12 de abril de 2019

Notícias falsas e o controlo social

A disseminação de notícias falsas não é de agora, ainda que o fácil acesso às novas tecnologias, a aplicações de comunicações, plataformas de debate, mensagens, e de troca de informações, tenha vindo dar uma nova perspetiva – mais global – a esta prática. Se, antigamente, se tentava alterar mentalidades e práticas com o envio de panfletos de aviões ou publicações de anúncios em jornais, hoje uma fotografia e um pequeno texto, fazendo acusações ou levantando dúvidas sobre alguém, especulando sobre a sua honestidade, o seu posicionamento cívico ou institucional, conjeturando acerca do seu salário, do seu nome de família ou do seu vizinho, é mais do que suficiente. A criação de uma narrativa dúbia, que leve à acusação fácil retirando de cada um de nós o seu pior, é o propósito único da expansão de conversas inverosímeis que retiram sobriedade à razão e pretendem, apenas, a multiplicação do caos. 
Recordo-me da campanha eleitoral de 2005 para as eleições autárquicas. Na altura, fui candidato a uma junta de freguesia e, como sabemos, os períodos eleitorais são propícios à criação de estórias e enredos vários. Um outro partido da mesma área política dava os primeiros passos no seu trabalho autárquico. O enredo, ainda sem a inestimável e tão poderosa contribuição das redes sociais, acusava esta força política, naquela recente incursão nas lides municipais, de fazer aquela campanha com o dinheiro de uma instituição bancária que, entretanto, caiu em desgraça. Razão pela qual, perante o descrédito em que incorreria uma força política com um discurso contra os bancos que depois receberia dinheiro desses mesmos bancos – deixando aqui de parte a questão (i)legal – o melhor mesmo seria não lhe conceder o voto. Com mais uma consequência daquela estória posta a circular: o banco patrocinaria aquele partido, pela simples razão que dessa forma aquele partido teria mais possibilidades de retirar votos, influência social e mandatos à força política cuja lista encabecei em 2005. A estória ficou por aí. 
Outra coisa é a tentativa de controlo social dos cidadãos. Se este propósito é praticamente impossível em democracia, já noutros sistemas políticos a sua conceção e implementação é relativamente fácil. Por comparação, basta que pensemos no calvário que é a introdução de câmaras de videovigilância num qualquer espaço público nacional. No Império do Meio, o check-in dos passageiros passou a ser feito, em alguns aeroportos de menor dimensão, através de reconhecimento facial, com vista ao controlo da segurança e embarque dos passageiros. Mais tarde, os aeroportos de Pequim passarão a ter a mesma funcionalidade. A ambição das autoridades chineses será, segundo algumas organizações de defesa dos direitos humanos, o controlo da população, já que o mesmo sistema está a ser introduzido em hotéis, servirá para fazer pagamentos em estabelecimentos comerciais e perceber as respostas emocionais em meio estudantil, com vista a antecipar determinados comportamentos dos estudantes. As autoridades chinesas estarão já a usar este meio para identificar pessoas em locais públicos, servindo até para detetar possíveis criminosos. 
“As autoridades estão a usar dados biométricos e a inteligência artificial para registarem e investigarem pessoas por motivos de controlo social”, referia Maya Wang, investigadora para a China da organização de defesa dos Direitos Humanos Human Rights Watch. Em alguns locais públicos, como estações de comboios, já se encontram polícias a usar óculos de reconhecimento facial, que estarão ligados a bases de dados das autoridades. Segundo um relatório recente daquela organização, o sistema visa «controlar e prever» os movimentos de ativistas, dissidentes e minorias étnicas e «não cumpre com os padrões de privacidade internacionais». Se fosse em Portugal, como seria?
 

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Categorias: Opinião

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