Catarina Cymbron, da Agência Melo

“Quem quiser ver o que não se deve fazer no turismo nos Açores, vá a São Miguel dar uma voltinha no mês de Agosto”

“Atingir maior coesão entre ilhas e reduzir a sazonalidade.
Falar de coesão e desejar que todos se desenvolvam ao mesmo ritmo é difícil e nem é desejável pois, como sabemos, todas as ilhas têm as suas especificidades, localização, capital humano e é normal que as ilhas maiores já tenham um desenvolvimento turístico diferente das outras.
Mas vejamos o caso das ilhas espanholas. Ora, o que eles fizeram nas Baleares e nas Canárias foi tudo menos coesão porque coesão em turismo é politiquice. Os espanhóes concentraram o investimento em Palma de Maiorca e só anos depois, com o destino seguro de repetentes e do destino ser conhecido, é que começaram a construir Ibiza e Menorca.
Nas Canárias, o desenvolvimento deu-se, naturalmente, nas duas ilhas com mais poder económico, Tenerife e Gran Canária, e só duas décadas depois se começaram a desenvolver as outras ilhas, que aliás têm um turismo muito diferente das duas grandes e um turismo muito mais sustentável.
Falando no papel das Agências de Viagens o que acontece é o seguinte:
Nós temos todo o interesse em organizar programas incluindo as diferentes ilhas, conforme o interesse do cliente. Temos de ver o perfil e a motivação da viagem para, depois, fazer um programa de acordo.
Mas penso que o mais fácil é dar exemplos práticos:
Operador de passeios a pé – há uns anos atrás tentei que ele publicasse um programa com São Miguel e Santa Maria. Para ser diferente da concorrência. Ele nunca quis porque dizia que, como ninguém oferecia Santa Maria, que os clientes não iam comprar porque não era conhecida, mas também porque o volume de vendas para os Açores era pouco e eles não podiam ter uma página na brochura com um programa que, à partida, eles achavam que não iam vender.
Finalmente, o ano passado já mostrou interesse. Isto porque o volume de vendas para os Açores está a aumentar e, assim, naturalmente, o cliente pede algo de novo.
O mesmo aconteceu com outro operador de passeios a pé, que já trabalha o destino há anos, mas que programava sempre o clássico Triângulo e São Miguel. O ano passado também com o aumento das vendas para os Açores, já aceitou novas ilhas, com novas formas de se vender os walks.
Isto para mostrar que, naturalmente, os operadores que já trabalham o destino irão querer apresentar programas novos.
Os que vêm pela primeira vez e se são operadores de touring clássicos, geralmente preferem começar pelo seguro, que é São Miguel-Pico-Faial e Terceira.
Também algo que acontece às vezes é o operador cá vir numa famtrip, adorar e todo entusiasmado programar os Açores e não ter vendas suficientes para se materializar o grupo. Isto acontece porque o cliente final não compra. Isto acontece por falta de awareness do destino.
Promoção institucional do destino Açores requerer-se, porque por mais que os operadores programem, se o cliente não compra, nada acontece.
SAZONALIDADE: - É o bicho papão do negócio. Mas temos de encarar a sazonalidade com naturalidade.
Encontrei uns gráficos sobre a sazonalidade nas ilhas gregas, Córsega e Baleares. Todas com as curvas de oscilação iguais ou piores do que as nossas. Qual foi a solução que encontraram? Fecham no Inverno e vão de férias.
Mas sempre fui contra a que isto se fizesse nos Açores, mas aceito que, individualmente, cada empresário, seja alojamento, seja animação turística, decida fechar por uns meses, aliás é o que acontece, para férias de pessoal, manutenção, etc.
Mas, para diminuir a sazonalidade é necessário algo importante e que está descrito no Plano de PEMTA (Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores).
Em primeiro lugar conhecer as nossas fraquezas:
- Comunicação do destino; de qualquer forma, tudo passa pela promoção, como é que divulgamos as nossas ilhas, que mensagens transmitimos e para que público-alvo.
- Clima e a sua imagem de mercado; os Açores têm o melhor clima para se viver, mas tramado para quem vem de férias, como diz uma amiga minha que trabalha no turismo.
O nosso clima, aqui entre nós, tem sido o no anjinho da guarda, senão já tínhamos sido invadidos pelo turismo de massas.
Mas o que temos de fazer é PROMOVER O INVERNO.
O promotor ATA na Alemanha, elaborou há uns anos atrás uma brochura para distribuir nas Feiras sobre Açores: O que fazer no Inverno.
Estava muito bem-feita e mostrava o que se pode fazer nos Açores de Inverno, dar a conhecer as actividades, as águas quentes, etc. pois os turistas não sabem.
Não vale a pena promover o Verão, que já está vendido por natureza. Temos que mostrar o que fazer no Inverno.
Como o púbico em geral tem uma ideia distorcida do clima nos Açores durante o Inverno, temos de mostrar o que se pode fazer.
No fundo, todos nós sabemos que se pode fazer tudo no Inverno que se faz de Verão com excepção dos banhos de mar e praia e sem turistas à volta, por isso a experiência ainda será melhor.
Voltando ao PEMTA (Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores), página 114 que aborda a Sazonalidade.
- Captação de nichos de mercado que possam visitar o destino fora das épocas de maior influência. Identificar que faixa etária, os interesses e as nacionalidades.
Trago aqui três exemplos práticos e reais de como é difícil vender a época baixa e atingir maior coesão entre ilhas.
Não é para desanimar, mas são casos reais. 
1 – Um exemplo de uma tentativa falhada de promover o Inverno: Festa das Camélias nas Furnas/Terra Nostra. Achei que poderia ser um programa interessante para operadores especializados em jardins. Tenho um cliente na Holanda que ficou interessado, e que quando cá esteve, simplesmente, adorou. Veio na época das Camélias, tirou fotografias e escreveu um artigo na revista Jardins da Holanda. Programamos um grupo e fizemos um programa para individuais. Nada, nunca houve mínimos e não teve interesse do público. Juntos tentámos perceber o que tinha falhado. Não entendemos.
2 – Canal TV de Quebec que veio fazer um programa com uma figura conhecida, um cantor no Quebec e mostrar o lado sustentável dos Açores e as várias actividades que se pode fazer. O tempo esteve tão mau que a equipa de filmagens estava desesperada e não sabem se conseguiram material para promover os Açores e fazer um programa de qualidade.
3 – Mas que fique bem claro que as Agências e operadores tentam vender os Açores de Inverno, pois interessa-nos a todos mas temos de ter apoio institucional para a promoção nos canais certos, direccionando o esforço para a época baixa para criar awareness do destino no Inverno.
5 – Organização de Eventos e Congressos para o Inverno e não no Verão.
Para terminar, pequenas notas:
- Há falta de dinâmica dos açorianos em geral que estão muito habituados a que o Governo lhes dê a mão e, por isso, há falta de iniciativa privada;
- Necessitamos de respostas rápidas, para decidir e responder rápido ao nosso cliente;
- Temos muita falta de mão-de-obra qualificada e, mais grave, gente que queira mesmo trabalhar;
- Temos de seguir uma estratégia para o Turismo que a meu vês está bem espelhado no PEMTA (Plano Estratégico de Marketing do Turismo nos Açores e não sair dali. Não podemos estar à mercê da mudança de governos e pessoas;
- Temos de aprovar o PORAA  (Plano de Ordenamento da Região Autónoma dos Açores) rapidamente, para não haver possibilidades de se começar a construir hotéis enormes e desproporcionados como está a acontecer neste momento em São Miguel. Quem quiser ir ver o que não se deve fazer nestas ilhas, vá a São Miguel dar uma voltinha no mês de Agosto.
No fundo, necessitamos de promoção, promoção, promoção.”        

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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