Escolas servem 14 mil refeições diárias

“A baixa taxa de sucesso do almoço escolar deve-se à necessidade de orientar as crianças para a prática de hábitos alimentares saudáveis”, diz Director Regional

Do total das 14 mil refeições que são servidas diariamente nas cantinas das escolas dos Açores, perto de 76% estão destinadas aos alunos com atribuição de escalão da acção social escolar, assegurando assim um dos objectivos da Direcção Regional da Educação, nomeadamente o de “assegurar uma alimentação equilibrada e adequada às necessidades das crianças”.
Apesar dos resultados alcançados por um estudo elaborado pelo Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (Insa), que decorreu entre os anos de 2015 e 2017 e analisou as refeições servidas em 25 escolas dos municípios de Santarém e Alpiarça, que para além de detectar excesso de sal nas refeições servidas a crianças com idades compreendidas entre os dois e os cinco anos de idade, tal como detectaram excessos no teor de energia, hidratos de carbono e proteínas, nos Açores estes padrões encontram-se dentro daquilo que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde, afirma Rodrigo Reis.
Assim, de acordo com o Director Regional da Educação, e de maneira a alcançar cerca de 30 a 35% das necessidades totais do dia alimentar, os almoços escolares servidos estão “adaptados e corrigidos” para suprimirem as necessidades de duas faixas etárias principais, nomeadamente os alunos do pré-escolar e 1.º ciclo e os alunos do 2.º ciclo ao secundário, recorrendo a uma “alimentação mediterrânica adaptada aos hábitos e costumes regionais”.
No entanto, para além das respostas que devem ser dadas às necessidades energéticas e nutricionais de cada uma das crianças que acaba por comer o seu almoço no refeitório da escola, Rodrigo Reis adianta ainda que “estas refeições também devem responder a outros objectivos, tais como às bases pedagógicas (o que é ensinado), às sociais (assegurar alimentação a todos os alunos), às ambientais e às culturais (preservação de tradições e adaptação à região)”.
Segundo o Director Regional há, contudo, que ter em conta que “não é possível definir exactamente o que cada aluno necessita na sua individualidade, e por isso são usadas ‘guidelines’ (directrizes) devidamente certificadas e cientificamente comprovadas para atribuição destas necessidades”, sendo através destas linhas calculadas capitações alimentares destinadas aos alunos do pré-escolar ao ensino secundário, salientando ainda que com a aplicação da lei n.º 11/2017 os refeitórios escolares estão também preparados para o fornecimento de refeições vegetarianas.
Neste sentido, “todas as refeições disponibilizadas aos alunos em contexto de almoço escolar, tal como regulamentado pelas orientações da Direcção Regional da Educação devem ser compostas por sopa de legumes, por um prato composto por um fornecedor de proteína, por um fornecedor de hidratos de carbono e por hortícolas que devem ser integradas no conduto ou na guarnição, bem como disponibilizadas como terceiro elemento independente, por fruta (ocasionalmente pode ser oferecida gelatina ou sobremesa láctea mas sempre com a opção de fruta disponível) e pão, como complemento energético”.
Por outro lado, diz no que concerne ao uso de gorduras e de sal, na documentação técnica existente, nomeadamente o caderno de encargos da autoria da Direcção Regional da Educação, estão claramente definidas as características qualitativas e quantitativas destes produtos, sendo que no caso do uso de gordura “é sempre dada preferência ao azeite, devendo inclusive ser a única gordura a ser utilizada na sopa e para tempero das hortícolas”, devido aos benefícios que tem para a saúde.
No que diz respeito ao uso de sal de adição, os Açores foram pioneiros a introduzir de forma exclusiva o sal iodado, uma vez que “segundo a Organização Mundial de Saúde, a carência de iodo é a principal causa evitável de doenças mentais e do desenvolvimento, e que segundo dados resultantes do Grupo de Trabalho de Estudos da Tiróide da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, de 2012, os Açores apresentavam uma elevada carência deste mesmo oligoelemento”, tendo em conta que cerca de 78% de crianças teria carência de iodo, salienta.
Contudo, de acordo com Rodrigo Reis, a baixa taxa de sucesso do almoço escolar prende-se “essencialmente pela necessidade de orientar as crianças e jovens para a prática de hábitos alimentares saudáveis”, um trabalho que apesar de ser desenvolvido pelas escolas e pelo Programa Regional de Saúde deverá partir também de casa, considerando que “os pais devem ser o maior e melhor exemplo das crianças, bem como os principais intervenientes nos hábitos alimentares dos seus filhos e não apenas os ajudantes da mudança”.
Assim, segundo o Director Regional que detém a pasta da educação, “o baixo consumo de frutas, legumes e verduras encontra-se entre os principais factores de risco para o aparecimento de doenças não transmissíveis. Logo, está claro que estes alimentos são essenciais ao bem-estar e saúde de qualquer indivíduo (…), sendo por isso o primeiro passo para garantir que uma criança tenha um determinado comportamento é fazê-lo, já que a criança aprende por imitação e os pais serão sempre o seu melhor espelho”.
Por esse motivo, “famílias em que os hábitos alimentares saudáveis fazem parte das rotinas, tal como outras bases da higiene, dos afectos e do respeito, serão mais facilmente replicados pelas crianças”, afirma Rodrigo Reis, salientando ainda que para incentivar estes hábitos saudáveis é preciso, por vezes, “ser resistente, insistente e até criativo”, sendo uma estratégia viável “convidar as crianças a colaborar na confecção das refeições, introduzir legumes “secretamente” em todas as confecções e até modificar as formas como às vezes são apresentados estes alimentos”.
Porém, sublinha o Director Regional da Educação, as crianças tendem de uma forma natural a “rejeitar alimentos novos ou alimentos que não estão habituadas a ingerir, principalmente quando os sabores doces e/ou salgados não são predominantes”, tornando por isso necessário introduzir a criança o mais cedo e frequentemente possível a um alimento, uma vez que assim “mais fácil poderá ser a sua aceitabilidade”.
De acordo com estes estudos recentes relacionados com a introdução de novos alimentos na dieta das crianças, afirma a Direcção Regional da Educação, tem sido demonstrado que as crianças até aos dois anos de idade necessitam geralmente de cinco a dez exposições, enquanto as crianças entre os três e os quatro anos de idade poderão necessitar de pelo menos 15 exposições a um determinado alimento até que o aceite como parte integral da sua alimentação.
Segundo as conclusões deste estudo, afirma as crianças que estão habituadas a ingerir diariamente fruta e legumes “tendem a ter mais sucesso na continuidade destes hábitos ao longo da sua vida”, o que caso contrário poderá levar a que as crianças desenvolvam resistências ao consumo de legumes em contexto escolar.
Porém, e segundo o director regional, o que se verifica com mais regularidade é que as crianças com idades enquadradas no pré-escolar e no 1.º ciclo têm uma menor resistência ao consumo de legumes em contexto escolar do que as crianças que integram os ciclos de ensino seguintes.
Um dos principais motivos que fazem com que este comportamento surja deve-se ao facto de crianças e jovens passarem a ter “acesso ao direito de escolha e a uma maior variedade de opções” no que diz respeito à sua alimentação, uma vez que passam a ter a possibilidade de sair do espaço escolar para realizarem as suas refeições.
Por outro lado, também o facto de “não terem bem implementadas as bases para a importância da realização de hábitos alimentares saudáveis, e muitas vezes por imitação e acompanhamento de pares”, estas crianças e jovens poderão voltar “a apresentar uma maior resistência a alimentos menos processados e mais saudáveis”.
No que à obesidade infantil diz respeito, segundo dados do estudo intitulado “Childhood Obesity Surveillance Initiative”, a Direcção Regional da educação refere que no ano de 2013 “Portugal apresentava uma taxa de 2,7% de crianças com baixo peso e 31,6% de crianças com excesso de peso”, enquanto “em 2016 a taxa de crianças com baixo peso reduziu para 0,9%, e a de crianças com excesso de peso manteve-se acima dos 30% (30,7%) ”.
Nos Açores, conclui Rodrigo Reis, os valores terão sido semelhantes, “inclusive com valores de excesso de peso superiores à média nacional. Assim, julga-se que o problema a discutir não serão dos desvios nutricionais que possam existir a nível das refeições escolares, mas sim ao nível dos hábitos alimentares da população em geral”, já que as refeições escolares se enquadram “num regime alimentar saudável e equilibrado, no qual se oferece uma variedade alimentar e nutricional que, mesmo isoladamente, não seria factor de limitações nutricionais e energéticas”.

 

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