16 de abril de 2019

Bom Caminho!

Desde sempre, um dos sonhos que, ardentemente, desejei concretizar, era ir até Santiago de Compostela e poder abraçar o apóstolo e visitar o seu suposto túmulo, tal como o fazem milhares e milhares de peregrinos, que todos os anos demandam aquele local. Pois bem, o objetivo já foi concretizado da forma mais cómoda possível, pois não palmilhei os atalhos que levam pessoas das mais diversas procedências a percorrem os Caminhos que conduzem à Catedral, onde se veneram as relíquias do Apóstolo e deram origem a um fenómeno que se mantém e reforça de dia para dia.
O Caminho de Santiago é uma rota multisecular seguida por milhões de peregrinos, desde o início do século IX, quando foi descoberto o sepulcro do Apóstolo Santiago. Por isso, percorrer o Caminho de Santiago é fazer um caminho de renovação, de transformação interior, viajando ao ritmo de outros séculos e essa oportunidade, infelizmente, não a tive.
Contudo, pelas mãos cordiais da Catarina e do Rui, recebi uma prenda que muito valorizo, um livro que veio colmatar uma necessidade intrínseca de vivenciar a tão badalada experiência, que constituiu a rota de Santiago, proporcionando-me momentos inolvidáveis, como que se eu estivesse, na realidade, a percorrer aquele Caminho. O livro de Josepe Garcia Miguel, que recebi como oferta, mostrou-me em cada página, um majestoso relato de uma viagem inimaginável que transporta cada leitor para o seu próprio caminho, pois cada pedra que é pisada, ou cada brisa que acaricia o caminhante é um incentivo a prosseguir, rumo a Santiago de Compostela.
Fui com um grupo de peregrinos dos Açores; estive na fila longas horas para dar o abraço no busto de Santiago; percorri as vielas da vistosa cidade galega; comprei as lembranças adequadas e os acessórios típicos dos peregrinos, como a vieira, ou a réplica do botafumeiro, que guardo como relíquia daquela viagem inesquecível. Foi um momento mágico e memorável e é algo que precisa ser presenciado.
Na verdade, eu não fui pelo Caminho, mas o Caminho veio ter comigo e isto constituiu uma dádiva inesperada que agradeço, pois pude sentir os momentos mágicos que o Caminho oferece a cada peregrino e faz redescobrir o nosso próprio ser. Magistralmente, José Pedro Garcia Miguel, também ele um peregrino convicto desde há alguns anos, faz-nos na sua descrição identificarmo-nos de imediato com a personagem que ele criou, o Marco Garcia Frei e “Bom Caminho”, que é ao mesmo tempo o título do livro, é uma expressão de saudação que não se sabe o seu verdadeiro significado, até ao momento em que se empreende aquela viagem.
A personagem Marco Frei, representa a geração deste século XXI, de jovens empreendedores, das startups, cheio de objetivos sublimes, problemas e dúvidas, que no fundo não está disposta a viver sem a esperança e a paixão que tinha imaginado. Entretanto, o protagonista vê-se, sem nunca o ter imaginado, a realizar uma viagem pelo Caminho de Santiago que o faz, para seu deslumbramento, viver experiências que o farão converter numa pessoa mais serena e com esperança, calcorreando caminhos seculares, num ambiente bucólico cheio de magia e de inesperadas surpresas.Iniciou a viagem só e lá foi encontrando amigos para toda a vida.
Chegar ao Centro Histórico até alcançar a Catedral e pelo caminho encontrar muitos peregrinos, cansados mas a transbordar de uma alegria indescritível, com lágrimas nos olhos, a deterem-se junto à grande Praça, é um momento incontável, pois sente-se uma energia positiva intensa que paira no ar, em que os turistas atónitos se misturam com os peregrinos, chegados a cavalo, a pé, de bicicleta, etc.
O autor do livro transporta-nos numa narrativa fluida, divertida, introspetiva, não apenas pelos caminhos que o levaram até Santiago, mas também pelos caminhos da vida. Trata-se de um livro divertido, que nos desafia a pensar na forma como encaramos a vida, convidando-nos a valorizar os pequenos aspetos do dia a dia, levando-nos a colocar mesmo em causa verdades tidas por absolutas, para disfrutar da verdadeira essência do ser e abdicar da razão em prol da felicidade.
O Caminho de Santiago desenrola-se num ambiente que transmite profundidade e beleza, com grandes doses de mistério, numa viagem mágica de autodescoberta, que impregnarão no imaginário de todos os que ainda não tiveram a dita de percorrer aquela rota pormenores impressionantes, envolvências e momentos muito especiais vividos pelo protagonista Marco e que arrebata todos os seus leitores.
 

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Categorias: Opinião

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