A Nossa Gente (194) – Teresa Tomé

“Era no documentário que se apanhava a alma dos Açores”, afirma a jornalista Teresa Tomé

Como foi o seu início de vida?
Nasci no dia 22 de Abril de 1956, na Calheta, em Ponta Delgada, e na altura ainda se nascia em casa. Vivi lá até aos três anos, mas depois os meus pais mudaram-se para a Rua da Mãe de Deus, também em Ponta Delgada, e foi lá que vivi a maior parte da minha vida. 
A minha infância foi muito feliz e neste momento da minha vida estou com vontade de repescar estes anos, pois tenho-me reunido com primos deste tempo que já não via há muito tempo. Costumo dizer que a minha infância foi rodeada de anjos, de gente boa, que realmente me passou valores importantes. 
Tenho uma irmã mais nova que eu. Nunca casei, a minha irmã é que tem duas filhas e cinco netos, os quais são assumo um pouco como minhas filhas e meus netos.
O meu pai era comerciante, mas morreu com 47 anos, quando eu tinha 10. A minha mãe trabalhava em casa, mas quando o meu pai morreu começou a trabalhar como empregada de comércio. Ela foi uma mulher guerreira para educar duas filhas que ficaram sem pai muito pequeninas. Na minha família há uma grande força do poder feminino, porque ou as mulheres não casaram ou criaram os filhos sozinhas. Quase que não precisamos do masculino, porque demos conta dos nossos recados; tivemos muitos natais apenas com mulheres à mesa!

Como era Ponta Delgada naquele tempo e como se brincava aqui na baixa?
Nós íamos à rua e conhecíamos as caras; nunca fomos muito de brincar na rua, mas havia o conceito de vizinho que hoje em dia não há e que é uma coisa que eu estranho muito. 
Ponta Delgada era uma cidade muito de província, era um local das mercearias, em que se ia ao mercado e em que ainda havia galinhas nos quintais, era um meio muito mais rural onde as pessoas realmente se conheciam e onde ir à missa ao Domingo fazia parte do ritual. 
Era possível brincar na rua, embora a minha mãe nunca deixasse muito que tal acontecesse. A nossa rua era muito pacata e às vezes nas nossas brincadeiras de criança contávamos os carros que passavam, que eram muito poucos. 

E os estudos como correram?
Gostava muito de estudar e arreliava-me quando não tinha boas notas. Eu vinha de uma família que não tinha estudos secundários e não tinha apoio nenhum em casa; eram os professores que o davam, sendo que alguns eram muito distantes e alguns eram mesmo um pouco aterradores, e tinham fama de o ser! A escola era diferente, só prosseguiam estudos os alunos que queriam seguir uma profissão, porque a escolaridade não era obrigatória; muitas vezes parava-se na quarta classe. Na altura, com 16 e 17 anos já estávamos a fazer uma vida profissional, muitas vezes, e hoje em dia isso é impensável, o que me faz uma certa confusão. Nesta altura, alguns infelizmente também já estavam a caminho da guerra de África. 

Como foi este período?
Difícil. Nascia um rapaz e já se temia, porque teria certamente que ir para a guerra. Muitas vezes as raparigas também sofreram, porque o trauma da guerra avançava para elas e para as famílias deles, já que muitos vinham de lá traumatizados, foi o meu caso. Namorei um rapaz que tinha ido à guerra e que veio com um trauma muito grande, tanto que acabamos por não casar penso eu que por causa disso! Foi uma guerra que afectou toda a gente. De maneira que para mim e para toda a minha geração a grande libertação foi mesmo o 25 de Abril. Foi uma alegria muito grande, eu tinha 18 anos na altura. Lembro-me perfeitamente daquele dia que foi até de algum temor, porque havia realmente muita ignorância e não se sabia o que aí viria. 
Na altura eu estava a terminar o liceu e os exames foram logo abolidos, foi uma festa. Tínhamos uma grande pressão por conta dos exames, no geral era um tempo de grande exigência. Claro que houve conjuntamente a libertinagem, mas muitos encararam aquela situação com grande alívio e alegria. Realmente tudo se modificou aqui nos Açores; com a implementação da Autonomia a vida por aqui se facilitou.

Estudou então até que ano?
Completei o liceu, que era o sétimo ano e hoje equivaleria ao 11º, e estava destinada a ir para a universidade, mas entretanto adoeci e não consegui continuar a estudar imediatamente. Então, fui fazer o curso do Magistério Primário – sem grande vocação, devo dizer – que era uma das duas hipóteses que havia na altura nos Açores, a outra era enfermagem e esta não poderia escolher porque não podia ver nem uma gota de sangue. Até gostei muito de fazer o curso e, quando comecei a trabalhar, fui colocada numa escola em Rabo de Peixe. Ninguém faz ideia do que era uma escola de Rabo de Peixe naquela altura; havia uma ou outra melhor, mas a minha era completamente degradada, algo de submundo; não se poderia sequer pensar que alunos que estavam ali contrariados, porque os pais não os incentivavam, fossem bons alunos. Foi uma experiência muito curta, de apenas seis meses, porque entretanto abriu a televisão, eu concorri e fiquei. 

Tinha já nesta altura o fascínio pela televisão?
Nem sei bem na altura o que é que me levou a concorrer, mas havia qualquer coisa que me levava para a divulgação. A televisão veio de encontro a esta vocação que tinha no meu inconsciente e que não estava muito desperta na altura, mas com a oportunidade de trabalhar lá despertou-se esta capacidade. 
Fui para a televisão em Fevereiro de 1976. Na altura estava já na redacção, mas comecei como dactilógrafa. Tínhamos uns telexes do tempo da guerra, eram umas caixas de madeira altas que nos transmitiam notícias do continente; não havia imagens em directo na altura, as imagens vinham a preto e branco do continente e pelo correio, com sorte chegavam cá no dia seguinte. 
Mas foi uma experiência maravilhosa, porque fomos pioneiros, estávamos a começar algo novo. Tínhamos muito orgulho naquilo que fazíamos e uma camaradagem muito grande. Foi nesta altura que descobri as outras ilhas. Mais tarde é que passei a jornalista. 
Entretanto formei-me, porque ficou sempre esta vontade. Na altura não havia o curso de comunicação social e o que mais se adequava era o de história, e foi o que fiz na nossa universidade, mas também gostava muito desta área. 

Foi nesta época que deu aulas na universidade?
Tive nesta altura um convite para ficar na universidade como assistente, sendo que saí da televisão e fui dar aulas de História da Cultura e das Mentalidades para a Universidade dos Açores. 
Porém, havia em mim sempre o bichinho da televisão, além do que a universidade me causava alguma ansiedade, porque era tudo muito incipiente. Ou seja, a minha geração abriu muitos caminhos e a universidade naquela altura estava muito no seu começo; não se saberia se teria futuro ou não, o que gerou alguma ansiedade nas nossas vidas, mas fez de nós uma geração progressista. Pagamos este preço, é verdade, mas hoje em dia as coisas estão lá – graças a Deus – e muito se tem feito nesta universidade de importante. 
Portanto, tive ali quatro anos de alguma insegurança sem saber se haveria futuro e com muito pouco apoio, porque a carreira universitária era muito exigente. Eu tinha um orientador que estava no Porto e não havia comunicações como há hoje e tínhamos que nos encontrar pessoalmente. A universidade nem sempre tinha dinheiro para me pagar as deslocações e ele vinha cá algumas vezes, mas sempre com algumas dificuldades. Escrevíamos cartas, coisa que hoje em dia já não existe! Muitos dos meus colegas da altura da universidade fizeram carreiras brilhantes e ainda estão lá, mas eu tinha algo que me puxava para a televisão, comecei a sentir-me muito infeliz e quis regressar.

Como se deu este regresso?
Pedi o meu reingresso e foi muito difícil, porque coincidiu com a abertura das televisões privadas, altura em que muitos iam para estas outras televisões e pediam depois o reingresso na RTP, porque a vida lá era um pouco mais segura. Houve um dia em que a Administração da RTP decidiu que não iriam decorrer mais reingressos, porque já era demasiado, e foi precisamente na altura em que eu pedi o meu, já com as portas fechadas. Tanto insisti com a Administração que consegui regressar.
Foi aí que estabilizei a minha carreira de jornalismo. No entanto, devo confessar que nunca gostei do jornalismo do dia-a-dia. Fugia sempre um pouco, porque preciso de maturar um pouco os temas e o jornalista tem que relatar a notícia imediatamente com veracidade, o que me gerava ansiedade. Rapidamente me orientei para a produção e aí foram os meus anos felizes na RTP.

Como escolheu os primeiros temas para trabalhar nos documentários?
Eu sugeria alguns temas e a própria RTP solicitava-me alguns trabalhos; como tinha a formação em História, muitas vezes os directores pediam-me trabalhos relacionados com o tema. 
Gostei muito de trabalhar nesta área e estava como o peixe na água, embora com menos conhecimentos técnicos da televisão, mas fui muito bem assessorada pelos meus colegas operadores de câmara e edição, eles eram fantásticos e entusiasmavam-se sempre. 
Acabei por fazer mais do que 50 documentários, e um documentário equivale em termos de trabalho, pesquisa e produção a um filme. Foi muito trabalhoso, mas um trabalho muito desafiante e positivo. 
Gostei da vertente do contacto com a emigração e fiz muitos documentários nesse sentido; fiquei com uma grande admiração pelos emigrantes. Ali é que percebi o que é realmente ser açoriano e levar esta raiz para fora, implementá-la, mesmo com tantas dificuldades como o não dominar outras línguas. Tudo isso me deixou muita admiração por estas pessoas que construíram até cidades, como o caso de Porto Alegre no Brasil. Na Califórnia muitos emigrantes açorianos atingiram um fantástico nível de vida e tiveram um grande poder económico, que agora também começa a ser político.
Também fiz documentários sobre figuras dos Açores que durante a história dos Açores se tinham destacado. A meu ver, o açoriano de uma forma geral tem uma baixa auto-estima e não acredita que pode fazer coisas maravilhosas, mas faz e tem-se destacado ao longo da vida de várias formas. Com o meu trabalho tentei mostrar que não é assim, que realmente somos capazes e que temos uma força tremenda, uma capacidade de trabalho enorme, e isso já é em termos do país inteiro. Em Portugal trabalha-se muito realmente e nem sempre este trabalho é recompensado! 

Os Açores hoje em dia precisariam de ser mais documentados, estará tudo a ser feito na base do imediatismo?
Acredito que sim! A produção na RTP terminou quando saí de lá e uma das razões que me fez sair foi mesmo esta, porque já estava na redacção novamente e quando se deu a oportunidade saí. Fui para a reforma com 57 anos. 
Sempre fui uma alma muito livre e compreendi sempre o meu trabalho como uma grande responsabilidade. Não precisava nada de colocar o dedo num relógio de ponto, porque eu estava lá e fazia o meu trabalho. Isso era quase uma agressão para mim, porque tinha doado a minha vida àquela casa e aquilo chocava-me. Já não era o ideal daqueles pioneiros que entravam para trabalhar e não olhavam para o relógio para sair! De resto, a televisão foi das melhores coisas que me aconteceu na vida. Estive lá 37 anos, foi uma vida. Quando penso na televisão, vejo-a como uma mãe e uma madrasta, porque foi uma mãe dura, mas foi também uma grande escola onde aprendi a crescer, a ser profissional e a apaixonar-me.
Esta não produção na região prejudica-nos, porque era no documentário que se apanhava a alma dos Açores. As sociedades e culturas só se fazem com força anímica, o resto pode ser mecanizado. Era a RTP que unia e bem os Açores como um todo, a rádio ainda une bem, mas hoje em dia há a internet e é tudo muito diferente! Acho que tudo se cinge a uma questão de contenção de custos. Penso que o facto de se ter reduzido a produção aqui tão drasticamente revela a falta de importância dada por Lisboa, assim é fácil tomar esta decisão lá fora. 
Muitas vezes fui a favor da regionalização da televisão pública, apesar de muitos dos meus colegas não concordarem, e foi uma pena isso não ter acontecido. Nós temos cultura e força para isso, como seres que edificaram uma vivência no meio do mar, com tantas dificuldades, porque hoje em dia é que se vive bem! E temos que perceber isso se quisermos dar um passo em frente. Até o próprio turismo nos prova isso, porque os turistas querem vir para cá e dizem que isso aqui é maravilhoso. Eu tenho experiência neste âmbito. Como não gosto da ideia de não trabalhar, dediquei-me muito ao alojamento local com turistas e gosto muito. É um contacto muito directo com os estrangeiros que vêm e deixo-lhe sempre informação sobre a nossa terra. 

Não se sente reformada?
A verdade é que me sinto muito cheia de saúde e de alegria quando estou a trabalhar, o que é bom. Agora gostaria muito de dedicar-me à escrita, porque gosto muito de escrever. O jornalismo agora fica para os novos, mas gostava de escrever, o problema é que tenho que me disciplinar para isso. A vida pega em mim para as coisas do dia-a-dia e faz-me aflição perceber que já estou reformada há seis anos e não sei o que fiz, porque foi só o dia-a-dia.

Que tipo de escrita gostaria de fazer agora?
Gostaria de escrever um livro com alguma ligação ao jornalismo, mas menos directa. Tenho um projecto pensado sobre a autonomia com duas personalidades políticas, mas há uma parte de mim que teme entrar outra vez numa vida mais política e que nem sempre tem a ver com aquilo que eu quero para este momento. Neste momento vivo muito em paz, fora do bulício, e entrar nesta rotina novamente faz-me confusão. É um projecto para ponderar. 
Por outro lado, gostaria de tentar a ficção, embora talvez seja um pouco tarde. Parte de mim gostava de escrever contos e ficção. 

De que forma desenvolve também o seu lado espiritual?
Esta é uma componente muito forte na minha vida; de repente apaixonei-me pela alma das pessoas e gosto de ver o que está por detrás da fachada das pessoas, o que de alguma forma já fiz quando trabalhei. 
Até foi o trabalho que me proporcionou um grande arranque nesta área, nomeadamente com um documentário que fiz sobre a Natália Correia, que era uma grande escritora e um génio, uma pessoa com uma grande espiritualidade. 
Foi uma aventura enorme, porque na altura eu conhecia mal a obra da Natália Correia, pelo que sabia que ia ser complicado abordá-la pela parte da literatura. Por isso, escolhi agarrar o tema pela parte da espiritualidade que ela tinha e isso começou a ecoar dentro de mim. Aprendi uma nova espiritualidade com a obra da Natália Correia, a qual esteve afinal sempre presente no Ocidente. 
Estudei as tradições isotéricas orientais, nomeadamente o budismo e o hinduísmo, para vir a descobrir depois que estava tudo no Ocidente e que pessoas como a Natália Correia já conheciam tudo isso. Estava apenas arrumado num local secreto por causa das pressões da igreja católica. Hoje em dia tenho uma prática regular de meditação e a minha vida é muito mais feliz, porque tenho respostas que a igreja católica sozinha não me deu, embora continue a ser católica. Consegui trabalhar mais o equilíbrio e estudei yoga, aliás nos meus primeiros anos de reforma dei aulas de yoga e apaixonei-me por esta filosofia. O yoga é uma ligação à nossa alma e ao nosso espírito. Sei também que todas as correntes espirituais têm algo de bom, assim com têm alguma coisa de errado, porque o mundo é de dualidades, onde há a tristeza e a dor e temos que saber viver com isso para se viver neste mundo. Só nos resta aceitar a dor e regozijarmo-nos com a felicidade, mas as pessoas às vezes não estão atentas, porque os sinais estão sempre à vista; a vida está sempre a comunicar connosco!

                                 
 

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