Hélder Cosme é o padre da Freguesia de São Roque

“Na Paróquia somos ao mesmo tempo pastores e gestores de recursos humanos voluntários”

Fale-me um bocadinho de si e do seu percurso escolar.
Sou natural de São José, Ponta Delgada, embora toda a minha família seja natural do Nordeste. Filho de uma família católica praticante, entrei no antigo Seminário Menor de Ponta Delgada aos 10 anos, dada a amizade que tinha com muitos seminaristas, pois era praticamente vizinho e regularmente brincava com eles.
Terminado o 9.º ano, ingressei no Seminário Maior de Angra do Heroísmo, onde fiz o ensino secundário, e completei o Curso Filosófico-Teológico em 2001.
Nesse ano, a 1 de Julho, juntamente com dois colegas, fui ordenado sacerdote na Igreja Matriz da Ribeira Grande.
A minha primeira colocação foi na Ilha de São Jorge, onde vivi durante seis anos na Ribeira Seca, servindo, para além desta, as comunidades da Calheta, Manadas e Urzelina juntamente com outro colega sacerdote.
Em 2007, terminada a provisão de seis anos, foi-me confiada a comunidade de São Roque, em Ponta Delgada, onde tenho trabalhado nos últimos quase 12 anos.
A par da Paróquia de São Roque, colaboro como Capelão no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital de Ponta Delgada, e sou Presidente da Direcção do Centro Social e Paroquial de São Roque.

O que nos pode dizer acerca dos cidadãos de São Roque em termos da sua presença nas eucaristias e da sua fé e devoção?
Dado ter nascido e crescido em Ponta Delgada, o ambiente citadino não me é estranho, pelo que a adaptação foi fácil.
No entanto, isso não invalida que, se as maiores virtudes de ser uma freguesia da periferia da cidade estão todas presentes: a proximidade, as ofertas de comércio, de divertimento, de cultura, o acesso à saúde, e a todas as estruturas da vida em sociedade; por outro lado, os maiores defeitos de ser uma freguesia da periferia da cidade também estão todos lá: o facto de ser cada vez mais uma freguesia “dormitório”, onde os residentes se dividem entre os que são naturais da freguesia, e têm por ela uma estima gravada no seu íntimo e se esforçam continuamente pelo seu crescimento e evolução, e os que efectivamente apenas aqui residem, vindo de outros lados, mas aqui fixaram residência, mas não fazem uma vida activa nela; e o facto de ser cada vez mais uma freguesia “turística”, pelas suas praias, restaurantes, a sua bela costa, e a proliferação, que poderá estar a prejudicar irremediavelmente a “alma” da freguesia, dos alojamentos locais, que albergam apenas temporariamente quem nos visita.
Feita esta caracterização da freguesia, em relação às pessoas, tenho que realçar o imenso respeito que sempre todos tiveram para comigo, e afirmar que a participação das mesmas nas eucaristias é regularmente reduzida, mas pontualmente intensa, porque as pessoas cada vez mais celebram motivos, mas não estão motivadas para celebrar, pelo menos não a um nível de compromisso que a fé exige.
A sua fé e devoção evidenciam-se, principalmente, como em quase todas as freguesias dos Açores, nas expressões de religiosidade popular, muito fervorosas, mas ocasionais. Em muitos casos, falta o compromisso de viver e caminhar em comunidade, de participar continuadamente em Igreja, embora se mantenha o respeito por ela”.

Entretanto acumula ainda o cargo de Capelão do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada? Como tem sido?
“São mundos completamente diferentes. Na paróquia somos ao mesmo tempo pastores e gestores: somos pastores no testemunho, no acolhimento, no diálogo, na partilha de vivências; e somos gestores de recursos humanos voluntários, de recursos pastorais e recursos patrimoniais.
No mundo da saúde somos acima de tudo pastores. Há uma pequena dimensão de gestão na organização do Serviço enquanto parte da estrutura acreditada que é o Hospital, mas acima de tudo somos pastores: estou disponível para o que for necessário, para ouvir, para estar, para ungir, para confortar, para perdoar, para motivar e para abençoar, sempre com a consciência de que não posso chegar a todos nem salvar todos, mas que aqueles “que me passam pelas mãos” têm de sentir e perceber que não estão sós no infortúnio e na dureza da vida e da natureza, mas que estão acompanhados e são aconselhados nesse processo de reconciliação consigo mesmos, com o mundo e com Deus, que nasce da condição ou do estado de doença, e que é necessário entender e integrar, para poderem continuar a viver”.

Os jovens são participativos ou nem por isso?
Atendendo às circunstâncias da Paróquia, não me posso queixar da participação dos jovens: existe um grande número de crianças e jovens na catequese, a equipa de catequese integra vários jovens que completaram a mesma nos últimos anos, e diversos jovens estão integrados nos Movimentos e Grupos Paroquiais, nomeadamente na Legião de Maria Juvenil - um grupo totalmente completo por jovens e que, entre outras actividades, dinamiza o cântico nas principais celebrações -, nos Leitores e até na Comissão de Festas. Por isso, numa resposta mais directa, os jovens que encontram o seu espaço de integração na Igreja, em formas que expressam a sua generosidade e as suas convicções de fé, são bastante participativos e, mais importante, comprometidos. E são um número significativo, e com muita qualidade. Por outro lado, os que, pelas mais variadas razões, não encontram esse espaço, naturalmente não participam. E há que encontrar formas para integrá-los e para acolhê-los, porque eles são muito importantes para a comunidade, que deve ser uma expressão intergeracional da fé, aliando a experiência e a religiosidade dos mais velhos, a inocência e alegria das crianças, e, evidentemente, a criatividade e expressividade da juventude.

Do conhecimento que tem, há muito casos sociais na freguesia?
Como em todas as freguesias, em São Roque existem demasiados casos sociais. Mesmo que fossem poucos, seriam sempre demasiados. Os tempos actuais evidenciam as carências a todos os níveis, e as carências económicas e afectivas estão na linha da frente: famílias destruturadas, trabalho precário ou ausência dele, dependência de subsídios ou programas sociais, alcoolismo, droga, o abandono e solidão de idosos, etc. É claro que as instituições de São Roque, como a Junta de Freguesia e a Igreja, por intermédio do Centro Social e Paroquial e do Núcleo Paroquial da Cáritas, tudo procuram fazer para minorar essas situações, mas o campo de missão é imenso, e nem sempre as respostas, embora esforçadas e honestas, são as mais eficazes, no sentido de ajudar as pessoas, e criar condições para superarem as suas dificuldades. No caso da Igreja, julgo que o que é feito, pouco ou muito, é bem feito, e expressa a dimensão da acção social e caritativa da igreja, embora com parcos recursos, mas com profissionais e voluntários de grande entrega e dedicação.

O que nos pode transmitir acerca das festividades em honra do padroeiro de São Roque? Tem o seu ponto alto com a celebração da eucaristia solene e procissão?
A Paróquia de São Roque tem uma grande expressividade ao nível da religiosidade popular, com grandes manifestações de fé nas Festas do Espírito Santo, com os seus muitos Impérios, na Romaria Quaresmal e na Festa de Nossa Senhora de Fátima. A estas se junta obviamente a Festa em honra do seu Padroeiro São Roque, que ocorre sempre no domingo seguinte ao dia 16 de Agosto, dia em que se assinala no calendário da Igreja o seu exemplo de santidade. O ponto alto é sempre a celebração do Eucaristia Solene e da Procissão Solene que percorre as principais artérias da freguesia. É um momento de orgulho e identidade das gentes de São Roque e cada vez deve ser mais vista não apenas como uma festa da Igreja, mas como uma expressão dessa identidade que a todos, naturais ou residentes, pertence. Por isso procuramos integrar na Procissão as várias expressões da freguesia, desde as autoridades civis, a representantes da cultura e do desporto, bem como, obviamente, à catequese e aos Movimentos da Igreja. Acima de tudo a Festa de São Roque expressa a herança cultural que recebemos, e o desejo, assente nesta expressão religiosa, dos nossos antepassados confiarem à intercessão deste Santo, os destinos e vidas dos habitantes de São Roque de todos os tempos.

São Roque mudou do dia para a noite. É hoje uma freguesia diferente, para melhor. Quer comentar?
Concordo com esta afirmação. Como sou natural de Ponta Delgada, lembro-me, quando era mais jovem, do estigma que pairava sobre São Roque. Falava-se constantemente dos distúrbios, brigas, e de situações que em nada dignificavam a freguesia. E mesmo que existissem por vezes exageros quanto a esse estigma, porque problemas sociais todas as freguesias os têm, confesso que não encontrei nos 12 anos que por aqui passo evidências desses tempos, pelo menos com a gravidade com que eram faladas. Existem problemas, ocasionais distúrbios, e muito para fazer, mas julgo que há razões mais que suficientes para acreditar no crescimento e evolução da freguesia, ao nível do turismo, do comércio, e do bem-estar social e familiar, e não aparecer na comunicação social, como infelizmente quase sempre acontece, por maus motivos. Julgo ser muito importante cultivar este orgulho de pertencer a São Roque, e contribuir, com a sua presença e/ou intervenção, para a transformar cada vez mais para melhor. Essa missão não compete apenas às autoridades civis, que não dão, mas administram, mas cabe a todos, porque as pessoas, sim, dão de si e do que é seu, com o seu testemunho e experiência de vida, para ultrapassar esse estigma do passado, vivendo o presente com humildade e generosidade, para construir um amanhã risonho para as gerações vindouras.

 

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