14 de abril de 2019

Coisas do Corisco

Será a gordura formosura?

Embora antigamente as coisas e as modas demorassem um pouco mais  a chegar aos Açores, depois da globalização, das deslocações supersónicas em rápidos e modernos aviões, já tudo chega ou acontece muito rapidamente, quase sem darmos por isso.
E se antigamente, com o quase isolamento que tínhamos, estávamos razoavelmente protegidos cultural e socialmente, hoje somos bastante afectados, pela velocidade com que tudo chega aos Açores através da internet, dos órgãos média, e pela facilidade e velocidade com que se viaja.
Tínhamos, por isso,  que cuidadosamente fazer o balanço das questões que nos poderiam  afectar, para que tomássemos  as medidas que teríamos  que implementar para que o nosso mosaico humano não fosse molestado.
Por isso, a protecção que os Açores tinham pelo seu grande isolamento, e pelas muitas dificuldades de cá se chegar, deram, num repente, lugar ao facilitismo com que muitas coisas, genuinamente nossas, tivessem sido afectadas pela influência da estranja, exactamente por não termos sabido, bem a tempo, prevenir esse inevitável acontecimento.
Hoje, com a proliferação do turismo, as mudanças sucedem a uma velocidade estonteante, levando a que nós açorianos, se não tomarmos medidas urgentes de resistência contra a internacionalização e posse de quase tudo aquilo que é nosso, por gente de fora, levaremos a nossa Região, o nosso povo,  e a nossa cultura, à sua  diluição que, uma internacionalidade sem controle provoca, fatalmente, nas regiões mais frágeis.
Por isso, na minha humilde opinião, seremos tanto mais ricos quanto mais soubermos defender aquilo que nos é típico e cultural pois são essas diferenças, aliadas à pureza da nossa natureza, que fazem dos Açores uma terra ímpar, com um povo culturalmente diferente. 
Nas últimas 3 décadas a nossa vivência, física, cultural, e social,  deu uma enorme cambalhota pois as mudanças sendo inevitáveis, teriam que ser diferentes para que não sucedesse o enorme choque que acabou por suceder. Paralelamente a monocultura da vaca, a mudança dos jovens casais para habitarem maioritariamente apartamentos, o trabalho dos dois cônjuges, a falta dos tradicionais quintais anexos às casas de habitação, ao fim e ao cabo áreas importantes de produção, principalmente de vegetais, e as políticas agrícolas erradas dos nossos sucessivos Governos, com o consequente quase abandono das culturas agrícolas, trouxeram-nos uma dependência enorme das importações de praticamente tudo aquilo que necessitamos para comer.
Essa espécie de explosão social trouxe-nos para vivências novas, onde aquilo que nos era muito típico e muito rico culturalmente, quase desapareceu. Como consequência o tempo deixou de ter tempo no seio das nossas famílias; deixou de haver  tempo para que, principalmente as jovens famílias açorianas, tivessem tempo para a sua vida familiar; deixou de haver tempo para se ter tempo de outra coisa que não fosse o trabalho e o turbilhão de afazeres surgido.
Assim sucedeu aquilo que era inevitável suceder: a falta de tempo para se ter tempo para muita coisa; a falta de tempo para se cuidar, como seria ideal suceder, dos filhos.
Como consequência, uma das principais vítimas dessa nova vivência, afastada das inevitáveis medidas que moderassem o restante, reflectiu-se de uma forma tenaz na alimentação dos açoreanos. E quando há 30 anos atrás não existia gente  gorda hoje, praticamente, não existem pessoas magras, tais são os erros alimentares.
Mas aquilo que mais me choca é constatar o desleixo, quase geral das raparigas açorianas: desalmadamente obesas, quais máquinas devoradoras de comida “fast food”, de doces e de gelados; incrivelmente mal vestidas, sem jeito, e sem aquele toque atractivo feminino que as jovens raparigas passeavam alegremente, quando gingavam nas nossas praças; mal maquilhadas e mal penteadas com cabelos abandonados ao sabor do mau gosto; corpos pateticamente tatuados, embrutecidos na periferia do ridículo, e do mau gosto usado  por gente incompetente que nem um camelo saberiam tatuar.
Voltando à questão da obesidade que se generalizou, nos dias de hoje nos Açores, embora parte dela se situe na aceleração da vida quotidiana, com a consequente falta de tempo para se dar tempo a muitas questões essenciais das relações familiares, essa obesidade provém, também, no essencial, pelo desleixo e pelo embarque puro e simples das famílias no recurso a uma alimentação erradíssima, sem método ou critério das famílias.
Hoje, a proliferação da obesidade é tal que já nos poderemos comparar, sem medo de errarmos, aos países mais obesos do mundo.
Dai haver a necessidade gritante de se sensibilizar os açorianos para um tipo de alimentação diferente, para uma ocupação fora do conforto dos sofás e mais virada para exercícios vários que lhes queimem o excesso de calorias, assim como deverá suceder uma orientação para as nossas crianças trocarem, em parte, os vídeo jogos, por aqueles que lhes levem a esfolarem os joelhos, a jogos colectivos que, para além do exercício físico, lhes ensinem a competição sadia sem violências, assim como a gastarem em vez de acumularem desnecessárias calorias.

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Categorias: Opinião

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