13 de abril de 2019

Cesto da Gávea

Histórias da carochinha

Ainda me lembro da voz daquela avozinha do bairro das Fontaínhas, em Pangim, capital de Goa, numa visita que fiz àquele ex-território português da Índia, contando à netinha a história da carochinha Joaninha e do João Ratão. É uma história infantil cheia de moral igual a tantas outras, ao ponto de transcenderem fronteiras e oceanos, enchendo de alegria e lição de vida crianças que, não fora isso, pouco interesse teriam pela língua e cultura portuguesas. Pangim (Panaji, na versão local) é servida pelo porto de Mormugão, via de exportação de minério de ferro e mercadorias do hinterland vizinho de Goa. Há séculos, foi também estaleiro naval importante para reparações e construção naval da frota portuguesa das Índias. A tradição de qualidade da construção naval permitiu aos portugueses desenvolver capacidades próprias, inclusive na artilharia embarcada: a primeira peça de repetição dava 18 tiros seguidos, enquanto os inimigos conseguiam apenas 1 disparo. Tudo porque a engenharia da época conseguiu uma liga metálica que suportava o sobreaquecimento, fruto da inovação desenvolvida pela elite judaica que apoiava financeiramente a Armada das Descobertas.
Ciente desta realidade passada, nunca percebi bem o que aconteceu aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, um empreendimento estratégico iniciado em 1944, quando a II Guerra Mundial entrava na fase final. O Estado Novo de Salazar precisava de desenvolver a pesca longínqua, principalmente dos bacalhoeiros, por onde tudo começou. À medida que a indústria se desenvolveu, a construção estendeu-se a navios de maior porte, incluindo muitas unidades para a Armada. Ao todo, desde que “nasceram” há 75 anos, os ENVC terão construído mais de 200 navios, desde ferries a porta-contentores, de bacalhoeiros a fragatas e navios de patrulha oceânica. Antes das vicissitudes resultantes da nacionalização, em 1975, os ENVC e a Lisnave construíram nos anos 60 as 3 fragatas da classe Almirante (F472,473 e 474) que foram retiradas do serviço em 1989. Quinze anos depois, foi assinado um contrato com o Ministério da Defesa, no valor de 300 milhões de euros, para a construção de 6 NPO-Navios de Patrulha Oceânico e de 5 lanchas de fiscalização, programa que levou uns “pontapés” parecidos com os que inviabilizaram a entrega do ferry “Atlântida” e do abortado gémeo “Anticiclone”, destinados aos Açores. Na opinião de alguns são meros casos de polícia, pois a verdade é que um dos ditos ferries anda, conforme sabemos, navegando em mares subárticos. Não serviram para navegar nos Açores, custaram um “aldraba-dinheirão”, mas alguém lucrou com o negócio…e alguém perdeu, como é óbvio nestas histórias de carochinha. Correu brado que foi incompetência da ENVC, mais isto e mais aquilo, até que o Ministro da Defesa Aguiar Branco decidiu privatizar os estaleiros e por fim ao regabofe. 
Entregues aos privados da WestSea/Grupo Martifer, eis que surgem as súbitas boas novas, com o batismo do “World Explorer”, um navio ultramoderno, destinado a cruzeiros na Antártida. Provando-se assim que há privatizações que resultam melhor que nacionalizações, como também há o contrário; a questão não é o processo, mas quem se serve dele e o gere, bem ou mal, por vezes com segundas intenções. Veja-se o caso do “World Explorer”: o navio só estará pronto daqui a umas semanas, mas agora dava jeito a festa inaugural, com direito a ex-modelo (e ex-Primeira Dama) francesa, não vá a malta descuidar-se com as eleições europeias. O lado bom desta história foi ouvir Carla Bruni cantar na tv “Clair de la lune”, uns versos para crianças que nos fazem recuar aos tempos em que acreditávamos em histórias da carochinha. Agora há que desconfiar da “música”, porque nem as sereias/sirenes do SIRESP deixam o “bombeiral” descansado. Numa confusão dos diabos, vêm à tona os detalhes do contrato que permite à herdeira da desconjuntada PT e atual dona maioritária do SIRESP, poder falhar uns milhares de horas de serviço, como se os incêndios, os terramotos e as catástrofes, quisessem saber disso para alguma coisa. Nem o trágico exemplo de Pedrógão e semelhantes dá azo a que certos governantes tenham tino na cabeça, porque provavelmente é doença congénita. 
O pior é que a “doença” dá sinais de atacar a memória de muitos dirigentes políticos, como bem fez notar Osvaldo Cabral num recente artigo do “Diário dos Açores”. Ao agitarem a bandeira da presença unipessoal do PS/Açores nas próximas eleições europeias, esquecem-se os socialistas que em 1994, também não elegeram ninguém para o Parlamento Europeu, repetindo a ausência que tiveram entre 1986 e 1989; sei do que falo, porque fui o único eurodeputado dos Açores nesses pioneiros 3 anos e meio. Dizem que a História se repete, o que é possível ser verdade, salvo se nos quiserem contar as repetições travestidas em histórias da carochinha.

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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