24 de março de 2019

Recados com Amor

Meus queridos! Eu sou uma mulher frontal e estou devidamente identificada perante o Director do Jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio, e as minhas comadres e amigas que me mandam alguns recadinhos estão da mesma forma identificadas… Por isso, sou contra os delatores anónimos que vêm desde o tempo da inquisição e que levaram um poderio de inocentes ao cadafalso ou à fogueira… Mas não se pense que são só as redes sociais o lugar onde se multiplicam acusações, comentários e denúncias, encobertos por  uma crescente onda de perfis anónimos e caras tapadas… Que o digam os meus queridos sacerdotes e ouvidores da ilha de São Miguel e não sei se doutras ilhas, que estão a receber cartinhas anónimas recheadas de desabafos de fiéis contando alguns comportamentos de suas reverências. Contou-me uma amiga de peito, que as fotocópias das cartas vão andando de mão em mão e até o meu querido Bispo Lavrador delas tem conhecimento. Um dos padres que a minha prima conhece… até lhe prometeu dar uma cópia e diz ele… que embora não concordando com a forma como alguém resolveu “sacudir consciências”, “o que conta nas ditas cartas é tudo verdade”. Parece que já vai na terceira carta. Por mim, que nessas coisas da Igreja apenas não dispenso a minha missa das onze, acho que é um mau caminho o que se está a trilhar… e tudo isso, porque dentro da própria Igreja não há espaço para a crítica aberta e frontal sobre a forma de agir dos seus ministros e, porventura, a ostentação desnecessária… Sim, porque eu não acredito que sejam os ateus e indiferentes a escrever as ditas cujas cartinhas anónimas… Não sei se não vai ser preciso criar uns cursos regulares de formação para os clérigos da Região.
 

Meus Queridos! Esteve nos Açores a nova Presidente da Fundação Luso Americana e Desenvolvimento, conhecida como FLAD. Rita Faden veio apresentar cumprimentos ao meu querido Presidente Vasco Cordeiro e aproveitou para anunciar que é sua intenção estreitar os laços de cooperação com os Açores na aérea científica e no apoio às universidades, e, no caso, através de “parcerias” com a Universidade dos Açores. É bom lembrar que a FLAD foi criada em 1985 pelo Governo português quando era Primeiro-ministro Mário Soares, no chamado Bloco Central onde esteve Rui Machete, e que foi depois o primeiro Presidente da FLAD durante longos anos, tudo isso gizado num acordo diplomático celebrado com os Estados Unidos para a criação de uma instituição de direito privado virada para o “desenvolvimento económico, social e cultural português”. A dita instituição foi constituída à custa de dinheiritos provindos do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos, para uso de facilidades nos Açores e uso da Base das Lajes, donde sairam desse acordo 85 milhões de euros que serviram de capital social da Fundação que se transformou numa coutada de amigos e conhecidos que foram multiplicando os lucros e aplicando tais rendimentos em fundos e obras de arte, desdenhando sempre de quem contribui para a sua constituição, porque a Região deixou de receber aqueles 85 milhões de euros… Parece que nova Presidente, Rita Faden, vem com outro espírito de justiça…. A ver vamos!


Ricos! Não há duvida que há por aí muita criatividade e inovação aproveitando os nossos recursos frutícolas… A minha prima Angelina, que mora no Rosário da Lagoa, contou-me que a empresa chamada Caves Aeroporto recebeu um poderio de medalhas num concurso nacional, onde apresentou seis licores da sua marca “Curandeira” a concurso, arrecadando duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze. O ouro foi para os licores de leite (categoria “Licores de leite) e anona (categoria “Licores de outro frutos”), a prata foi atribuída aos licores de amora (categoria “Licores de outro frutos”) e de café (categoria “Licores de café), e a medalha de bronze foi entregue ao licor de limão galego (categoria “Licores de citrinos”). A minha prima Angelina disse-me que “os produtos são feitos de forma artesanal, sem uso de conservantes, usando uma boa quantidade de fruta dos Açores, que torna os licores muito cremosos e com grande sabor”. Um repenicado beijinho a todos os artífices dos licores da Caves Aeroporto, com votos de muitos sucessos ….

Meus queridos! A minha sobrinha-neta seguiu com toda a atenção o Congresso de Antropologia Ibero-Americana que aconteceu há dias em Ponta Delgada, e que trouxe aos Açores quase duzentos participantes de vários países, para debaterem temas variados sobre turismo, museus e património, vistos por diversos ângulos, e que foram acompanhados por muitos alunos da Universidade dos Açores e de outras instituições cá do burgo. O que a minha sobrinha-neta não entendeu bem foi o uso da “Pombinha do Espírito Santo” como símbolo de um Congresso de antropologia, e muito menos a presença de uma Bandeira do Divino, no palco, atrás da mesa onde se sentavam os oradores. Ela sabe que o culto do Divino é um dos pontos de união cultural e religiosa levada dos Açores para vários pontos do mundo, mas ela não se conforma com o uso de símbolos religiosos para fins que não sejam os religiosos… É como já aconteceu em Ponta Delgada, onde meteram um grupo de Foliões a cantar à beira de um navio de turistas a desembarcar nas Portas do Mar… Como dizia a minha avó, um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar.


Meus queridos! E já que falei do Congresso de Antropologia, uma organização de cinco estrelas e que merece um ternurento beijinho, lembro que o debate extravasou as paredes onde o dito cujo se realizou e veio para a praça publica com uma polémica que se levantou entre vários arqueólogos e que tenho seguido com atenção no jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio, depois duma inoportuna intervenção da arqueóloga Bugalhão… que desancou em tudo o que fosse opinião e contraponto com o que ela julga ser científico. Disse-me a minha sobrinha-neta que a sessão sobre a questão de ter havido alguém nas ilhas antes dos descobrimentos foi quente até mais não poder ser e que opiniões extremaram-se, algumas a serem mesmo intolerantes e desagradáveis. Não havia necessidade e, pelo que se viu, mais do que ciência, parece que há muitos interesses escondidos que não estão ao alcance de todos e até se ficou a saber que há um sindicato que faz ou dita o que é científico ou não. Mesmo não percebendo nada de arqueologia, sempre quero seguir os próximos capítulos… Pode ser que me descubram um antepassado cartaginês ou vicking…


Meus queridos! Celebrou-se no passado dia 19 o Dia do Pai, que em Portugal e noutros países ainda está ligado ao dia de São José, e não como o Dia da Mãe, que “fugiu” do Dia 8 de Dezembro, para um Domingo qualquer de Maio. Nesta ou na outra vida, a memória de pais e mães é sempre tocante e carinhosa e por isso fiquei pior que estragada quando ouvi nas notícias que numa escola lá para os lados do rectângulo, os professores defensores da moderna “ideologia do género” resolveram não celebrar o dia do Pai para não afectar os meninos e meninas que têm duas mães ou dois pais, ou aqueles que não têm nenhum… e por isso o dia 19 seria chamado o Dia da Família… Ricos, de uma maneira ou doutra, não há menino que seja feito sem um papá… e sem uma mamã… E não é assim que se cultivam os direitos de igualdade e respeito… Até parece que voltamos a 1910, quando os Republicanos acabaram com o dia de Natal e chamaram-no de “Dia da Família” e ao dia de Ano Novo deram o nome de Dia da Fraternidade Universal, só para eliminar qualquer tique religioso… Passa fora com tanto fundamentalismo!


Ricos! Já estou reformada há anos, depois de ter trabalhado quatro valentes décadas lá ao balcão da caixa, que por sinal não ficava muito longe da minha Rua Gonçalo Bezerra. Mas tenho pensado muitas vezes na insegurança que sentem agora aqueles que querem pedir a sua reforma. E mais espantada fiquei quando li no velhinho e sempre renovado Diário dos Açores o estudo da OCDE que diz que Portugal deve apertar mais ainda o recurso às reformas antecipadas… O que eu acho é que depois de terem dado tudo e mais alguma coisa, em tempos de mãos-largas, para fazerem a vontade aos grandes interesses económicos e empresariais, agora deixam uma cana verde na mão de quem tinha a legítima expectativa de se reformar aos sessenta e cinco anos e que agora já vai quase em 67 e se quiser pedir anos tem de descontar os olhos da cara. Daqui a dias, com aquilo que se chama o aumento da esperança média de vida, a gente só se pode reformar aos 80 e se quiser antes tem de ser a reforma penalizada… Quer dizer que em vez de abrir o mercado de trabalho aos mais novos, a quem pagam estágios e fundos de desemprego, preferem esmifrar quem já foi chupado até ao tutano… É obra!


Ricos! A minha prima da Rua do Poço ficou toda satisfeita quando leu no jornal que tão generosamente me colhe no seu seio que o Fundo Discovery finalmente apresentou uma solução para o projecto da reformulação das Galerias da Calheta que vai de encontro à volumetria que esteve na base a aprovação do pedido prévio de viabilidade e na suspensão do PDM. Como não se pode voltar a trazer o mar para ali, e como já ninguém é capaz de pedir para se demolir a praceta para se reerguer a Varanda de Pilatos, nem a Avenida para voltar a haver as Alcaçarias, encontrar um equilíbrio para de uma vez por todas requalificar aquela chaga urbanística é o melhor que pode acontecer… E não vale a pena chorar sobre leite derramado, porque enquanto ele estava a ser derramado, se alguma voz se levantou foi excepção… A minha prima da Rua do Poço o que quer é que aquilo tenha fim e não fique eternamente cheio de ratos à espera do D. Sebastião da Calheta!

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Autor: CA

Categorias: Maria Corisca

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