Para Sílvia Quadros “há falta de decisão política” em matéria de Ambiente

“São Miguel fica muito mal na fotografia quando a maior parte dos resíduos são depositados no aterro”

“São Miguel está muito mal em comparação com as outras ilhas”, é esta a opinião de Sílvia Quadros no que diz respeito à produção e gestão de resíduos nos Açores, salientando que, no caso das restantes ilhas, estas apresentam uma maior taxa de reciclagem que é também compensada pelo facto de não possuírem aterros sanitários, tendo em conta que o lixo que nelas é produzido é enviado para a ilha Terceira.
No entanto, apesar de demonstrarem resultados positivos quando em comparação com a ilha de São Miguel, a professora auxiliar da Universidade dos Açores salienta que “isto, no fundo, vale muito pouco porque estamos a falar de ilhas com cinco mil habitantes e pequenas” que não têm a expressão ou o peso que tem a maior ilha dos Açores.
“São Miguel fica muito mal na fotografia porque a maior parte dos resíduos são depositados no aterro sanitário e porque a ilha de São Miguel acaba por ter um peso muito grande no arquipélago”, refere Sílvia Quadros, salientando ainda que este seria o momento indicado para “mostrar que é possível gerir de forma eficaz os resíduos sem ser à custa de uma incineradora”.
Neste sentido, o ideal seria apostar nos sistemas de recolha para obter uma melhor separação de materiais na origem, alargar a recolha porta-a-porta a mais zonas e implementar os sistemas PAYT (Pay-As_You-Throw), uma vez que estas são algumas medidas que, no entender da professora universitária, “têm conduzido a uma melhor separação de resíduos e consequente melhoria da reciclagem de materiais”. 
Por outro lado, segundo Sílvia Quadros, a separação da fracção orgânica dos resíduos urbanos seria outra medida que iria contribuir muito para o aumento da taxa de reciclagem dos Resíduos Urbanos, tendo em conta que “estes resíduos correspondem a uma grande percentagem em peso dos resíduos produzidos nas habitações”, à semelhança da taxação de certos objectos descartáveis, como é o caso das garrafas de plástico, dos copos, talheres, pratos, e palhinhas, que poderia também contribuir para a redução da produção de resíduos.
Por este motivo, a doutorada em Ciências do Ambiente afirma: “Gostava que a Associação de Municípios visse que tem aqui uma oportunidade para mostrar que se pode gerir os resíduos sem ser à custa daquilo que se pretende construir e de uma maneira mais económica, porque gerir os resíduos à custa dos principais princípios de prevenção é muito mais económico do que apostar muito na última solução que é a sua eliminação”, salientando ainda que, de acordo com a sua perspectiva, há falta de decisão política, factor este que contribuirá para a impossibilidade de cumprir, até ao ano de 2020, os objectivos propostos pela União Europeia no sentido de se reciclar 50% dos resíduos urbanos que são produzidos, onde se inclui também o fluxo das embalagens.
“Tanto nos Açores como em Portugal não vamos cumprir as metas que foram estabelecidas para todos os Estados-membros da União Europeia de reciclarmos mais de 50% dos resíduos urbanos até 2020, e isto acontecerá porque, na minha perspectiva, nunca foi feito um investimento em sistemas que promovam a separação dos resíduos na origem, e não só nas fileiras do papel, do plástico e do vidro, mas também dos resíduos orgânicos”, afirma Sílvia Quadros.
Assim sendo, a professora auxiliar da Universidade dos Açores afirma que “a separação na origem pode ser incentivada através da criação de medidas como as que já foram implementadas noutras cidades até maiores do que Ponta Delgada, e uma delas é um sistema em que se paga aquilo que se produz, que é o “Pay As You Throw”, ou seja, a pessoa paga o peso dos resíduos indiferenciados que produz”.
Neste sentido, e complementando o sistema “Pay As You Throw”, Sílvia Quadros afirma ainda que ao existir “um bom sistema de recolha do que foi separado previamente em casa, as pessoas irão produzir menos resíduos misturados que não valem nada e irão pagar pouco por essa quantidade que produzem de indiferenciados”.
Por outro lado, também a entidade gestora sairá beneficiada uma vez que “recolherá uma maior quantidade de material com valor comercial se ele for recolhido dessa forma e que, na central de triagem, terá uma grande quantidade de material de boa qualidade e o reciclador vai pagar muito bem por isso”, refere a professora universitária.
Apesar de a reciclagem de resíduos ser um aspecto de grande importância, Sílvia Quadros adianta que o mais importante seria não produzir estes resíduos, contudo, o incentivo financeiro dirigido à população seria uma importante medida porque “as pessoas querem poupar dinheiro e se puderem pagar menos por uma taxa de resíduos, que actualmente tem um valor muito baixo, irão separar melhor os resíduos”.
Porém, adianta que estes incentivos devem ser sempre aliados à informação dirigida à população, uma acção que compete também às organizações e autarquias e que tem que ser acompanhada com “a intenção do Governo Regional, das associações de municípios e das autarquias em implementar sistemas que conduzam à não produção de resíduos”, entidades estas que, na perspectiva da professora universitária, colocam entraves no estudo, desenvolvimento e aplicação destas mesmas medidas.
“Actualmente as barreiras estão nos municípios, no Governo Regional e nas associações de municípios, estão na falta de decisão política porque, na sociedade, todos sabem do problema enorme dos plásticos que temos nos oceanos, por exemplo, (…) mas as pessoas precisam de um sinal para poderem colaborar de uma forma eficaz e para agirem de outra maneira”, explica Sílvia Quadros.
Para além dos princípios associados à sustentabilidade, é também importante ter em conta os objectivos propostos pela economia circular, nomeadamente no que diz respeito ao “passarmos de uma economia extractiva para uma economia em que já temos os recursos de que necessitamos e onde iremos voltar a transformar os recursos em matérias-primas para mantermos mais tempo na nossa economia, algo que encaixa perfeitamente na questão da reutilização dos materiais”, refere a professora universitária, salientando que deve existir na sociedade uma rede organizada que permita a reparação de objectos, como roupas, equipamentos eléctricos e electrónicos ou móveis de madeira, para que se consiga dar uma nova utilidade a estes materiais e evitar que terminem nos aterros sanitários, procurando assim atenuar os efeitos que existem hoje por conta da sociedade de consumo. 
“Nos dias que correm parece que é possível usar e deitar fora mas não é. (…) Para contribuirmos para a primeira meta do desenvolvimento sustentável – acabar com a pobreza extrema – é preciso consumir menos e garantir que os países de onde vêm os recursos que alimentam o nosso consumo têm condições para resistir à cultura de extrativismo dos países desenvolvidos”, conclui a professora universitária.

 

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