Face a Face...! com Alexandra Bragança

“As empresas de construção civil estão mais preocupadas em consolidar o negócio e equilibrar as suas contas do que em inovar”


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Alexandra Bragança – Ocupo, actualmente, o cargo de Presidente da Direcção da AICOPA (Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas dos Açores), para além de desempenhar as funções de Advogada de Empresa no Grupo Marques, Grupo empresarial este onde trabalho há cerca de 16 anos e meio.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Sou licenciada em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, pólo regional do Porto, onde no final da licenciatura concluí uma pós-graduação em Estudos Europeus.
Paralelamente completei o estágio de admissão à Ordem dos Advogados, curiosamente já na Região Autónoma dos Açores, em Ponta Delgada.
A minha primeira experiência profissional concretizou-se no Eurogabinete da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, onde desempenhei as funções de Information-Officer durante cerca de 7 anos, pois, ainda na Câmara do Comércio transitei para o Departamento Jurídico onde permaneci cerca de 3 anos. Foi nesta altura que assumi o cargo de vogal da Comissão de Conciliação e Arbitragem do Trabalho de Ponta Delgada em representação da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada. 
No final dos 10 anos em que prestei trabalho na Câmara do Comércio, embora tenha sido uma grande escola de vida, senti necessidade de abraçar um desafio diferente no sector privado, participando na gestão de um processo empresarial, realidade esta que apenas conhecia através do apoio jurídico que prestava aos associados da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada.
Foi então que me candidatei ao cargo de Diretora de Recursos Humanos do Grupo Marques, tendo sido admitida em 2002 naquela que viria a tornar-se a grande aventura da minha vida. Esta experiência acabou por se revelar o grande desafio que tão almejava, tendo superado todas as minhas expectativas. Foi no desempenho das funções de Diretora de Recursos Humanos que cresci enquanto pessoa, mulher, colega e gestora e me tornei a mulher que sou hoje. 
Em 2014, no âmbito de um processo de reestruturação interno, abracei o desafio de integrar o Departamento Jurídico e voltar às minhas origens académicas, o que, depois de cerca de 12 anos afastada do mundo do Direito e já com 47 anos, se revelou tratar-se do segundo grande desafio profissional com que me deparei e que estou a adorar desde então.


Como se define a nível profissional?
Apesar de me parecer estranho caracterizar-me enquanto profissional, pois prefiro que aqueles que trabalham comigo o façam, tenho-me na conta de uma profissional lutadora, corajosa, focada nos objetivos, consensual, perseverante, com mau perder, por vezes emotiva, outras com uma frieza assustadora, não tolero a incompetência e muito menos profissionais que não investem o seu melhor no trabalho.

Quais as suas responsabilidades?
As minhas responsabilidades atuais variam entre as minhas funções de Advogada e a Presidência da AICOPA.
Enquanto Advogada tenho a responsabilidade de defender os interesses do meu cliente, sempre sem esquecer os limites da legalidade e do bom senso, controlar o desenrolar dos processos judiciais e aconselhar da melhor forma a tomada de decisão.
Enquanto Presidente da AICOPA as minhas responsabilidades passam por promover a defesa dos interesses dos industriais de construção civil e obras públicas dos Açores, em conjunto com os restantes membros da Direção, nomeadamente, promover o associativismo e a cooperação das empresas de construção civil e obras públicas, contribuir para a promoção, desenvolvimento e progresso das empresas associadas e da atividade de construção civil e obras públicas, contribuir e cooperar na definição de políticas, nomeadamente nas áreas social, laboral, económica, financeira e fiscal que visem reforçar o progresso e desenvolvimento da atividade dos associados, exercer todas as atividades e prestar os serviços aos associados nos termos dos Regulamentos Internos, promover, reunir e disponibilizar aos associados informações e estudos que permitam contribuir para melhorar o desempenho e a rentabilidade das suas atividades empresariais, organizar e manter serviços de interesse para os associados.


Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família de hoje é uma família sem tempo disponível para se reunir, para estar presente, para usufruir de si própria, uma vez que cada um dos seus membros anda muito ocupado nas suas tarefas do dia-a-dia, sejam elas profissionais ou sociais e muitas vezes perdem-se momentos irrecuperáveis, não se identificam sinais de aviso e quando damos por isso passaram anos e não nos damos conta disso.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
A independência prematura dos jovens adolescentes em relação à sua família.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Não consigo decidir se a sociedade está a evoluir ou a regredir, mas uma coisa é certa, está a mudar drasticamente e sem que nos apercebamos, a importância do indivíduo enquanto pessoa está a perder importância em face dos tão proclamados números do sucesso, dos resultados, dos objetivos, …

Que importância tem os amigos na sua vida?
A existência dos amigos é importante no meu ecossistema para me ajudarem a manter o centro, para me dizerem a verdade quando não quero enfrentar a realidade, para me ajudarem a ultrapassar momentos difíceis e para partilhar as alegrias e os sucessos comigo.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Gosto de estar com a família, de conviver, de ler e de ver um bom filme ou série.

Que sonhos alimentou em criança?
O sonho de constituir uma família numerosa, uma vez que sou filha única. Na realidade sou mãe de um filho único.


O que mais o incomoda nos outros?
A falta de frontalidade e de empenho.


Que características mais admira no sexo oposto? 
A facilidade com que descomplicam as situações complexas.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito de ler. A minha obra favorita é o romance de Eça de Queirós – Os Maias. Não me canso de o reler. Mas apreciei igualmente os romances Ana Karenina e Guerra e Paz, de Tolstoi. Sou uma romântica incurável.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Apenas recorro à informação que circula nas redes sociais quando necessito, não sou dependente dessa informação.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
De moto próprio não prescindiria de telemóvel nem de internet só porque sim, pois fazem-me falta para a minha atividade profissional e até para a minha vida pessoal, mas se fosse forçada a tal creio que me habituaria, dado que o ser humano é um animal de hábitos.

Costuma ler jornais?
Costumo ler jornais diários regionais para me manter informada sobre o que se passa na Região.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
Penso que a política é uma atividade necessária para pugnar pelos interesses dos cidadãos e para organizar a sociedade e as relações entre as pessoas e as instituições.
Lamento que alguns políticos estejam mais preocupados consigo próprios e com os seus interesses pessoais do que com a causa pública. O problema tem-se agravado ao longo dos tempos, pois este perfil de político parece ser mais comum do que no passado, o que me leva a pensar que temos de ser mais exigentes quando escolhemos os nossos representantes políticos.
Quanto a ser um participante ativo na vida política devo dizer que nunca reflecti sobre isso.

Gosta de viajar? 
Adoro viajar. Não conheço ninguém que não aprecie viajar. Infelizmente, por diversas razões, não viajo tanto quanto gostaria.
As cidades que mais gostei de conhecer foram Londres e Veneza e a região da Capadócia na Turquia.  

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Adoro um bom prato da gastronomia tradicional portuguesa: iscas de bacalhau com arroz de feijão, um bom bife à regional, arroz de marisco, filetes de pescada ou abrótea. Mas o meu prato favorito é leitão à Bairrada.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que o sector da construção civil foi o sector que mais contribuiu para a diminuição do desemprego jovem na Região Autónoma dos Açores.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Por sorte não desempenho um cargo governativo, pelo que deixo essas preocupações para quem tem os meios e o engenho para definir as medidas governativas. No entanto, preocupa-me a taxa de desemprego jovem. 

Qual a máxima que o/a inspira?
“O maior juiz de seus actos deve ser você mesmo e não a sociedade.” - Dalai Lama

Em que época histórica gostaria de ter vivido?
Na época presente e em nenhuma outra, pois acredito que sendo nesta que vivo é nesta que tenho de dar o meu melhor e contribuir para a História.

Que análise faz à evolução da construção civil nos Açores nos últimos anos? Que impacto teve no sector a construção de novas unidades hoteleiras?
A evolução do sector da construção civil na Região nos últimos anos não difere muito da evolução do sector registada no Continente Português, tendo em ambos sido afectada por uma crise profunda que teve como consequência o enfraquecimento da capacidade produtiva das empresas em geral, o desaparecimento de algumas empresas importantes no mercado, o aumento do desemprego no sector, a insolvência de muitas famílias e a redução do consumo privado.
A construção de novas unidades hoteleiras veio, indubitavelmente, preencher parte do espaço que o investimento público deixou de ocupar, tendo vindo a permitir a sobrevivência de algumas empresas de construção civil.     

Há indicadores da construção civil que voltaram a cair nos primeiros dois meses deste ano, casos do cimento e das obras licenciadas. Que leitura faz destas estatísticas?
Ainda é cedo para fazer prognósticos para o ano de 2019, mas o certo é que o investimento público no final de 2018 e no início de 2019 tem vindo a sofrer um novo decréscimo, factor este que, aliado à diminuição dos pedidos de licenciamento de obras particulares, naturalmente gera apreensão no seio da AICOPA. 

Que avaliação faz a postura do sector público regional na evolução da construção civil na Região? 
Está a ocorrer um claro desinvestimento do poder político no sector da construção civil, fruto também da crise económica e financeira que tem abalado a Região, o País e a Europa. As opções do Governo Regional dos Açores têm-se focado no sector do turismo, para além das preocupações com a SATA e o cumprimento das responsabilidades com as SCUTS.
Por outro lado, a publicação dos programas dos procedimentos relativos aos concursos públicos de obras tem-se concentrado em determinados períodos por contraposição a outros períodos em que não se tem registado o lançamento de novos concursos, o que tem ocasionado a concentração de trabalho ao qual as empresas, entretanto redimensionadas, têm tido dificuldade em dar resposta em termos de mão-de-obra empregue.
A AICOPA já sensibilizou o poder político para a necessidade de equilibrar o volume de trabalho ao longo do ano, para além da necessidade da criação de instrumentos de planeamento das obras a curto, médio e longo prazo, e para o cumprimento dos mesmos, no sentido das empresas se poderem organizar em face de uma previsão ou expectativa séria do volume de trabalho que serão capazes de angariar.   
A necessidade de manter o parque edificado urbano existente, assim como as infraestruturas públicas constitui uma janela de oportunidades que deve ser aproveitada. Não podemos descurar o património existente que necessita de intervenções, quer ao nível da respetiva recuperação, quer ao nível da requalificação ou adaptação às novas exigências do mercado ou das exigências normativas. 

Com o lento e intermitente crescimento do sector que se tem verificado, a mão-de-obra tornou-se mais especializada, surgiram novas tecnologias, estão a criar-se novas dinâmicas? Qual a sua perspectiva?
Uma das consequências da crise que temos vindo a atravessar foi a emigração de muitos profissionais especializados do sector da construção civil e a transferência de outros para o sector do turismo que se encontra em expansão em procura de melhores condições de trabalho. Isto para dizer que grande parte da mão-de-obra especializada que existia no sector desapareceu, debatendo-se as empresas com necessidades específicas de recrutamento de carpinteiros, serralheiros, canalizadores e até electricistas.
O lento e intermitente crescimento do setor que se tem verificado não tem permitido às empresas investir em novas tecnologias, uma vez estão mais preocupadas em consolidar o negócio e equilibrar as suas contas.
Algumas delas, as mais organizadas, têm tentado fazer um trabalho interno de racionalização de recursos, procurando tornar os seus processos construtivos mais eficientes, escolhendo as soluções com a melhor relação preço/qualidade para os seus clientes, focando-se mais na gestão dos seus recursos, nunca descurando a procura de soluções construtivas inovadoras e criando parcerias com outras empresas que também operam no sector.   

Quando o sector estabilizar na Região, que construção civil teremos? Pode compará-la com a que tínhamos nos tempos áureos do sector? Ficaremos, mais ou menos, a metade da construção civil que chegamos a ter no arquipélago? Quer comentar?
Porque acredito na capacidade das empresas do sector se reinventarem, tenho tendência para alimentar uma perspetiva optimista relativamente ao potencial destas empresas atravessarem os ciclos menos favoráveis.
Na minha opinião, não voltaremos a ter uma construção civil equiparada à que tivemos nos tempos áureos, o que não significa que não voltaremos a um grande desenvolvimento do sector, mas será um desenvolvimento diferente, mais apostado nas exigências de qualidade, na procura de soluções inovadoras, no estabelecimento de parcerias entre concorrentes.
A eficiência gerada irá permitir às empresas canalizar recursos para o investimento em novas tecnologias, assim como especializarem-se em determinados tipos de obras.  

Tem algo mais a acrescentar, no âmbito desta entrevista, que considere relevante? 
Espero que nos próximos 3 anos os empresários do sector se apercebam da importância de se juntarem no seio da AICOPA, e percepcionem esta associação como uma entidade que os pode ajudar na defesa dos seus interesses, para além de constituir um aliado na superação de desafios que se coloquem ao sector.                                      

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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