Trabalho de conservação do Priolo deve ser tido como “bom exemplo” para o turista

Nos últimos dois dias a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) recebeu em Ponta Delgada, aquando da realização da conferência internacional intitulada “Desafios e estratégias para a conservação em ambientes insulares”, os representantes de 13 projectos LIFE associados a vários países, como Portugal, Itália e França, com o objectivo de serem trocadas ideias e estratégias relacionadas com a conservação de ecossistemas e de várias espécies.
Neste sentido, e de acordo com o coordenador da SPEA nos Açores e do projecto LIFE+ Terras do Priolo, esta foi uma oportunidade para “mostrar o trabalho que já foi realizado e os objectivos a que nos propusemos nos últimos 15 anos em que estivemos dedicados à conservação da espécie do Priolo e do seu habitat”, sendo esta também “uma forma de percebermos como será o trabalho daqui para a frente”.
Apesar de considerar que as medidas aplicadas nos Açores, em específico nos concelhos de Nordeste e Povoação, constituem um exemplo que poderá ser aproveitado e aplicado noutros locais, Rui Botelho afirma que neste momento torna-se fundamental “trabalhar em grupo e em comunidade”, passando pela “partilha de experiências e sinergias”.
Assim, o coordenador da SPEA afirma que, à semelhança do que foi aprendido com especialistas internacionais há 15 anos, também os Açores têm algo a ensinar por via do “bom exemplo de termos conseguido retirar uma espécie da extinção e colocá-la num estatuto mais favorável de conservação (…), uma vez que quando começámos estes trabalhos nada se sabia nos Açores sobre o combate a espécies exóticas, pensava-se que era um caso perdido e que se teria que fazer tudo de raiz mas não foi assim”.
Porém, considera que no que toca ao Priolo, “falar num caso de sucesso é perigoso, porque quando as pessoas falam em caso de sucesso têm a tendência para dizer que o objectivo está cumprido. Neste momento já conseguimos cobrir 450 hectares, mas o que havia eram 2 mil hectares de vegetação natural e o que existe na área protegida são 6 mil hectares, por isso, e se temos como objectivo trabalhar estes 6 mil hectares ainda temos muito a fazer e outras sinergias a criar, trazer as entidades públicas e privadas a este esforço de colaboração (…), tudo porque não queremos que o último Priolo seja o que está empalhado no Museu Carlos Machado”.

A história da conservação do Priolo contada aos turistas 
Apesar disso, e sendo um dos objectivos futuros a criação de uma rede de visitação de qualidade atendendo às especificidades do turismo sustentável, Azucena de la Cruz afirma que, do ponto de vista do turismo, “as pessoas podem observar uma história de sucesso de conservação da natureza”, uma vez que “quem visita as Terras do Priolo pode ver como é que se conseguiu um melhor estado de conservação não só para o Priolo mas também para as espécies que vivem à volta do habitat que é do Priolo”, conseguido através da preservação da floresta laurissilva das Terras do Priolo que permitiu também “preservar outras espécies que também são únicas nos Açores”.
Assim sendo, de acordo com a coordenadora da SPEA nos Açores responsável pelas áreas da conservação marinha e cidadania, “pode ser interessante aproveitarmos do ponto de vista turístico também este tipo de história”, uma vez que poderá servir de exemplo para outros locais.
Segundo a própria, esse exemplo poderá então ser tido em conta através daquilo que é também praticado no Nordeste e na Povoação que, apesar das perspectivas de crescimento, deverá contar com “um turismo sustentável que não degrade as áreas protegidas onde este se insere”, feito acima de tudo a partir de uma identificação clara daquilo que as pessoas podem visitar, “mas ao mesmo tempo aproveitando para criar alguns recursos para as comunidades locais que vivem perto de áreas protegidas e que, por vezes, podem não ter tantas oportunidades como as pessoas que vivem nas cidades”.
No que diz respeito à população local, que diariamente acaba por conviver com as estratégias de conservação levadas a cabo pela SPEA, Azucena de la Cruz adianta que, depois de 15 anos, esta acaba por ser uma “profissão reconhecida tanto na Povoação como no Nordeste, e cada vez menos as pessoas têm a impressão de que o dinheiro gasto é só para alimentar o pássaro”. 
Assim sendo, de acordo com a coordenadora, as pessoas daqueles concelhos e a população em geral tem vindo a perceber “a dimensão e o interesse do projecto não só porque cria empregos ou porque faz com que se gaste nas lojas locais, mas também porque percebem a importância que têm alguns habitats que recuperámos como as turfeiras para assegurar que temos água na torneira”, uma vez que “recuperar algumas funções dos ecossistemas nativos dos Açores” é também um dos objectivos da SPEA na sua estratégia de conservação do Priolo.

Presidente da SPEA afirma que é necessário 
estreitar a comunicação com os Açores
Nesta conferência realizada esta semana em Ponta Delgada esteve também presente Graça Lima, Presidente da SPEA desde o passado mês de Março, que desde os anos 90 acompanha os trabalhos desenvolvidos na ilha de São Miguel com vista à conservação da “pequena ave que todos ouviam mas que ninguém conseguia ver”.
Apesar de ser uma função que desempenha há pouco tempo, a nova presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves adianta que “na relação que existe entre as ilhas e o continente há ligações que têm que acontecer, não podemos estar tão longe um dos outros embora esse seja um grande problema da insularidade, não apenas dos arquipélagos como os Açores ou a Madeira, mas de várias outras ilhas em relação a vários continentes”.
Em segundo lugar, Graça Lima afirma que há também que haver “viabilidade económica de forma contínua, e as autarquias têm que compreender, tal como os outros parceiros, que isto tem que ser fundamentado, isto não é dado e tudo isto passa por comunicação (…), vivemos no mundo digital mas isso não chega porque a questão pessoal continua a ser mais importante”.
No que diz respeito ao projecto LIFE+ Terras do Priolo, a presidente desta organização não-governamental afirma ser “impossível” pensar-se que todos os objectivos para a área protegida foram cumpridos nos últimos 15 anos tendo em conta a dinâmica que lhe é inerente e a atenção de que necessita actualmente.
“A natureza é, primeiro, uma coisa viva, e é óbvio que vai sempre confrontar-se com as coisas que lhe vão ser inculcadas pelo exterior, mas neste momento a natureza tem que ser protegida como um bebé, nós estamos perante esta situação e defendemos aquilo que se pode chamar um bocadinho da Macaronésia uma vez que os Açores são, de todos os arquipélagos, nomeadamente Madeira, Canárias e Cabo Verde, aquele ponto onde há menos floresta macaronésia, e por isso há que nutri-la e há que dar-lhe berço contínuo”.
Para garantir o sucesso destes esforços, Graça Lima adianta ainda que é também preciso que também os locais “percebam que têm que ser sócios activos”, tendo em conta que a partir do associativismo é possível desenvolver mais projectos e atingir objectivos mais facilmente, salientando que entre os Açores, a Madeira, Cabo Verde e Portugal continental existem cerca de 50 técnicos “responsáveis por fazer o trabalho que deveria ser feito por governos e autarquias.

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