António Silva, aposentado da PSP, é um improvisador

“Felizmente as cantigas ao desafio estão definitivamente a rejuvenescer”

Correio dos Açores: Quando e como te apercebeste do gosto pela improvisação? 
António Silva: Talvez quando tinha uns doze anos de idade comecei a sentir o gosto pelas cantigas ao desafio, porque tinha um tio materno que se ajeitava na improvisação. Sempre me habituei a apreciar quem cantava e sempre gostava de ouvir, pelo que comecei a improvisar e notei que tinha aptidão.

O que sentes quando estás a improvisar num espectáculo repentista?
Sinto muita responsabilidade por ser improviso e orgulho e ao mesmo tempo dá-me muito prazer quando estou num palco a fazer um espectáculo, pois gosto muito de cantar ao desafio e perceber que as pessoas estão a apreciar o nosso trabalho.

Quem são os improvisadores que mais aprecias?
Gosto de apreciar todos os que sabem cantar, contudo, há um senhor de nome Vasco Aguiar, residente no Canadá, já não canta por estar com a idade avançada, mas que para mim me enchia a alma a ouvi-lo improvisar, com muita sabedoria que encantava todos os que o ouviam.

Achas que a nova geração de cantadores vai vingar?
Acho que sim. Neste momento sei que há muitos jovens que estão a cantar e que também têm no sangue a improvisação e por sinal, são muito bons cantadores que se começam a afirmar e a cantar conjuntamente com os mais velhos.

De quem recebeste influência na improvisação?
Parece que nasci com este dom de improvisar, mas as minhas influências recebi-as dos nossos cantares populares, porque eu com dez anos de idade, já cantava uma ou outra cantiga aquando dos balhos das despensas dos pescadores da minha Vila e também nas camionetas das excursões que se faziam antigamente pelo Verão à volta da nossa ilha.

Onde vais buscar inspiração para as cantigas ao desafio?
Eu próprio nem sei onde, porque é uma aptidão natural que se desenvolve quando estou a cantar. Sinto que na ocasião as coisas saem de forma muito espontânea, que por vezes digo para mim próprio, que não sei como me fui lembrar de dizer aquela quadra que repentinamente cantei.

As pessoas gostam de assistir às cantigas ao desafio?
As pessoas gostam, umas mais do que outras e é como em tudo, porque de um modo geral, ainda existem muitos amantes de cantigas ao desafio, e noto que a adesão aos espectáculos de cantorias esta a ser cada vez maior. Trata-se de uma tradição que continua bem viva junto do nosso povo que gostado desenrolar das cantorias.

Os jovens aderem aos espectáculos?
Há muitos jovens que aderem e gostam, mas normalmente, nos espectáculos encontramos sempre mais pessoas com idade, ou seja a partir dos 40 anos. Felizmente os espectadores jovens começam a interessar-se por esta tradição.

Achas que as cantigas ao desafio estão a rejuvenescer ou a cair em desuso?
Na minha opinião, felizmente as cantigas ao desafio estão definitivamente a rejuvenescer. Antigamente, os cantadores eram pessoas com alguma idade, mas hoje em dia, como há muitos e bons improvisadores muito jovens, é sinal que se está a garantir o futuro desta nossa bela tradição.

Já foste cantar fora a ilha?
Sim, já cantei em algumas ilhas dos Açores, o que é muito bom para que os amantes da cantoria se aproximam cada vez mais e se possa fomentar esta tradição que é comum a todas as nossas ilhas. Também já fui cantar a outros países, como o Canadá e Estados Unidos. Onde quer que haja açorianos há sempre gente que gosta das cantorias.

Lembras-te do teu melhor espectáculo de improvisação?
Recordo-me de há muitos anos, ter actuado na Ribeira Seca de Ribeira Grande e na freguesia de Livramento. No entanto, gosto de todas as minhas participações em espectáculos porque quando improviso entrego-me totalmente a cantar, o que me dá uma enorme satisfação.

Qual o teu maior sonho nas cantigas ao desafio?
O meu maior desejo é que as cantigas ao desafio progridem por ser uma das tradições mais bonitas do nosso povo açoriano.

O teu talento é notório. Para quando um livro com as tuas improvisações?
Acho que nunca terei um livro com as quadras que tenho feito, não apenas a cantar, mas que me pedem fazer para muitas ocasiões culturais e momentos sociais ou religiosos. Nunca me dispus a isso, mas quem sabe um dia…

Para além do violino, que outros instrumentos tu tocas?
Gosto de música e de vários instrumentos e são uma forma de alegrar a nossa vida e eu tanto toco harmónica de boca, ou violão, como também gosto de tocar na nossa viola da terra que é um instrumento sonoro que dá prazer tocar e ouvir. Por outro lado, também gosto do som do acordeão que me dá vontade e prazer de tocar.

As despensas dos homens da terra foram iniciadas por ti. Qual a razão porque começaste com esta tradição?
Desde muito novo que costumava tocar nas despensas dos homens do mar que se realizam pelas festas do Pentecostes na minha Vila de Rabo de Peixe. No entanto, por ocasião das festas da Santíssima Trindade não havia balhos e eu decidi juntar uns amigos e começar a armar uma despensa. Sem qualquer dúvida que as despensas dos homens da terra foram iniciadas por mim e como é uma tradição que mexe com o meu coração, tive a oportunidade as criar e felizmente elas vingaram e hoje em dia há várias despensas.

A indumentária tem sido uma preocupação na sua preservação. O que é preciso fazer para haver mais preocupação em retomar a tradição nas vestimentas?
Acho que não é preciso nada, é simplesmente vestir umas calças pretas, uma camisa branca, arregaçar as mangas, pegar numas castanholas e balhar. Contudo, é importante manter a tradição, com os chapéus de palha, que fazem parte da indumentária das despensas. 
                     

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