Gerações (8) – Teresa Neves

“As amizades têm inspirado e incentivado o meu lado criativo e a minha sensibilidade interior que se tem reflectido através da escrita e da poesia”

Quando e onde nasceu? Conte-nos como foi, de uma forma resumida, o seu crescimento.
Nasci em Fevereiro de 1971, em Ponta Delgada, mais precisamente numa casa situada na Rua do Frias, onde a minha família morava na altura. Foi um parto tão rápido e fácil que nasci em casa, (o que na altura não era anormal de todo) também porque no dia do meu nascimento estava cá uma tia minha que era enfermeira/parteira e tudo aconteceu naturalmente...
Tive, graças a Deus, uma infância feliz e tranquila. Vivi e cresci no “coração” de Ponta Delgada: primeiro na Rua do Frias e depois descemos para a rua um pouco mais abaixo e vivi alguns anos da minha infância na Rua D’Água.
Era uma criança um pouco tímida, tive alguns amigos, não muitos, mas os que tinha eram próximos e verdadeiros e marcaram cada etapa do meu crescimento. Gostava muito de música, adorava cantar e sempre que chegava a casa, na rua D’Água, lembro-me que subia as escadas do prédio onde vivia (o n.º 26) sempre a cantar e os vizinhos diziam: “Olha, a Teresinha está a chegar!”, já fazia parte da rotina de cada dia naquele prédio.
Andei no Colégio da Passarada que, na altura, se situava na Rua do Contador, bem perto de casa e tenho muito boas lembranças dos momentos que lá passei, dos professores e dos amigos que lá fiz. De jogar ao elástico, “à macaca” e com uma “bolinha saltitona” que se atirava contra a parede.
Ingressei entretanto no ballet, na altura com o professor Jorge Trincheiras. Gostava muito de dançar ballet e participei em alguns bailados apresentados no Teatro Micaelense, entre eles o da “Bela Adormecida”.
Desisti do ballet quando o professor, de quem gostava muito, partiu para o continente e ingressei no Voleibol, mais precisamente no Vólei Clube de São Miguel. Nesta fase da minha vida, estava no secundário a viver uma adolescência calma, com novos amigos e outro tipo de vivências e emoções.
De seguida, rumei a Lisboa, onde tirei o curso de Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) na Universidade Nova de Lisboa. Foi uma fase muito interessante da minha vida, com novas amizades, outro tipo de vivências numa cidade grande e que me oferecia tantas experiências culturais e recreativas novas que muito me cativavam. Tenho muito boas recordações da minha vida académica, das amizades que cultivei, de um novo estilo de vida, mais livre e independente, rico e aliciante, mas também mais responsável e maduro.
Após o término da minha licenciatura, eis que uma nova experiência de vida me aguardava: candidatei-me a uma pós graduação em Londres, cidade onde vivi 12 meses de recordações, emoções e vivências que jamais esquecerei. Uma das que mais me marcou, foi a experiência de ter sido tradutora oficial no Tribunal de Westminster em Londres, onde me sentia uma personagem dentro de um filme, perante todo aquele ambiente “majestoso”, típico dos tribunais londrinos.

Que tradições/costumes da nossa terra recorda do seu tempo de infância que hoje já não se celebrem da mesma maneira ou de todo?
Lembro-me que quando era pequena, eu e a minha família tínhamos o hábito de ir passear de carro aos domingos à tarde para a “Doca” de Ponta Delgada. Era comum este ritual de Domingo à tarde, que se estendia a outras famílias: ir passear para a “Doca” para ver os barcos e os pescadores a pescarem.
Entre os amigos tínhamos o costume de à noite especialmente nas férias de Verão, passear na Avenida Marginal e ficar ali sentados nos muros a conversar.

Comparando com as gerações dos dias de hoje, na sua opinião, que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
A geração de hoje é muito diferente da geração em que nasci. Tem a vida mais facilitada e a possibilidade de progredir mais rapidamente e chegar aos seus objectivos com maior facilidade, uma vez que já nasceu e cresceu com a tecnologia que aprendeu a usar praticamente desde a primeira infância. 
Hoje, tudo gira à volta da tecnologia, tudo se aprende através da tecnologia, tudo se capta para ser partilhado, comparado e exposto através da tecnologia e nem os tempos livres abdicam da companhia da tecnologia que já criou uma dependência irreversível na vida da presente geração que se tornou, por isso, também mais competitiva e solitária, mas mais inovadora e desenvolvida.
A geração onde nasci e cresci não usava telemóveis e desconhecia a internet. Assistia ao aparecimento da TV a cores. Foi uma alegria e uma festa olhar pela primeira vez para uma imagem a cores emitida pelo televisor que só transmitia o canal da região.
Ouvíamos música em discos de vinil e gravávamos músicas em cassetes onde a fita, por vezes, se desenrolava e com uma caneta lá a conseguíamos consertar por entre um dos seus orifícios.
Brincávamos muito mais ao ar livre, andávamos descalços por calhaus, pintávamos “pedrinhas” e íamos pescar com canas de pesca feitas por nós. Fumávamos “cigarrilhas” inofensivas que apanhávamos das árvores e criávamos bichos-da-seda, dentro de caixas de sapatos que se alimentavam de folhas de amoreiras. Nunca deixávamos as folhas faltar para, mais tarde, os bichos-da-seda se poderem transformar em lindas borboletas.
São duas gerações muito diferentes, ambas com as suas vantagens e desvantagens, com os seus riscos e prazeres que se foram manifestando de forma diferente, de acordo com o ritmo do desenvolvimento dos tempos e das eras. Sinto-me uma verdadeira privilegiada por ter vivido em ambas as gerações e ter conseguido usufruir do melhor de ambas!

Que evoluções e alterações tem notado no mundo do trabalho desde que começou a trabalhar, até aquilo que é hoje a sua realidade profissional? Conte-nos um pouco do seu percurso profissional?
Iniciei a minha actividade profissional como professora. Dei aulas de Inglês na Escola Secundária Domingos Rebelo, tirei depois, em Lisboa, o curso de “English Teacher Training” no Instituto de Línguas “International House” e leccionei cá depois, num Instituto de Línguas, Inglês e Português para estrangeiros.
Mais tarde e, perante a expansão e desenvolvimento da actividade empresarial dos meus pais, decidi abraçar os negócios da família e enveredei por trabalhar na actividade do pronto-a-vestir e já trabalho na empresa da família há 23 anos. 
Desde muito nova, comecei a dar os “primeiros passos” na empresa dos meus pais. Nas minhas férias, ia muitas vezes ajudar para a loja e acompanhava os meus pais nas colecções, onde já ia dando algumas opiniões.
Hoje, o mundo do trabalho está muito diferente do que era quando comecei a trabalhar. Está muito mais competitivo e agressivo. Tudo foi mudando muito rapidamente. Com o desenvolvimento tecnológico, houve uma cada vez maior informação e contacto com um mundo globalizante. 
O mercado de trabalho tornou-se muito mais exigente e desafiante; temos que desenvolver constantemente a nossa capacidade de estar sempre à alerta e em cima da evolução para não estagnarmos e para que não sejamos ultrapassados. Cada vez mais, temos que nos ir adaptando e modernizando para ir acompanhado a “corrida louca” dos tempos de hoje. É muito mais difícil a actividade profissional hoje em dia. Para resistirmos, temos que ser bons e competitivos, temos que conseguir oferecer algo de diferenciador, especial e atractivo, que consiga captar a atenção do nosso público-alvo.

As viagens são uma parte importante da sua vida? Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
As viagens são uma parte muito importante da minha vida. Adoro viajar! Viajar é irmos ao encontro de nós próprios e dos outros. É abrirmo-nos a novas experiências e aprender com novas culturas e tradições. 
No meu tempo de estudante universitária foi a altura em que mais viajei e conheci alguns países. Desde muito cedo viajava para acompanhar os meus pais no trabalho e durante as férias de Verão (a primeira vez, aos 16 anos) viajava para a Inglaterra e Alemanha para tirar cursos intensivos da língua e ficava em casa de famílias que acolhiam os estudantes. 
Tive, nessas alturas, oportunidade de conhecer com amigos e em excursões cidades como Berlim, Colónia, Frankfurt, Munique, Zurique, Bruxelas, Antuérpia, Salzburgo, Praga. E durante a minha pós graduação em Londres tive a oportunidade de viajar por Inglaterra, Escócia e Ilha de Sky.
Hoje em dia, felizmente, continuo a ter oportunidade de viajar mas agora são viagens mais relacionadas com o trabalho, para ver as colecções das marcas de pronto-a-vestir que comercializamos, para feiras de moda e, mais recentemente, desde que desenvolvemos o nosso recente projecto hoteleiro, para feiras de Turismo.
Fiz também algumas viagens de lazer com a família que me marcaram, como à República Dominicana, Brasil (Salvador da Bahia), Canárias e EUA (Nova York e Boston).
Tenho obviamente viagens de sonho que gostaria muito de realizar a países diferentes, para conhecer novos mundos, culturas diferentes e contactar com outros povos. São tantas, que não consigo seleccionar uma.

Que relação estabelece diariamente e actualmente com a sua família? Sente que hoje tem mais tempo para lhe disponibilizar?
Sou muito ligada à família que está sempre presente comigo, também porque trabalho com os meus pais. Sou casada, tenho dois filhos, a Vera e o Vasco, que são o meu orgulho e o meu maior tesouro.
Tenho um irmão, que tirou Arquitectura e que, quando pode, também nos ajuda nos trabalhos da empresa e uma tia, a “Titi”, que é uma pessoa muito querida e especial para mim. É como se fosse a minha “segunda mãe”. Não casou e dedicou a sua vida a todos nós. É irmã da minha mãe, vive com os meus pais e ajudou a criar-me e ao meu irmão, numa altura em que os meus pais viajavam muito em negócios, colecções e feiras. Também ajudou-me a criar os meus filhos. É, por isso, a “mãe” de todos nós... o nosso “anjo da guarda”!

E os amigos, que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem?
Tenho alguns amigos, poucos, ainda do tempo de escola. Raramente nos encontramos, mas, de vez em quando, contactamos e, quando nos cruzamos, é uma alegria. Nunca me esqueço destes amigos que marcaram fases muito importantes da minha vida. Tenho outros, meus e do meu marido, que conheci, noutra época da minha vida, a de casada, de quem gosto muito, com quem confraternizamos, de vez em quando, aos fins-de-semana, com quem nos divertimos, rimos e relaxamos. E, tenho ainda outros, que entraram na minha vida, nos últimos anos, e têm sido muito importantes e preponderantes numa caminhada de evolução interior que tenho vindo a sentir e a experienciar e que está em constante crescendo. Estas amizades, que eu muito prezo e valorizo, têm inspirado e incentivado esse meu lado criativo e a minha sensibilidade interior que se tem refletido através da escrita e da poesia.
Recentemente, eu e o meu querido amigo João Carlos Abreu coordenámos um livro lindíssimo, em conjunto com outros escritores açorianos e madeirenses, que se intitulou exactamente “O Livro da Amizade”. Lançámos este livro recentemente nos Açores e na Madeira. A parte com que contribuí fala exactamente do imenso valor da verdadeira amizade que é capaz de unir arquipélagos e eternizar valores e sentimentos, tal a força do seu sentimento e poder. Que as pessoas não se encontram por acaso e que há encontros que nos marcam para todo o sempre, nos acrescentam, nos enriquecem e nos fazem emanar e partilhar o melhor de nós. A verdadeira amizade é assim, mágica e dá-nos essa vida! 
Graças a estas amizades e à minha dedicação em tempos livres à escrita outros projectos têm vindo a meu encontro que eu sempre muito agradeço e acarinho, pois alimentam e valorizam o meu outro mundo criativo e sensível. A todas as minhas amizades, estarei eternamente grata, pois foram e são muito importantes na minha caminhada de vida e no meu evoluir como pessoa.

Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também? Esta relação foi evoluindo ao longo dos tempos?
A minha relação com a internet é diversa. Uso-a na minha actividade profissional e é uma excelente ferramenta de trabalho que já não consigo prescindir, pois já faz parte de toda o esquema laboral da nossa actividade.
É também uma óptima forma de partilhar as nossas campanhas e os nossos produtos e assim, publicitá-los, abrangendo e atingindo um grande número de pessoas.
Uso também a internet para pesquisas e lazer. Para partilhar fotos de paisagens, locais, notícias ou artigos que me tocam por alguma razão e que, por isso, não devem ficar só para mim e também tocar outros. Uso-a também para produzir a minha escrita, amadora e simples, a minha criatividade e sensibilidade interior que, por ser positiva e altruísta, sinto que deve ser partilhada com um mundo demasiado competitivo, materialista e egocêntrico.
E, finalmente, uso a internet também para ver vídeos, ouvir música e ler artigos do meu interesse.
A internet tem, efectivamente, vindo a evoluir rapidamente ao longo dos tempos e, apesar de trazer grandes e perigosos riscos, se não for usada de forma adequada, é um meio importantíssimo para a evolução da sociedade e do mundo.

De que forma se relaciona com os seus filhos? Como procura acompanhar o crescimento deles com uma maior proximidade?
O relacionamento com os meus filhos é excelente. São o meu bem mais precioso e o meu maior orgulho e penso que eles podem dizer que, com eles, consigo ser a mãe, a amiga, a confidente e o “abrigo”, sempre que eles precisarem de protecção em algum momento que se sintam mais desprotegidos nas suas vidas.
Sou, muitas vezes, “brincalhona” com eles e, em momentos relaxantes e de lazer, penso que consigo colocar-me ao mesmo “nível” deles e usufruímos juntos de momentos muito engraçados, de conexão e empatia emocional.
Eles sabem que podem sempre contar comigo e que eu estarei sempre presente na vida deles, dando-lhes o melhor de mim.
Tenho tentado acompanhá-los sempre, o melhor que tenho conseguido, ao longo do seu crescimento. O Vasco tem 16 anos, está no 11º ano, e a Vera vai fazer 21 na próxima semana e já “alçou asas e voou” para Lisboa para estudar. Está no terceiro ano de Direito. Não foi fácil este “alçar de asas” da Vera. A casa ficou mais vazia e silenciosa. Mas sei que é importante para eles, na altura certa, irem atrás dos seus sonhos, realizarem-se e abrirem novos horizontes. Incentivarei sempre, o máximo possível, a seguirem os seus sonhos e enriquecerem-se pessoalmente para serem cada vez melhores seres humanos e contribuírem, na sua dimensão e capacidade, para uma sociedade melhor.

Como caracteriza o seu modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo?
Sempre me vesti de uma forma simples, para mim, ao meu gosto, que me sentisse confortável e bem comigo própria. Nunca gostei de dar muito nas vistas através da roupa. Por isso, sempre me vesti e continuo a vestir de forma discreta.
Lembro-me que na adolescência, vestia umas roupas um pouco “diferentes”, mas de acordo com a moda dos adolescentes da época e, quando a minha mãe me via de manhã para ir para a escola, dizia sempre uma frase que me ficou na memória: “Olha... lá vem a trapeira!”. Mas nunca me pediu para trocar de roupa, pois sabia que era uma fase própria do meu crescimento e respeitava. Mas mesmo nessa altura, nunca fui de grandes radicalismos a vestir, também porque gostava de passar despercebida.
Hoje em dia, apesar da minha simplicidade e descrição a vestir, tento estar dentro da moda, pois vendo moda, mas sempre dentro de um registo simples, muito próprio e pouco sofisticado.

Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo do tempo, tendo em conta a modernização que a própria alimentação tem sofrido?
Tenho uma alimentação equilibrada e algo cuidada, sem ter atenção a nenhum tipo de dieta. Tento não comer muitos fritos, gorduras ou doces, não só porque não são alimentos saudáveis mas também, e acima de tudo, porque não sou grande adepta deste tipo de alimentos.
Como praticamente tudo, mas prefiro peixe e aves a carne de vaca que, não deixo de comer, mas evito o mais possível.
Gosto muito de petiscos e de tudo o que vem do mar, desde peixe a mariscos.
Sou mesmo uma adepta do mar... adorou o mar em tudo: de mergulhar nele, como fonte de inspiração e alimento. Não é à toa, com certeza, que sou açoriana e do signo Peixes...!
         
 

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