as medidas estruturantes que entende necessárias para sustentar e desenvolver a economia da Região?
Diversificar a agricultura, continuar a investir milhões na lavoura não creio ser a melhor opção. Apostaria num sector industrial inovador relacionado com o aproveitamento da nossa flora e produções agrícolas alternativas. Apoio a um Turismo de qualidade e sustentável. Finalmente exigiria Responsabilidade Fiscal e cumprimento rigoroso na execução dos orçamentos públicos.

Acredita numa grande adesão dos açorianos aos carros eléctricos? Que impacto terá este tipo de viaturas na economia dos combustíveis?
Creio que não terão grande impacto nos próximos 10 anos, já estão surgindo novas alternativas, menos poluentes. As baterias dos carros eléctricos poderão deixar uma pegada ecológica grave, para além de nos Açores a electricidade produzida por fuelóleo ainda ter um peso de 50%. O preço dos carros eléctricos é um factor desmotivador, e em termos de política fiscal para as empresas, apenas o gasóleo é considerado como custo plausível de deduções.

Que análise faz ao sistema regional de saúde?
De uma forma geral, face à nossa dimensão e capacidade, considero o Sistema Regional de Saúde bom. Nunca teremos todos os meios ao nosso dispor, e teremos sempre que encaminhar doentes para o continente, ou outras ilhas, contingência da nossa condição arquipelágica e demográfica.

Acredita no êxito da reestruturação do sector empresarial regional? Porquê?
Acredito, só posso acreditar! E … espero que a SATA rapidamente inverta os seus resultados. Julgo que ainda não pensamos seriamente no que seria a nossa dependência de uma companhia externa à Região no que concerne às ligações inter-ilhas.

Tem algo mais que considere interessante e importante que queira acrescentar a esta entrevista?
Gostaria e porque considero fundamental para o progresso da Região a possibilidade da criação de partidos regionais e círculos uninominais.
                                       

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Autor: CA

Categorias: Regional

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