“A minha educação foi sempre a de que Deus e está em cada passo que dou”

Como era a infância de quem nascia em 1937?
Nasci no dia 12 de Fevereiro de 1937, pelas 16h, no quarto da minha mãe e do meu pai, em Santa Bárbara, pertinho da igreja. Erámos nove filhos, eu estou no meio. Não brincava muito e fui trabalhar na terra depois da quarta classe.
Na altura estavam a fazer a estrada para a Bretanha que não havia e brincávamos um pouco naquele caminho. A única estrada que existia era junto ao mar e a nova foi feita estava eu ainda na escola; cortaram umas terras ao meu pai para isso. 
Os pais não nos deixavam brincar muito na estrada, porque passavam cavalos e poucos automóveis, mas íamos para lá jogar de vez em quando com uma bola de trapos. Não era mais nada!
Fora disso, eu era muito caseiro e acompanhava sempre a minha mãe quando ela ia visitar os seus pais. Os meus avós paternos moravam mesmo ao pé da nossa casa. 
Na escola brincávamos um bocadinho no recreio. A escola tinha no rés-do-chão a secção dos rapazes e no primeiro andar ficavam as raparigas, as quais tinham um recreio muito pequenino e nós tínhamos um maior, onde corríamos. 
Sair os meus pais não deixavam, mas às vezes escapulíamo-nos pelas terras abaixo apesar de nem ser por muito tempo, porque tínhamos que chegar a casa antes do nosso pai que era agricultor. A minha mãe era dona de casa, mas sabia ler. Aprendeu a ler, com uma senhora, a D. Maria do Céu, que ensinava e foi esta mesma senhora que me ensinou; com cinco anos eu ia para a casa dela e aprendi as letras com ela. Ela punha as panelas a cozer e ensinava-nos os números e as letras.

Desde cedo teve então o gosto por aprender mais.
Desde pequenino, eu queria era estudar! Gostava mais das línguas, mas também apreciava História. Fiz a quarta classe na Escola Roberto Ivens e foi engraçado chegar a Director daquela escola, onde também dei aulas. A escola primária na Roberto Ivens era mais para o lado da Praça. 
Dos três de Santa Bárbara que fizeram o exame na minha altura eu fiquei distinto. Portanto, eu tinha todo o direito de continuar a estudar. Na semana a seguir, cheguei a casa e disse ao meu pai que queria prosseguir os estudos. Ele disse que tinha pensado nisso e que até me tinha comprado a caneta para escrever o resto da vida e mandou-me à casinha buscá-la, era um sacho! Eu levei quatro anos a lutar para estudar e estava sempre a dizer-lhe que queria estudar, até porque um primo meu tinha ido. Certo dia ele chateou-se mesmo e pegou no sacho, pô-lo a meio da minha cabeça e disse que se eu repetisse aquilo mais uma vez cavava-me ao meio. Eu insisti que queria mesmo ir e ele nem respondeu. O meu pai deve ter remoído aquele meu pedido e dois dias depois desapareceu de casa e foi falar com o padre para pedir-lhe ajuda para eu estudar. Foi a partir daí que eu pôde ir estudar. E fui!

Foi nesta altura que foi para o seminário?
Sim. Queria era vir para o liceu, porque queria ser professor, mas fui para o Seminário. Inscrevi-me no Seminário dos Padres do Espírito Santo, na Régua, e eles aceitaram-me logo. Fiz os estudos preparatórios lá e depois íamos para o Seminário do Fraião em Braga. Mas fiquei muito aborrecido, porque não me deixaram fazer os exames no liceu, como os outros do seminário fizeram, e não os fiz porque os meus pais não estavam lá e não insistiam. Eu achava-me no direito de os fazer, porque era bom aluno em todas as disciplinas, menos em Matemática e Física que eu não gostava; não tinha negativas, mas em línguas tinha sempre as notas melhores. 
Fiquei distinto em todos os exames que fiz no seminário a partir daí e disse para mim mesmo que ia conseguir ser um dos melhores da turma, escrevi isso mesmo num papel. E fui!
Entrei para o seminário com 14 anos e dediquei-me sempre com muito estudo para mostrar que era gente. 
Além disso, com o passar do tempo tive outros cargos no seminário e no sexto e sétimos anos já não passava despercebido, já era o chefe da turma e o presidente de uma academia do seminário, pelo que comecei a ter cargos importantes para a vida do seminário, mesmo não sendo de lá. 

Como foi para si ir para o continente sozinho e tão novo?
No dia em que parti, vim na camioneta com uma saca com as minhas roupinhas; o meu pai foi-me levar ao barco e esteve comigo até o barco sair. Eu estava todo feliz para partir, porque ia estudar, mas também me veio uma lágrima até porque não sabia quando ia voltar. Fiquei quatro anos sem ver a família, porque era muito caro. A viagem de ida e volta de barco eram 900 escudos e demorava cerca de cinco dias. Já voltei com 18 anos, quando já fazia a barba. 
Entretanto, saí do seminário um bocado zangado por causa da questão dos exames e fui professor no Monte Estoril, no Colégio Particular João de Deus, em Carcavelos, durante um ano. Uma vez por mês ia comer ao seminário com os colegas e ao fim de um ano o director perguntou-me se eu não queria voltar. Voltei para o seminário para fazer o resto dos estudos. Acabei o Curso de Filosofia Escolástica e entretanto fui escolhido para ir fazer a Licenciatura em Teologia Dogmática pela Universidade Católica Gregoriana de Roma, o que me deixou espantado, já que todos os anos eram escolhidos apenas um ou dois. 

Como foi esta experiência?
Estive quatro anos em Roma. Tínhamos uma tarde por semana disponível na universidade e nesse entretanto eu ia para a Università Pro Deo fazer o curso “Cultura de Massas”. Dei boa conta de mim na universidade, graças a Deus, porque tive muito boas notas e fui o escolhido no fim do ano para avançar para o doutoramento. 
Só que nesta altura na Congregação do Espírito Santo mandava um senhor que era um antiquado e eu outros colegas juntamo-nos para combater aquela maneira de ele pensar e agir. Ele queria uma igreja à moda do século XVIII e XIX e nós queríamos uma igreja mais moderna; eu estava à frente daquele grupo e conseguimos que ele não ganhasse as eleições seguintes. 
Agora, eu é que fui castigado, porque não me deixaram acabar o doutoramento naquele ano. Disseram-me que se houvesse um lugar no Centro de Angola era para lá que eu ia!

E foi?
Sim. Fui para a Missão Católica de Sangueve, em Chipindo, e estive lá dois anos. Acontece que nunca escondi as minhas convicções e nas pregações pedia muito que os trabalhadores tivessem todos os mesmos direitos e que a cor da pele não fosse motivo para nada. 
Cheguei ao fim da missão e no dia seguinte tinha três elementos da PIDE à minha espera. Obrigaram-me a entrar no carro e levaram-me para Sá da Bandeira, a 450 kms; espremeram-me de todas as formas, mas o sumo foi sempre o mesmo. Queriam saber se eu era pela independência de Angola e disse que sim. Prometeram-me a cadeia esempre disse que eles sabiam onde eu estava. Os meus superiores mandaram-me para fora de Angola e voltei novamente para Roma fazer a tese de doutoramento. 
Depois vim para Portugal continental, ainda estive a dar aulas em Viana do Castelo, mas quis regressar para a minha terra.

Em que altura dos estudos percebeu que queria ser padre?
Isso aconteceu naturalmente. Pensei que primeiro tinha que ir para o Seminário e depois fosse o que fosse. Ali vamo-nos formando e tive momentos que me agradaram imenso, fiz muitas coisas que me interessavam e que me desenvolviam. 

Com que idade veio definitivamente para cá?
Com 30 e poucos anos voltei e aqui também fui padre. Quando vim para aqui, já vinha com as minhas ideias e fui para a casa dos meus pais, em Santa Bárbara. Como a minha aldeia tinha um padre de empréstimo que ia ao Domingo dizer a missa, ofereci-me ao Bispo para fazer o serviço todo de padre enquanto lá estivesse. 
Entretanto, fiz os ditos exames de liceu que me faltavam. Fui professor na Lagoa, onde orientei estágios, fui fundar a escola nova dos Arrifes, estive lá dois anos e gostei imenso. Antes estive na Terceira e também dei aulas lá. Dei aulas de Português e História. Estive também na Escola Roberto Ivens onde dei aulas e depois passei a director, passei a minha vida lá. 
Fui também fundador do jornal “O Explorador”, na Roberto Ivens, assim como dirigi o Clube de Leitura e História e fui presidente do Sindicato Democrático dos Professores dos Açores. Sou do tempo em que tive que defender o currículo para subir de escalão!
Em 1997, pedi a aposentação por cansaço e doenças latentes. Fui operado ao coração em 2001 nos Hospitais da Universidade de Coimbra.

Foi na Roberto Ivens que encontrou a sua esposa?
Eu conhecia aquela moça de Santa Bárbara, ela também é de lá, e morava pertinho da minha casa. Era catequista e tinha muito boa relação com os meninos, o que era uma indicação para uma boa educação de filhos. Quando decidi dar um rumo à minha vida, não foi porque já me estava a relacionar com ela, mas porque senti que devia reorganizar a minha vida. 
Então, decidi perguntar-lhe se, não obstante a diferença de idades, ela queria viver comigo caso eu deixasse de ser padre. Eu ainda era padre nesta altura. Combinei tudo antes, porque nunca gostei de fazer as coisas à revelia. 
Percebi que não queria viver sozinho e comecei a pensar numa pessoa que me dissesse alguma coisa. Desde que a conheci, foi sempre alguém que eu admirei pela sua rectidão e pela forma como tratava das crianças. Ela ficou surpreendida e disse que até gostava de morar comigo, mas que era muito complicado. A mãe quando soube chorou muito. Temos 20 anos de diferença, ela tem 62 anos e eu 82!
Num belo dia de 1981 casamos em Vila Franca do Campo, com o Padre Cassiano, numa eucaristia feita numa mesa de jantar, apenas com os padrinhos, os quais fizeram a festa na sua casa. A mãe dela sabia e o pai já tinha falecido.

Por que razão não casou na vossa freguesia?
Nunca faria isso na freguesia onde nasci e trabalhei. Não que o casamento seja um pecado, mas preferi assim. 
Ao Domingo ela começou a vir na camioneta para estarmos um pouco juntos, almoçávamos e ela voltava depois para casa. Eu sei que havia pessoas que não gostavam. Da minha família os mais íntimos nunca me reprovaram pela minha atitude. Pedi a Roma a dispensa e depois pedi ao Bispo a autorização para contrair o matrimónio. Expliquei ao Bispo que a minha fé era a mesma, era católico praticante, ia à comunhão e à confissão, mas queria reorganizar a minha vida e ele compreendeu! Em menos de oito dias tinha lá a dispensa. 

Como foi o desapego de ser padre para passar a ser marido?
Eu gostei de ser padre, se disser que não gostei é mentira, mas achei sempre que fui empurrado para aquela função. A única saída que eu tinha para estudar era indo para o seminário. 

Depois encaminhou-se tudo bem e a família foi crescendo, não foi?
Sim. Fomos felizes e tivemos o primeiro filho ao fim dos quatro anos, pois nunca quis dar a impressão que por debaixo do casamento havia outra coisa. Primeiro veio o André, depois a Carolina, são os dois enfermeiros, e por fim veio a Rita, que é assistente social. Os meus filhos estão todos bem encaminhados e nunca um dos meus filhos precisou que eu lhes desse dinheiro para comer, trabalharam sempre com as suas mãos. E isso dá-me alegria. Criamos um certo ambiente religioso dentro de casa e também vemos que a bênção divina se estende a todos os graus, não há distinção de cor, nem de riqueza ou pobreza.

Acha que a educação dos seus filhos seguiu de uma forma positiva porque os pais tinham uma formação religiosa?
Claro! Sem dúvida nenhuma. Os meus filhos viram-nos sempre desde pequeninos a irem com eles à missa. Nunca gostei foi de um certo hábito que algumas famílias tinham que era todos os dias rezar o terço em conjunto, acho demasiado. 
Por outro lado, um conselho que sempre dei aos meus filhos foi para se benzerem antes de dormirem, porque alguém que se benze normalmente já pensou antes na sua ligação com Deus. 
A minha educação foi sempre a de que Deus está em cada passo que dou. Eu passo na Igreja da Matriz e sou incapaz de não entrar lá e falar com Jesus!

Acha que os padres deveriam ter a oportunidade de ter uma família e poderem exercer a sua vida na igreja?
Sem dúvida. Penso nisso há muitos anos. Este é um sistema da Igreja Romana, que a protestante, por exemplo, não tem. 
Por outro lado, as mulheres têm o sacerdócio como os homens pelo baptismo, o resto é uma função. Eu continuo a defender que as mulheres deveriam ter a possibilidade da ordenação sacerdotal. A dignidade é igual a partir do baptismo. Acho que a igreja ia enriquecer se tal acontecesse, porque há coisas que os homens não conseguem fazer como as mulheres. Não há ninguém que chegue tão fundo a um coração com uma mulher. O Concílio Vaticano II não teve coragem de avançar naquela altura. Eu estava em Roma e já se falava nisso. 
As mulheres já podem dar a comunhão, mas deviam poder dar os sacramentos. A igreja já cedeu em algumas coisas, mas ainda falta muito caminho.
Acho que os padres deviam ser mais para fora da igreja, porque a igreja é um lugar de reunião. Há muita coisa que tem que mudar ainda!

Há muitos livros assinados por si, não há?
Tenho muitos trabalhos na Revista do Instituto Cultural e estou quase sempre na biblioteca, a escrever e a ler. Tenho caixas e caixotes cheios de papéis. Escrevia muito para o Açoriano Oriental e para o Correio dos Açores. 
Além disso, investiguei muitas freguesias, desde os Fenais da Luz até ao Pilar da Bretanha, mas já estudei também os Mosteiros noutros aspectos. 
Sobre a minha aldeia tenho cadernos com informações, por exemplo, de todos os padres e freiras que Santo António teve desde 1500e da freguesia em si. Tenho também estudos sobre o ensino nas freguesias todas de Ponta Delgada. Penso que Ponta Delgada é um concelho que, com jeitinho, fica como dos melhores de Portugal, porque tem muita gente interessada por estas coisas. 
Somos pobres como os outros, mas no conspecto dos Açores acho que a Terceira, o Pico e o Faial são mais desenvolvidos do que nós; é gente que está mais atenta à política, São Miguel foi sempre muito fechada a esta matéria.
 


 

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Categorias: Opinião

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