16 de abril de 2019

Semana Maior

Outrora este período do ano era vivido com grande intensidade e com algum dramatismo até. Ao longo da Quaresma, que decorria muito lentamente, sucediam-se as cerimónias de igreja e as procissões penitenciais, com o seu quê de barroco talvez, mas avivando sentimentos religiosos profundamente arreigados na generalidade das pessoas. Evoco estas recordações antigas para delas deixar memória, sem qualquer saudosismo, que o Mundo mudou e os tempos agora são outros.
Chegados à Semana Santa, o cerimonial tornava-se mais intenso e solene. O Domingo de Ramos era festivo, com o cortejo evocando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no qual se destacavam as belas palmas das cicas, para o efeito ao longo do ano resguardadas. Na Quinta-feira Santa a festa continuava na celebração da Missa da Ceia do Senhor, que tinha lugar pela manhã, no fim da qual e sob pálio o Santíssimo era trasladado para o trono armado numa capela lateral, repleto de luzes e de flores brancas.
Mas já de tarde, para o Lava-Pés e sermão do Mandato, o clima era outro. No corpo central das igrejas estava armado um estrado onde se sentavam as pessoas que iriam representar os 12 Apóstolos. E o celebrante, trazendo já ao peito, pendente de um laço de seda, a chave da urna onde se encontrava reservado o Santíssimo, depunha a capa magna para se ajoelhar diante de cada um deles e enxugar e beijar-lhes os pés, molhados pela água lançada de um gomil de prata para uma bacia de prata também. Era e é uma grande honra servir ao Lava-Pés! 
Já noite alta, com os altares desnudados, cantavam-se Matinas, com todo o rigor do canto  gregoriano. O grande candelabro estava todo aceso ao começo, mas as velas iam-se apagando, uma atrás da outra, à medida que avançavam os salmos e as leituras, até ficar uma só, que era retirada, usando-se um escadote, e levada para detrás do altar, enquanto se rezavam as últimas orações. Nunca percebi bem o sentido do rito, mas algum devia ter, com certeza. 
Sexta-feira Santa era dia de luto pesado. Todos vestiam de preto e não se ouvia música na rádio. As cerimónias litúrgicas decorriam de manhã. A Paixão segundo São João era cantada em latim por três padres, cada um deles com um tom de voz diferente, cabendo o baixo à figura de Jesus. O coro entoava os Bradados, em nome da multidão. Para a Adoração da Cruz, o celebrante tirava os sapatos de fivela, que trazia, e avançava descalço. No final, decorridas umas boas três horas, ao som das matracas, corriam-se os panos pretos que tapavam as janelas e a igreja ficava mergulhada na escuridão.
 O plangente canto dos Heu e do O vos omnes, da Verónica, acompanhava a Procissão do Enterro, que levava o esquife com o Senhor Morto e a Senhora da Soledade, com o seu lenço de renda banhado em lágrimas, até ao sepulcro armado noutra capela lateral. Havia ainda o sermão das Sete Palavras, o orador, de capa preta e chapéu tricórnio, desenrolando, do alto do púlpito, uma representação do Santo Sudário, no momento oportuno. Reporto o que se passava na Igreja de São José; mas onde havia Endoenças, como se chamavam, e não era em toda a parte, o cerimonial era quase o mesmo. 
No Sábado de Aleluia, ia-se muito cedo para a igreja, porque as cerimónias eram longuíssimas. O Precónio Pascal cantava-se do púlpito, à luz de velas, que a escuridão se mantinha com rigor. As leituras, em latim, claro, eram cantadas, e não se omitia nenhuma delas. A Benção da Água, precedida do canto das ladainhas, decorria no baptistério e era acompanhada de perto apenas pelos poucos privilegiados que tinham conseguido lá entrar por desempenharem alguma função, levar as âmbulas dos Santos Óleos ou a naveta do incenso, por exemplo, como competia aos Meninos do Coro, de batina vermelha e roquete, e eu era um deles.
Aproximava-se já o meio-dia quando finalmente se entoava o Glória da Missa de festa, assinalando a saída da Aleluia, como então se dizia. Com as campainhas, o órgão e os sinos a tocar, corriam-se os panos pretos das janelas, caía o grande Calvário, que dividia desde o dia anterior a capela-mor e ocultava o altar, e toda a igreja se enchia de luz e de alegria, as nossas almas também. As imagens dos altares, desde o Domingo da Paixão cobertas por panos roxos, eram na mesma altura desveladas.
No Domingo de Páscoa saía a Procissão da Ressurreição, com a custódia, seguindo-se a Missa Solene da Páscoa. No final a imagem da Senhora da Soledade era incensada, enquanto no coro se cantava o Regina Coeli, laetare! Na Segunda-feira, que era ainda dia santo, a Procissão de Enfermos levava a Comunhão Pascal aos doentes. Chegava-se quase sempre até ao Lajedo, entoando-se cânticos eucarísticos sempre que a banda de música suspendia, para os músicos tomarem fôlego… Sem quebra do respeito e devoção, discretamente, iam-se chupando e trincando amêndoas, que o recolher era lá para as duas da tarde, muito depois da hora habitual do almoço.

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.) 
 

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Categorias: Opinião

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