12 de maio de 2019

LINHA DE ÁGUA

À PORTUGUESA

Bem à portuguesa, como o futebol, em fim de campeonato: terminado um jogo, não importa se os jogadores praticaram bom ou mau futebol, se aproveitaram as oportunidades que o adversário lhes ofereceu, se souberam defender, se se empenharam para ganhar… O que conta são os ditos casos do jogo, ou seja, o comportamento dos árbitros, quantas vezes mais impreparados do que maldosos. É a atávica preferência nacional pelo empolamento do acessório para contornar a verdade. Vê-se no futebol, mas também na política. Eleições europeias é o caso.
E assim aconteceu. O comportamento: uma enorme ingenuidade dos partidos da direita convertida, por eles próprios, em genialidade. Com a minoritária esquerda negociara a direita o que era a sua condição prévia na matéria, o enquadramento orçamental favorável para a contagem do tempo de serviço dos professores, trocando-a pela desistência da proposta da esclarecida esquerda que a fixava uma data precisa para a reposição da contagem do tempo de serviço dos professores para efeitos da respetiva carreira profissional. A esquerda (PCP e Bloco) aceitaram o acordo, cantando e rindo. Tinham desistido da fixação dum prazo para o cumprimento do que desejavam, mas tinham ganho aquilo porque sempre haviam lutado: 9 anos, 4 meses e 2 dias, tal como se podia ler nos crachás que ao peito ostentava o presidente de todos os professores, em fim de carreira. O PCP até se associou ao acordo com a direita. Uma vitória com direito a taça! O objetivo: procedendo assim, a direita, com os votos da esquerda, faria passar, em plenário da Assembleia da República, o decreto-lei aprovado pelo governo, promulgado pelo Presidente e avocado pelo Parlamento para reparações. Passaria com que consertos? A contagem legalmente obrigatória de todo o tempo de serviço dos professores sem prazo certo. O Governo embraveceu.
O caso: penalty senhor Presidente! Estão todos fora do jogo e cometeram falta para vermelho. A estabilidade do Estado não suporta tamanha carga pelas costas. Demito-me, se o resultado da jogada da espúria aliança formada na comissão parlamentar for validado pelo plenário da Assembleia da República! Acabo com este jogo mesmo sabendo que está quase a terminar.  Sentenciou o Primeiro Ministro.
A direita (PSD e CDS) que na sua imensa ingenuidade tinha acreditado na genialidade do seu procedimento, todavia, esquecera o fundamental: (i) o seu próprio eleitorado não estaria de acordo com esse autêntico tiro de besta; (ii) o PS não dormia há várias semanas…
Sabiamente, e conhecedor profundo da realidade portuguesa, o Presidente da República precaveu-se. De visita à China, antecipando o que o esperava no regresso a Portugal, depois de atravessar a famosa avenida Chang’an  (da Paz Eterna), na praça de Tiananmen (da Paz Celestial) enquanto esperava que se abrissem as portas da Cidade Proibida, comprou, reza a crónica não autorizada, uns tampões para não ouvir cânticos de sereia e uns óculos de sol bem escuros para que a luminosidade artificial não lhe ferisse os olhos. Não interferiria. Nem arbitraria.
Chegado, mais se resguardou. Suspendeu os comentários diários e as selfies. Depois, só foi visto a banhos, com vestuário impróprio para declarações solenes.  Assim, quedo e mudo, eles o fizeram, eles o devem limpar. Inteligentemente, não quis dirimir o que não passava duma tentativa habilmente montada pelo partido do Governo para captar votos no seio do eleitorado afeto aos partidos de direita, sobre uma inacreditável ingenuidade da direita parlamentar. Não era o eleitorado de esquerda que estava a fugir ao PS, era o da direita que se reunia em torno do PSD. Aproveitava o partido do Governo a ingenuidade da direita. Demonstrou à saciedade que os defensores do rigor orçamental - a direita - afinal estavam dispostos a suavizar as suas convicções, por um prato de lentilhas, a empatia da esquerda.
Os líderes da direita, distraídos, despertaram e, em sobressalto, responderam no tempo de cada um e à sua maneira: atabalhoadamente o CDS, com comportamento de justiceiro, o PSD. Ainda voltaram com a linhaça à cabaça, mas o jogo terminara. A União Europeia surgiu a enaltecer o Governo de Portugal pela garantia dada de estabilidade orçamental. A direita só teve o apoio estatístico da UTAO da Assembleia da República. Conhecem? O povo mantém o seu desinteresse pelas eleições europeias de que muito pouco sabe. E, como sempre, o povo continua à espera de Godot saboreando um magnífico cozido à portuguesa. 
 

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Categorias: Opinião

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