7 de abril de 2019

Espertos e aventureiros

 1. Parecia que a matéria da transparência na política se tinha esgotado com o triste episódio relatado a semana passada, sobre uma proposta de alteração à socapa, do regime de incompatibilidades dos deputados, e que à ultima da hora foi apresentada por um deputado do PSD, o que permitiu que o deputado/advogado pudesse continuar a exercer a sua actividade profissional nos escritórios de advogados, desde que não interviesse em matérias a tratar pela respectiva sociedade. A proposta passou com a abstenção do PS. 
2. Os interesses do chamado “bloco central” convergiram para deixar tudo como estava, mantendo a promiscuidade que vem de há anos a esta parte. 
3. Não é de admirar que assim fosse, tendo em conta o que se passou com o antigo Ministro-adjunto e agora Ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, onde se cruzaram os serviços de advogado com a consultadoria então prestada ao Governo.
4. Mas, pior do que isso, é o eurodeputado e candidato do PSD, Paulo Rangel, ter defendido em 1993, como advogado, “o princípio da taxatividade das incompatibilidades” entre o advogado e o deputado, num vasto trabalho para a Ordem dos Advogados.
5. Entretanto, como explicou o comentador Pedro Adão e Silva, no programa “Bloco Central”, o deputado Paulo Rangel não só não alterou a lei de incompatibilidades enquanto esteve na Assembleia da República, como tem continuado enquanto eurodeputado, sócio da sociedade de advogados “Cuatrecasas”, acumulando funções de sócio director e eurodeputado, recebendo a remuneração respectiva e gerando dessa forma um conflito de interesses.
6. Escandaloso é o moralismo pregado pelo eurodeputado Paulo Rangel e a sua condição de advogado e deputado. É caso para dizer: “Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. Mas isto é avacalhar a política e os políticos, fazendo com que cresça a descrença na democracia, criando um vazio que será preenchido pelos extremismos que a sociedade vai gerando.
7. Falando de extremismos, o Governo dos Açores acaba de publicar dois relatórios das inspecções realizadas a instituições sociais, e a uma associação onde a Região participou como sócia. Seria uma prova de maturidade se todos os que legitimamente levantaram dúvidas sobre a actividade dessas instituições, estudassem agora os relatórios e aferissem as conclusões com os juízos prematuros que foram publicitados e as consequências que eles geraram.
8. É reconhecido por todos, mas nunca é demais lembrar, os benefícios da revolução tecnológica e o que ela representa nas alterações profundas na vida de cada um e na mundialização que aproxima continentes e raças, que se desenvolvem desde os finais do século XX, e aceleraram de forma vertiginosa nas quase duas décadas do século XXI. 
9. A este propósito, o professor Vasco Garcia, num magistral escrito publicado na edição do Correio dos Açores do dia 6 de Abril, faz uma dissertação sobre a inteligência humana e a inteligência artificial, que ajuda a perceber onde estamos e o que está para vir, e o conflito que se poderá criar entre o humano e o artificial, e a competição da supremacia de um e do outro.
10. Isso coloca-nos um dilema terrível quanto à protecção humana, porque sabemos como reagem as pessoas perante uma guerra, mas falta saber como reagem os robôs tornados soldados e dotados de inteligência artificial, e a catástrofe que tal facto pode representar para a raça humana.
11. Além disso, não se tem tratado a cibersegurança como um assunto sério. Foi aterrador ouvir José Tribolet,  professor e engenheiro informático do Instituto Superior Técnico,  dizer que a segurança dos sistemas e da informação em Portugal são de uma “fragilidade assustadora” tanto nos serviços do Estado, como nas grandes empresas em particular, e nos demais utentes em geral, exemplificando que “com 100 mil euros e uma pequena equipa” deitava “abaixo um governo em 15 dias”.
12. Os avanços da tecnologia são fundamentais, tal como são necessários e imprescindíveis os sistemas de segurança e a regulação que é preciso criar para se saber quem usa e se responsabilizar pelas consequências, sob pena de tornarmos o mundo num sistema anárquico e à mão de perigosos aventureiros.
                        

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Categorias: Editorial

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