10 de março de 2019

O flagelo da violência

1- A violência doméstica continua a ocupar a agenda política e mediática, contribuindo para o efeito os homicídios de 12 mulheres e 1 homem que aconteceram nos primeiros meses de 2019, bem como as decisões tomadas pelo poder judicial, ou pelas forças de segurança relativamente aos processos ou às queixas intentadas pelas vítimas. 
2- A violência doméstica é uma das chagas que desafia a sociedade pós moderna, originando, por isso, um debate público alargado, onde entrou o Governo, a Justiça, a Comunicação Social,  comentadores, analistas e comediantes.
3- A discussão, porém, tem-se cingido quase ao  feminicídio, esquecendo que a violência doméstica vai para além disso, e acontece diariamente através das agressões físicas, verbais e psicológicas, abrangendo todas as idades e todos os sexos. 
4- Há opiniões para todos os gostos, e as propostas vão desde a necessidade de alterar a moldura penal existente, à criação de Tribunais específicos para julgar os processos de violência doméstica, bem como a criação de novas estruturas vocacionadas para a prevenção.
5- Parece-nos que a solução para este magno problema que chegou com a sociedade tecnológica, não passa por criar novos tribunais nem sequer alterar a moldura penal existente, porque estamos perante um problema cultural que advém da quebra de barreiras entre o género humano, sem que isso fosse acompanhado da alteração de hábitos e mentalidades tanto do homem como da mulher. 
6- Os excessos do machismo e do feminismo levados à exaustão, e eivados de um individualismo descomunal que por aí grassa, fruto da nova realidade tecnológica e global, em que vivemos, transformam-se no combustível que provoca o incêndio da violência entre marido e mulher, pais e filhos, e entre netos e avós, e nem os vizinhos escapam. 
7- Sabemos todos que as diferenças entre o pensar e o agir do homem e da mulher não se resolvem com slogans de igualdade porque, apesar dos avanços da ciência e da tecnologia, ainda não há descoberta para corrigir as diferenças comportamentais que a natureza incute em cada ser humano. 
8- As sociedades só podem mudar o comportamento das pessoas através do discurso e da linguagem virada para a tolerância, para a entreajuda e a partilha entre a família e comunidade. Discurso que tem de começar no berço e prosseguindo na escola, o que requer o envolvimento de todos os agentes com poderes em função da condição de cada um.
9- O debate gerado à volta da violência doméstica teve o condão de trazer ao escrutínio público decisões do sistema judicial até agora consideradas como “vacas sagradas”, evidenciando a razão dos que defendem alterações no poder judicial vigente, que sendo soberano não é infalível, e no qual pesa nas suas decisões um elemento poderoso, como seja a convicção de quem investiga e de quem julga, impondo-se por isso necessário encontrar uma forma de escrutínio e responsabilidade não corporativa.
10- As transmutações das relações sociais implicam dificuldades para a construção identitária da mulher, como por exemplo a auto-realização, as modificações da sexualidade; a paridade do género feminino na família; a questão do ensino e, ainda, o trabalho como força estruturante da igualdade feminina.
11- A violência é uma questão social relevante, pois ultrapassa as barreiras familiares, estendendo-se aos meios escolares, laborais e de vizinhança. É um problema cultural de fundo que tem de ser trabalhado, acompanhado e combatido nos excessos.
12- Para tanto, precisamos de pessoas que criem pensamento e apontem horizontes em consonância com as mudanças que modificaram hábitos de vida, a convivência das pessoas, sentimentos e comportamentos.
13- O flagelo da violência doméstica não pode servir de pano de fundo para tapar os problemas que afligem a sociedade que se sente defraudada, pelos impostos que paga, pela ineficiência dos serviços que recebe, e pelo aproveitamento dos recursos públicos usados por uma casta em benefício próprio e poder pessoal, que resiste e persiste.  

                    

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Categorias: Editorial

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