Afinal, Vila Franca vai ter um campinho

INFELIZMENTE - É o que vai acontecer se não houver bom senso. A requalificação que está a ser executada no campo da Mãe de Deus, em Vila Franca do Campo, não vai ao encontro do desenvolvimento do futebol. Muito pelo contrário.
Encerrado há cerca de 12 anos, impedindo a prática do futebol pela população das  freguesias de Água de Alto, de São Miguel, de São Pedro, da Ribeira Seca e da Ribeira das Tainhas, foi travada uma luta para a recuperação do mítico campo da Mãe de Deus, situado no centro da vila.
O desinteresse dos líderes autárquicos para dotar a sede do concelho de um campo de futebol foi-se arrastando. Curiosamente, todos eles com ligações à modalidade pelas responsabilidades que tiveram nos clubes da Vila.
Rui Melo até apresentou uma maquete de um campo para ser instalado perto da zona comercial de Vila Franca do Campo. Sucederam-lhe os dinâmicos presidentes António Cordeiro e Ricardo Rodrigues, que não deram seguimento ao desejo de vários sectores da população.

MANIFESTAÇÃO - Como as promessas não foram concretizadas, foi iniciada uma luta para a recuperação da estrutura.
A luta teve várias etapas e foram várias as formas que dezenas de pessoas fizeram sentir a necessidade de Vila Franca do Campo ter um campo de futebol, como as outras vilas e como a maioria das freguesias.
Uma luta incessante e persistente, culminada com uma inédita manifestação na entrada poente de Vila Franca do Campo, em Novembro de 2015, que reuniu perto de uma centena de pessoas.
O presidente Ricardo Rodrigues considerou que o melhoramento do campo de Ponta Garça era uma boa alternativa às necessidades dos praticantes das outras freguesias do concelho.
O presidente percebeu que o recinto de Ponta Garça não é o local de substituição para o renascimento pleno do futebol de Vila Franca do Campo.

RENASCIMENTO - Um renascimento que possibilitará às crianças que têm vindo a jogar não interromperem a prática desportiva, porque o Vasco da Gama não dá seguimento à actividade nos escalões etários mais velhos.
Um renascimento que fará voltar a Vila Franca do Campo o entusiasmo perdido quando dirigentes pretenderam dar o passo maior do que a perna, originando a interrupção da actividade, fundamentalmente por questões financeiras.
Um renascimento que provocará que um dos maiores viveiros de futebolistas dê novos Armindos, Armando Fontes, Furnas, Balaias, Nicolinos, Saraivas, Fonsecas, António Eduardos, Pedros Tavares e tantos outros, nomes que deliciaram gerações, que projectaram a Vila e o futebol micaelense.
Um renascimento que já possibilitou que surjam pessoas interessadas em reactivar o Desportivo de Vila Franca, que no passado sábado comemorou 59 anos de filiação na Associação de Futebol de Ponta Delgada.

SATISFAÇÃO - Percebida a necessidade da existência de um campo de futebol, houve luz verde para que fosse reestruturado e requalificado o que se chamará de Parque Desportivo e Recreativo da Mãe de Deus. Além de estar disponível para a comunidade escolar, também estará para a população.
Satisfação e expectativa para que o futebol regressasse a Vila Franca do Campo, possibilitando que crianças, jovens e adultos disponham de outras condições para treinarem e jogarem.
Satisfação porque muitos atletas deixarão de representar clubes de fora do concelho ou que deixem de fazê-lo quando completem a pouca formação que é proporcionada pelo Vasco da Gama, elaborada dentro das possibilidades e das condições logísticas e financeiras disponíveis para concretizá-las no campo de Ponta Garça.
Satisfação porque o futebol sénior vai regressar à Vila depois de tantos anos de abandono.

DESILUSÃO - Mas a satisfação e a expectativa deram lugar ao desalento e à revolta quando algumas das pessoas que estão ligadas ao futebol perceberam que o recinto de jogo não terá as medidas indispensáveis para que se realizem jogos de provas nacionais.
Em vez de um campo de futebol, Vila Franca vai ter um campinho de futebol, com medidas mais reduzidas, que não serve, na totalidade, para treinos e muito menos para os jogos nas condições ideais.
Os 90 metros de comprimento e os 45 metros de largura são as dimensões mínimas exigidas. Pelo que me informei era o que estava previsto. Entretanto, a largura já passou para 47 metros. Ainda é muito curta para um trabalho adequado nos treinos e nos jogos, mesmo dos escalões de formação.
Será, como se diz na gíria desportiva, uma “caixa de fósforos”.
Já imaginaram a distância que ficará entre as marcas de pontapés de canto e as linhas da grande área?

“NACIONAIS”, NÃO - Se futuramente uma equipa de Vila Franca do Campo disputar jogos dos campeonatos nacionais de juniores “A”, “B” e “C” ou de seniores, não poderão ali fazê-lo.
Já aconteceu com as equipas juniores do Vasco da Gama, em 1986, e do Desportivo, em 1993, que tiveram de jogar em Água de Pau porque as medidas anteriores do campo da Mãe de Deus também não eram as suficientes para jogos dos “nacionais”.
Para as provas nacionais em caso algum o terreno de jogo pode ser inferior a 100 metros de comprimento e a 64 metros de largura. As linhas laterais e as linhas de baliza devem estar à distância de 2 e de 3 metros, respectivamente, da área destinada ao público. Estas medidas de segurança também se aplicam nas provas regionais.
É pena que os responsáveis não dialoguem com quem tem experiência, com quem esteja no campo como treinador e como jogador para elucidarem. Assim evitavam-se erros como os que se perspectivam.
É pena, como tem acontecido com a construção de alguns pavilhões pelas autarquias, que as infra-estruturas não sejam idealizadas com as condições regulamentares para todas as competições.
O que está a ser executado em Vila Franca do Campo não serve o futebol. Ainda está a tempo de ser alterado e melhorado, pelo menos para umas medidas mais adequadas ao que o espaço possibilite.
O presidente da Câmara Municipal, Ricardo Rodrigues, quer, naturalmente, ficar  associado a uma obra que melhore as condições e que ajude ao desenvolvimento do futebol do concelho.
A Associação de Futebol de Ponta Delgada deveria intervir neste processo, elucidando os responsáveis autárquicos que as medidas previstas não são as ideais para que o futebol se desenvolva em Vila Franca do Campo como todos anseiam.

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Categorias: Opinião

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