9 de fevereiro de 2019

Negociações finais para o porto espacial de Santa Maria terminam no mês de Abril

Dos 14 consórcios internacionais interessados em explorar aquele que virá a ser o porto espacial de Santa Maria restavam, conforme anunciado pelo Governo Regional no passado mês de Dezembro, cinco consórcios internacionais que, durante este mês de Fevereiro, deverão submeter as suas propostas completas para que sejam analisadas detalhadamente, propostas estas que deverão advir da Avio, empresa italiana, da Consórcio Azul e da PLD Space, de Espanha, e da Isar Aerospace Technologies e Rocket Factory Ausgsburg, ambas com sede na Alemanha.
O documento oficial que diz respeito ao programa de lançamento de satélites no Atlântico indica que será durante o mês de Março que se irá iniciar a terceira fase deste concurso, altura em que deverão estar finalizadas todas as propostas que, até ao mês de Maio estarão em fase final de avaliação, baseada numa análise detalhada às propostas feita por um comité internacional especializado na área, sendo que durante o mês de Abril haverá espaço para que ocorram negociações finais com as empresas interessadas.
De acordo com o documento em causa, entre os meses de Abril e Maio deverá ser ainda estabelecido um contrato para o desenvolvimento e operação do porto espacial, com o objectivo de instalar esta infra-estrutura no lugar da Malbusca, cuja fase de execução deverá ocorrer entre os meses de Maio e Junho de 2019 até igual período do ano de 2021, esperando-se por isso que entre a Primavera e o Verão de 2021 ocorram os primeiros lançamentos de microssatélites a partir dos Açores.
Em Outubro do ano passado, numa entrevista cedida ao Correio dos Açores, Gui Menezes adiantava que existiam três empresas que mantinham interesse no consórcio do porto espacial, uma vez que tinham sido essas as empresas que teriam apresentado estudos de viabilidade à European Space Agency (ESA) que incluíam também estudos de impacto ambiental para os Açores de uma forma geral, indicando que “outras empresas demonstraram interesse no projecto mas no sentido de vierem a prestar serviços que possam advir da implementação de um porto espacial nos Açores”.
Neste sentido, o Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia garantiu que as empresas internacionais que irão disputar o consórcio para o lançamento de microssatélites, esperado nos Açores em 2021, deverão “comprovar e demonstrar que haverá fixação de emprego e de pessoas na Região e também fixação de empresas. Têm que comprovar também como elas prevêem ou estimam que todo este ecossistema possa ser fixado e dinamizado nos Açores, porque nós não queremos ter um sítio só para virem cá de vez em quando fazer lançamentos e depois irem embora. Isso não nos serve e não será este o espírito com que nós estamos neste projecto”.
Por esse motivo, o concurso público internacional deverá ter estas exigências definidas nos seus cadernos de encargo, sendo que até Outubro (altura em que foi feita esta entrevista) o que existiu foi o lançamento de um concurso para demonstração de interesse por parte das empresas, para aferir o verdadeiro interesse que teriam na ilha de Santa Maria e “para avançarem algumas questões importantes, como as questões de segurança, as questões tecnológicas e as questões de impacto ambiental”, afirmou o secretário.
Por esse motivo, em Outubro passado era adiantado que no caso de os projectos apresentados “não cumprirem com aquilo que é proposto pelo Governo Regional em termos de economia, de desenvolvimento regional, de empregos qualificados, de ambiente e etc.”, o processo poderia correr o risco de não avançar.
No entanto, espera-se que este projecto, ao ser implementado nos Açores, permita obter retorno a vários níveis uma vez que, de acordo com Gui Menezes, “um porto espacial na Região pode alavancar uma série de outras iniciativas e de outras empresas de uma forma muito significativa”, esperando-se que as empresas existentes no país ligadas à área aeroespacial ganhem mais contratos e mais serviços com a existência deste porto, permitindo ainda que surjam outros negócios e serviços, ou que sejam os centros de investigação sejam estimulados.
Outro benefício, espera o Governo Regional, está ligado à criação de emprego directo e indirecto que poderá surgir, chamando para a Região a fixação de empresas e de pessoas, podendo ser também uma oportunidade para que se fixem jovens portugueses com cursos ligados à área aeroespacial.
Em acréscimo, esta semana o Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia adiantou que a Universidade de Massachusetts Lowel, através de uma investigadora, terá interesse em colaborar com os Açores no âmbito da Estação RAEGE em Santa Maria, havendo por isso a possibilidade de se organizar uma visita no próximo mês de Junho, na qual uma comitiva desta instituição norte-americana virá aos Açores com o propósito de “conhecer o sistema científico regional”, e o trabalho de investigação que tem sido desenvolvido nesta área com o objectivo de se estabelecerem novas parcerias.
Nesta ocasião, Gui Menezes acompanhava o Ministro da Ciência e do Ensino Superior, afirmando no regresso da sua visita aos Estados Unidos da América, que fez “um balanço positivo” da visita de trabalho, referindo que teve também a oportunidade de visitar vários departamentos e vários centros de investigação do MIT nas áreas do clima, da atmosfera, do espaço e dos oceanos.
No que diz respeito ao local escolhido para o lançamento de microssatélites a partir dos Açores, a ilha de Santa Maria “reúne condições que não são replicáveis noutros locais da Europa, permitindo o acesso a um plano de várias órbitas, ou seja, dá a possibilidade de os lançadores serem lançados em direcções muito amplas, e tem ainda uma extensa região que é desabitada a sul, e por isso prevê-se que os lançamentos sejam feitos todos para sul, onde não há ilhas nem povoações, só mar”.
Na edição de 27 de Janeiro do suplemento “Domingo”, publicado pelo Correio da Manhã, o tema foi recentemente abordado, tendo Luís Braga Campos reconhecido que os Açores têm as melhores condições geográficas para ter um porto espacial, uma vez que “não se podem sobrevoar zonas habitadas e na Europa isso é difícil não acontecer”, adiantando que “nos Açores podíamos ter um porto de lançamentos com uma gama de azimutes muito maior”. No entanto, afirma que por não se saber como serão lançados os microssatélites, “se em lançadores grandes, acoplados, ou por pequenos lançadores, e isso poderá afectar a viabilidade de um porto, especialmente um novo”.
Por outro lado, Ricardo Conde, gestor do Segmento Terrestre da Edisoft, empresa responsável pelo Teleporto em Santa Maria, afirmou que a construção do porto espacial “é uma oportunidade internacional de acesso ao espaço resultante de uma mudança de paradigma neste sector, nomeadamente com o surgimento de operadores privados que visam oferecer novos serviços à escala global tendo o espaço como principal plataforma tecnológica”.

PoSAT-1, o primeiro satélite português a ser lançado para o espaço
Na madrugada de 25 de Setembro de 1993 era lançado da base espacial de Kourou, na Guiana Francesa, pelo foguetão Ariane 4 o PoSAT-1, o primeiro satélite português construído a partir de um consórcio de empresas e universidades, com um custo associado de um milhão de contos, tais como a Marconi, a Alcatel, a EFACEC e o Instituto Superior Técnico num projecto liderado pelo cientista Fernando Carvalho Rodrigues, considerado o “pai” deste satélite.
O satélite em causa esteve em funcionamento durante 13 anos, apresentando um tempo de vida superior em vários anos ao tempo de vida estimado para este tipo de equipamentos aeroespaciais, não tendo, no entanto, projectos que previssem a sua continuidade, encontrando-se por isso desactivado, girando em torno da terra, e com morte física prevista apenas para o ano em 2043, tendo durante o tempo em que esteve activo levado uma experiência do Instituto Técnico de Lisboa e da Universidade da Beira Interior para medir a radiação do planeta.
As funções deste satélite iriam para além da observação do planeta Terra, incluindo também a preparação da participação de empresas industriais nos mercados e programas espaciais a nível internacional, dando também a oportunidade para que se treinassem engenheiros industriais nas tecnologias espaciais a um nível experimental, auxiliando também entidades como o Exército Português.
Na entrevista que cedeu ao “Correio da Manhã”, publicada no suplemento já referido, Fernando Carvalho Rodrigues indicou que o PoSAT-1 fazia parte de um projecto que ambicionava “levar Portugal para a modernidade”, adiantando no entanto que a ambição maior era consolidar uma rede composta por um total de 26 satélites: “teria três sobre Portugal de comunicações e um para observações da Terra. Teria comunicações planetárias para o dono da rede e para quem alugasse o serviço”.
No que diz respeito à ausência da continuidade deste projecto, Fernando Carvalho Rodrigues afirma que a desindustrialização foi o principal factor: “A partir de 1995/97 instalou-se a desindustrialização, Nobre da Costa faleceu e a Marconi acabou na Altice. Portugal habituou-se a comprar já feito (…). A partir de 1997 eram empresas a fechar umas atrás das outras; foi uma hecatombe e às tantas percebeu-se que nunca haveria a rede de comunicações”, tendo por isso se afastado do projecto numa altura em “que toda a gente dizia que Portugal ia ser um país de serviços e que não era preciso engenharia”.
 

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