3 de março de 2019

Crónica da Madeira

O Centro de Estudos de História do Atlântico e a morte do seu Presidente

Há anos, quando estava no Governo, fundei o Centro de Estudos de História do Atlântico. Era, na verdade, um dos meus sonhos que não podia escapar, de forma alguma, à sua concretização. O Centro, que sempre considerei um dos baluartes da autonomia, reuniu, durante décadas, historiadores dos diferentes países. Professores e estudiosos que passam grande parte das suas vidas a estudar e a pesquisar para que um vastíssimo público os consulte e se inteire da história, como meio de conhecimento e elo de relação. 
    Por razões várias, fazia todo o sentido a criação deste Centro na Madeira, pela sua posição geográfica, pelo facto, ainda, de ser um marco dos descobrimentos portugueses. Sabia-se que, através de Colóquios, Encontros, Congressos e Publicações,  iria atrair para a Região historiadores experientes, que reunidos, aprofundariam os seus conhecimentos numa importante troca de ideias. Esclareceriam possíveis dúvidas, intercambiariam estudos, valorizariam o vastíssimo património documental. Pelas razões apresentadas, nasce o Centro de Estudo de História do Atlântico, que tem como primeiro Presidente, o Prof. Doutor Luís de Alburquerque, homem das matemáticas, mas, ao mesmo tempo, um historiador invulgar. Ele projeta o Centro lá fora, com os seus conhecimentos, prestigia-o, torna-o internacional. 
    Por sua morte, ocupa a Presidência do Centro o ilustre madeirense, o Prof. Joel Serrão que, com o seu prestígio como historiador e homem das Letras, não só dá continuidade ao trabalho do seu amigo Luís de Alburquerque, como introduz, com os seus conhecimentos e experiência, novos dados. Quando o Prof. Joel Serrão deixa a Presidência por razões de saúde, esta é ocupada por outra figura de grande saber, açoriano, por nascimento, mas madeirense por adoção, Dr. Pereira da Costa. Foi, durante o seu mandato como director, que se construiu a Torre de Tombo. Ali está muito do seu trabalho. Ao presidir o Centro de Estudos de História do Atlântico, revitaliza-o ainda mais, estabelecendo relações com as Academias da História e da Geografia de alguns países. 
    Segue-se, na sua residência, o Prof. Alberto Vieira, um elemento importantíssimo que está desde o início no Centro, como Vogal, como Secretário e por último,como Presidente. Os seus estudos e pesquisas tornaram possíveis novos conhecimentos sobre a história do Atlântico. Estudioso empenhado, com seriedade, aprofunda os seus conhecimentos sobre factos históricos até então pouco esclarecidos. Dedica todo o seu tempo ao estudo da história. Com a Mapfre, como mecenas organizou uma série de Congressos em Canárias. 
    Alberto Vieira, que durante muitos anos colaborou comigo, era uma pessoa discreta e humilde. Entregava-se ao trabalho com grande entusiasmo e afinco. 
    Recebi a notícia da sua morte quando estava a deixar a Cidade dos Poetas, -Ponta Delgada-. Morre aos 62 anos,no dia 25 de fevereiro, vítima de enfarte cardíaco. O seu desaparecimento cria um vazio, empobrece a Região, deixando porém um valiosíssimo património documental histórico e a sua vastíssima bibliografia, que permitirá às novas gerações conhecerem a história da Madeira e a sua importância no contexto mundial. Durante anos, com os seus colaboradores, trabalhou sobre o Livro do Deve e Haver da Região Autónoma da Madeira. Um excelente e esclarecedor livro, que provou as somas fabulosas que a Madeira entregou ao Estado Português através das taxas e impostos cobrados durante séculos. Muito mais do que aquilo que a Madeira recebeu do Estado.
    Uma das minhas esperanças é que o Centro de Estudo de História do Atlântico se ligue,urgentemente, à Universidade. Que não morra; que dê continuidade a um trabalho extraordinário que desde o início da sua fundaçãotem sido feito: honesto e imprescindível para o conhecimento e estudo da história. Será,a meu ver, a melhorhomenagem que se poderá prestar aos quatro Presidentes, sobretudo a Alberto Vieira. Todos eles foram notáveis, com uma obra que enriqueceu o panorama cultural da Região. Todos falecidos. 
    Ao Alberto Vieira, a quem estou profundamente reconhecido por tudo quanto fez por uma Instituição que é hoje uma voz autorizada do Atlântico. Que essa continue como baluarte da nossa Autonomia. 
 

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Categorias: Opinião

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