“Grão de Pó” na Semana da Leitura em São Jorge

“Gostava de deixar nos miúdos da geração digital uma semente para pensar fora da caixa e observar o que nos rodeia com mais curiosidade”, afirma Andreia Valente

Com bastante mais do que um grão de criatividade e imaginação, Andreia Albernaz Valente é uma bióloga que vê na expressividade artística uma forma de chegar às pessoas. “Grão de pó” é o projecto que desenvolve há já algum tempo, o qual levou até São Jorge aquando da Semana da Leitura, organizada pelo Museu Francisco Lacerda, que decorreu de 11 a 15 de Março. 
Sobre o projecto que levou aos jorgenses, a artista afirma que “grão de pó – como gosto de assinar, assim em minúsculas –, é um projecto que nasceu com a valência do artesanato e que, posteriormente, evoluiu para outras expressões artísticas, nomeadamente a ilustração. O nome foi inspirado numa tira de Calvin & Hobbes, em que o rapazinho reivindica a sua importância perante um céu estrelado, que naturalmente não lhe responde, e se vê obrigado a reconhecer a sua pequenez de grão de pó”, descreve.
Sobre a sua estadia em São Jorge, Andreia Valente garante que “o convite para esta Semana da Leitura teve uma importância imensa na minha vida. O trabalho artístico exige um investimento pessoal “à priori” muito intenso e, por vezes, no duelo entre a vontade de aí continuar e a necessidade de cumprir as responsabilidades financeiras e familiares, a sua razão de ser começa a ser posta em causa. Este convite inesperado soube a reconhecimento e investiu-me de uma nova força para continuar a sonhar”. 
Afirmando que há sempre nestes momentos situações marcantes que guarda na memória, a artista disse-nos que na ilha jorgense não foi excepção. “Da experiência em São Jorge, com o pré-escolar, destaco dois: o carinho com que as crianças do Topo me receberam e a vontade que não acabassem as histórias na Calheta, no Jardim de Infância O Golfinho. Não posso esquecer os momentos ao mesmo tempo descontraídos e estimulantes gerados no convívio com a organização do evento e com os restantes convidados da Semana da Leitura.”
Com participação em diversos livros, Andreia Valente contou-nos que o seu “último trabalho publicado em livro dá pelo nome de “Melissa – Vidas de invertebrados”. É um livro infantil que conta a vontade de viajar de uma aranhiça, a Melissa, que decide partir para conhecer o mundo, mesmo sem companhia. Mas as últimas ilustrações que realizei foram no âmbito do décor de um filme de terror”.
Sendo muito diferentes entre si os trabalhos de ilustração que a artista faz, quisemos saber qual de onde vêm as suas ideias. “A inspiração está muito assente no mundo natural. Sou bióloga de formação e esse factor está presente nas escolhas quer de materiais, quer de algum rigor de representação – quando é o caso. Quanto a diversificar, não creio ter truques. Tratam-se antes de características pessoais que na expressão artística me abrem campos: entedia-me a repetição e sou positivamente atraída por desafios novos.”
Outro dos momentos que preenche esta jovem artista são as oficinas que realiza nas escolas para meninos e meninas de várias idades. “Nas escolas, as oficinas começam com três contos que falam de afectos: um sobre uma avó, Felicidade de seu nome, outro sobre uma mãe, a Terra em que habitamos, e o terceiro sobre um filho que, um dia, necessitou de uma cirurgia. Daqui nascem convites: o de criar uma ilustração sobre alguém afectivamente importante para os mais pequenos, do pré-escolar ao segundo ano, ou o de uma criação colectiva para crianças dos 3º e 4º anos”, garante a bióloga. Nestes momentos, “privilegio materiais de origem natural, como pétalas, folhas, sementes ou cascas, tintas caseiras de origem vegetal, por exemplo café e beterraba, e pasta de papel como elemento de construção ou de agregação. O objectivo destas escolhas será comum ao de tantas oficinas criativas: o trabalho da imaginação! Ao utilizar estes materiais, gostava de deixar nos miúdos da geração digital uma semente para pensar fora da caixa e observar o que nos rodeia com um nadinha mais de curiosidade. Pretensões à parte, noto que no fim da actividade há uns quantos pares de mãos que perderam um pouco de nojo de se sujarem e outros tantos olhos brilhantes depois de realizarem ilustrações com volume”, admite com orgulho.
No contexto específico da Semana da Leitura de São Jorge, a ilustradora disse-nos que “o desenho dos afectos trouxe às crianças jorgenses uma oficina que conjuga a leitura encenada dos contos com uma oficina de ilustração em torno dos afectos, realizada com materiais naturais”. 
No ano passado foi a vez de a ilha Terceira acolher o trabalho desta bióloga. “A experiência na Biblioteca Luís da Silva Ribeiro foi muito bonita. Quando nos dizem “esta foi a melhor oficina que já fiz aqui”, pouco mais fica por dizer. Aproveito para partilhar que vou ter oportunidade de lá regressar no fim de Maio, para uma actividade no Centro de Ciência de Angra do Heroísmo. Desta vez versando sobre “Aranhas: já temos idade para deixarmos de ter medo delas!”, um projecto conjunto com o aracnólogo Rui Carvalho que procura desmistificar e desconstruir, com humor, o receio ancestral sobre estes animais articulados de oito patas”, conta e revela a artista. 
Questionada sobre as principais diferenças entre os alunos açorianos e os do Continente Português, a bióloga responde peremptória: “Confesso que esperava identificar diferenças maiores, relacionadas sobretudo com a experiência no exterior. Nos grupos com que trabalhei, e apesar de tanta natureza em torno, surpreendeu-me uma sensação de falta de brincar na rua. Gostava muito que fosse uma má leitura minha, porque é um desperdício de boas experiências...”
Além de ilustrar e de despertar as crianças para a criatividade no dia-a-dia, Andreia Valente descobriu mais tarde o gosto pelo cinema. “O cinema foi uma paixão que me caiu no colo quando me desafiaram para desenhar um storyboard, quando eu nem sabia o que era um storyboard [esboço sequencial]... Foi para a curta-metragem de terror de nome “Calipso”, em cujas gravações tive depois a oportunidade de participar e que me deixaram tão apaixonada pelos bastidores da sétima arte, que iniciei um curso de cinema documental”, conta a ilustradora. Mas neste campo surgiram outros desafios. “Primeiro foi ajudar a desenvolver o argumento, a par do argumentista e realizador Pedro Martins. Acabámos na semana passada as gravações de uma curta-metragem, intitulada “Häuschen – A Herança”, onde assumi funções de anotadora. Paralelamente, e no contexto do curso de cinema documental, estou a trabalhar num projecto de documentário de animação sobre uma temática muito falada ultimamente: a violência doméstica”, narra.
Andreia Valente não se coíbe em afirmar que “ilustrar um livro e vê-lo cá fora é apenas um novo início! O livro torna-se matéria plástica para recomeçar e, deste ponto, novos desafios nascem. De momento, estou a trabalhar numa adaptação para teatro do texto “Melissa – Vidas de invertebrados”, com a autora Ágata Pereira, que estreará na Casa do Coreto, em Carnide (Lisboa) no dia 4 de Maio”, revela.
Como se não bastasse, “paralelamente, o “Apis Domus”, um outro projecto, trabalha no âmbito da comunicação de ciência e tem por objectivos, sobretudo mas não exclusivamente, dar a conhecer um pouco da biodiversidade de abelhas no nosso país, dos perigos que enfrentam e o que podemos fazer para fomentar a sua presença e os seus serviços ecológicos. Sabiam que em Portugal Continental estão descritas, à data, 640 espécies de abelhas?”, deixa a artista a pergunta no ar! 
Tendo em conta a sua vasta actividade na área da criatividade, quisemos saber qual a sua opinião sobre o lugar que têm a cultura e a imaginação no nosso país nos dias de hoje. “A cultura e a imaginação são fundamentais para construir uma sociedade saudável e evoluída. Com elas, ganhamos capacidade crítica, perspectiva e mais facilmente se encontram soluções fora da caixa, até para questões bastante mais prosaicas. Acho que ganhávamos muito estimulando diariamente um nadinha de mundo da lua nas nossas crianças.”
Concluindo, Andreia Albernaz Valente não escondeu que a experiência em São Jorge foi mais do que feliz. “Adorei! Foi a primeira visita e fiquei com imensa vontade de voltar em breve para a descobrir com a dignidade que merece”, declara com um sorriso que mostra satisfação por uma arte que – com dedicação – pode mudar o mundo!

                   
 

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