5 de maio de 2019

LINHA DE ÁGUA

O fim da geringonça

 Retomo hoje a colaboração no Correio dos Açores no modo tradicional, o da crónica. Escolhi para título permanente dos trabalhos semanais, “linha d´água”. 
Linha de água é um termo náutico, não fosse eu um insular por nascimento e opção. Nos navios, também se denomina “linha de flutuação”, precisamente a que separa a parte emersa do casco da sua parte imersa.
O decurso do tempo ensina-nos que há sempre um antes e um depois. A realidade material, por seu turno, que há um limite para tudo o que fazemos, omitimos ou imaginamos: alinha entre o seguro, o arriscado e o desastre; entre o revelado e o escondido ou dissimulado; entre a verdadeiro e o falso; entre o sonho e a realização; entre o ser e o ter, por fim.
Há cerca de 4 anos, Portugal conseguiu definir uma solução política para uma situação eleitoral complexa: direita sem maioria e esquerda demasiado dividida ou desconfiada no seio do seu próprio universo para constituir uma coligação governamental com maioria parlamentar. 
Na presidência da República estava um anterior líder do Partido mais votado nas eleições, mas cujo programa de Governo fora reprovado no Parlamento. Elaborou então o Presidente um conjunto de linhas fundamentais as quais não deviam ser ultrapassadas por um governo que viesse a passar na Assembleia da República com o apoio da maioria de esquerda. Apresentou-as à esquerda como condição para empossar um governo minoritário suportado por uma maioria parlamentar de esquerda completada por partidos que afirmavam ser contra a Nato, contra a União Europeia e não sei que mais. Respeitavam as referidas linhas essencialmente aos princípios e compromissos respeitados e reciprocamente assumidos por Portugal no seu relacionamento internacional com aliados e parceiros. Firmado esse entendimento vinculativo, nasceu um governo que para governar teria de negociar quase tudo. 
O arranjo político conseguido foi batizado com o apropriado nome “geringonça” por um notável historiador e ensaísta. Até hoje nenhuma das linhas condicionantes terá sido pisada ou ultrapassada para o que muito contribuiu um primeiro ministro nascido para negociar, até o inalienável, um novo presidente da República pacificador, capaz de encantar uma serpente, e um ministro das Finanças que gere o orçamento pela tesouraria, cativando o necessário, adiando o possível e o impossível, aumentando o endividamento, mas reduzindo o serviço da dívida.
Com o decorrer do tempo, as instituições políticas e sociais foram perdendo o respeito e a confiança do povo. Converteram-se em meros escritórios políticos. Governa-se à vista, evitando os “cabos” tormentosos, como no tempo das naus. Governa-se por casos, não segundo uma linha estratégica coerente e consistente.
O rendimento disponível está cristalizado e nalguns casos a diminuir? É fácil resolver sem mexer nos impostos. Reduz-se a tarifa dos passes sociais para as famílias que os utilizam e aumenta-se o rendimento disponível sem prejudicar o orçamento. Todavia, não é uma medida para todo o País nem para todos os portugueses.
Os sindicatos já não defendem a classe trabalhadora, como outrora, mas os interesses específicos de grupos definidos de trabalhadores. Os sindicatos excluem-se cada vez mais das centrais sindicais. Substituem a luta sindical pela guerrilha sindical sem olhar aos efeitos colaterais e à vitimização de inocentes, escondem a origem do dinheiro que financia as greves.
O serviço nacional de saúde não é para descontinuar. As parcerias público privadas não são para promover, mas também não são para acabar. O Estado tem de estar onde o privado não esteja ou não esteja a funcionar eficazmente, assevera o primeiro ministro, mas uma parte do seu partido quer acabar com as PPP na saúde. A saúde não é negócio, diz o Bloco de Esquerda. É necessário rever as leis laborais - quer o PS, mas não os seus parceiros parlamentares. A reposição da totalidade do tempo de carreira dos professores foi aprovada na Assembleia da República, na passada quinta feira contra o PS. O PS ameaça retirar-se do governo. A “geringonça” não parece resistir ao período eleitoral. 
 

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Categorias: Opinião

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