16 de abril de 2019

A MEIO… ou o dilema da decisão

Ficar a” meio”, por exemplo, duma ponte. Sem saber se retroceder ou avançar. Pode acontecer. Vacilar. Vou ou fico. Pode ser angustiante para quem procura um rumo, um ideal, um objectivo… 
Frustrante. Ademais para quem “ está à frente”. Para onde todos olham. Para onde vamos, Chefe? Vamos em frente? Sim. Não. Talvez. Antes uma decisão errada do que adiada.
Açores. Abril de 1974. HACá décadas que os açorianos dormiam “o sono dos justos”. Mas injustiçados por um poder central implacável.
A última veleidade conhecida do povo dos Açores, de se empertigar perante o poder central, de Lisboa, capital dum império que se renovava, como Estado Novo e Corporativo, remontava a 1933. Os habitantes das “ilhas adjacentes”, daí para a frente, irão se contentar com uma “autonomia” repartida por três zonas geográficas, chamadas de “distritos”. Cada uma delas, será chefiada por um governador, nomeado pelo governo central. 
A sagacidade do Doutor Salazar, impõe-se. Nunca o termo “dividir para reinar” poderia ter sido melhor aplicado. Os Açores e o seu POVO, irão entrar num longo período de adormecimento e letargia. São os chamados “anos de chumbo”. 
Ficam novamente a “meio”. Há séculos que assim é. Os terra – tenentes representantes dos “donos” das ilhas (os donatários) que na Corte de El-Rei continuavam, enquanto o Povo ainda pagava para desbravar o sustento dos seus e alimentar a gulodice dos capitães que o explorava, para além de ter de suportar os “ castigos que Deus Nosso Senhor mandava”. Mais tarde foi a emigração. Brasil, Havai, Américas… 
Enfim a liberdade. A 6 de Junho de 1975. Escuta Portugal. Os Açores estão em luta. São milhares. Nunca se viu nada assim. Nenhum sobressalto cívico ou desobediência civil tinham sido tentados antes.
As sementes do Professor Salazar lançadas à terra, haviam germinado, aqui nas Ilhas Adjacentes. 
Há dias um amigo, que participou no 6 de Junho, confidenciava-me: que saudades tenho do “Gonçalvismo e do Comunismo”.Porquê? Pelo menos tiveram o condão de juntar “todo aquele mar de gente”.
Uma vez mais o Povo fica a ”meio”. Não há mortes ou feridos, apenas presos, acusados de darem vivas à Independência. 
Tudo não tinha passado dum logro. Afinal o comunismo fazia caminho em África. Teriam os açorianos, uma vez mais, na sua história, sido “usados”?
Era a conjuntura e a circunstância. O Povo tinha de se contentar com uma Autonomia, não por distritos, mas por um todo Regional. As indecisões venceram. Uma vez mais a palavra a “meio” volta a fazer sentido.
Decorreram quatro décadas. A autonomia concedida já conheceu melhores dias. Foi sempre vista como uma dádiva. Continuam a olhar para os Açores como um peso. Como colónia. Se assim é, a pergunta é simples e impõe-se: então porque continuam a carregar tamanho fardo? É uma “autonomia sem autonomia”, na opinião dum comentador.
Também foi possível ler-se, por estes dias, um conhecido jornalista e escritor açoriano, traçar, com contundência, um quadro negro dos resultados da Autonomia que temos e da forma como têm sido aplicados os “mecanismos” colocados à disposição, que apenas têm servido para perpetuar no poder uma elite, transversal ao espectro partidário do “arco da governação” e seus apêndices locais, que têm deixado os Açores a liderarem quase todos os indicadores nacionais de subdesenvolvimento humano, entre outros, o desemprego, o risco de pobreza e a pobreza persistente.
Não estará neste diagnóstico mais uma consequência de nos Açores se ficar sempre a “meio”? Contudo, divergimos na terapia. Não é com o regresso do Ministro da República e, já agora porque não do Capitão – General? 
Não. Não é a retroceder que vamos lá. Apesar da globalização, ou talvez por isso, temos de afirmar a nossa identidade como POVO, não só tirando partido das novas tecnologias, naquilo que têm de mais positivo, mas potenciando todas as nossas capacidades que a natureza nos bafejou, assim como, da nossa posição geoestratégica de mais de 950.000 km2.  
 Combatendo indecisões, provando que valemos mais do que “12.000 votos” e que temos a audácia e a coragem, herdada dos nossos antepassados, para atravessar a ponte rumo a uns AÇORES novos, onde TODOS caibam, na diversidade de opiniões, mas a conjugar esforços na UNIDADE. Acredito que iremos conseguir “escrutinar-nos a nós próprios”. Porque não só somos “fortuna”, como somos “Ilhas Afortunadas – assim nos chamaram os primeiros geógrafos – assim nos compreenderam”. Conforme nos lembrava, ainda não há muitos dias, outra talentosa escritora e cronista açoriana.   
 

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Categorias: Opinião

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