12 de maio de 2019

O mandatário e os mandantes

1- O depoimento de um dos maiores devedores à banca na Comissão de Inquérito que decorre na Assembleia da República, relativamente à concessão de chorudos créditos pela Caixa Geral de Depósitos, sem garantias firmes, e considerado já como crédito mal parado entre 2000 e 2015, recorda um período negro para a banca portuguesa e para as grandes empresas portuguesas com participações do Estado.
2- Foram muitos os autores que participaram nesta “grande farra” que teve como objectivo criar uma rede de poderes que se estendiam do Estado à banca e ao tecido empresarial. 
3- Muitos figurantes fizeram fortunas e destruíram património que não lhes pertencia. Isso mesmo é o que resulta do depoimento de Joe Berardo na Assembleia da República, ao denunciar que foi um mandatário de outros que lhe “ofereceram dinheiro para comprar em seu nome acções no BCP, onde ocupou o cargo de Presidente da Comissão de vencimentos, e se tornou num grande magnata nacional, bajulado pela comunicação social e pelos cronistas, que sem pejo o incensavam com o mesmo ardor com que hoje o crucificam.  
4-  A tragédia do BCP começou com os negócios do próprio banco no tempo de Jardim Gonçalves, que soube atrair várias pessoas para o seu projecto pessoal, criando um Conselho Superior onde alojou investidores sérios que acreditaram nele, e depois viram-se despojados do seu património pela perda de valor do seu investimento, num abrir e fechar de olhos.
5- Neste despojamento desmoronou-se um dos maiores grupos económicos familiares dos Açores, construído ao longo de anos com saber e esforço dos vários irmãos que o componham. Ficamos mais pobres pela gula de um banqueiro que fazia parte do ramalhete dos que foram “donos disso tudo”.
6- Com o dinheiro “oferecido” pela Caixa Geral de Depósitos, inúmeros negócios foram feitos por privados, comprando e trocando acções, entre outras, de grandes empresas, como a Cimpor, a Portugal Telecom e a EDP. De todas elas apenas a EDP se salvou. As outras foram descapitalizadas, vendidas a estrangeiros e com muita gente de permeio a encher os bolsos, pelas assessorias que lhes eram oferecidas e pelos altos cargos que desempenharam nas suas administrações. 
7- Nesse jogo cruzado de negócios entre a Caixa e o BCP aparecia também a mão invisível do BES, que no fundo era o “Administrador geral” de toda a tramóia.
8- São públicos os nomes dos políticos e dos conceituados quadros que, em procissão, foram passando e ainda permanecem por todas essas empresas, empregando filhos, parentes e outros bem-feitores. Todos eles tratados pela comunicação social como grandes gestores e beneméritos do que não lhes pertencia.
9- Na primeira década do século XXI, generalizou-se o saque do Estado, com consentimento do próprio, onde se criaram fortunas e se preparou a grande crise de 2010.  Talvez por ter pressentido tão danosa situação é que o Primeiro-ministro António Guterres, em 16 de Dezembro de 2001, anunciou a sua demissão dizendo: «É o meu dever evitar o pântano político».
10- É confrangedor ver e ouvir quando questionados, os inquiridos dizerem que não se lembram de nada. Estão desmemoriados e enquanto isso os bancos continuam a perdoar fortunas a grandes devedores incumpridores, como ainda agora acontece com um dos homens mais ricos e influente em Portugal, Pereira Coutinho, que vendeu a SIVA, a sociedade de venda de automóveis à Porche pelo valor de um euro.
11- No fim de todas as Comissões de Inquérito, seria desejável criar uma “Comissão de Verdade”, onde constassem os erros e omissões cometidos de 2000 a 2015 que lesaram o Estado e os cidadãos, e onde os culpados se auto-redimissem dos erros cometidos, para que perante a assumpção das responsabilidades a culpa não morra solteira e sirvam de emenda para evitar aventuras futuras.
12- O que aconteceu entre 2000 e 2015 é demasiado mau para tudo fique como pertença do passado, onde os ricos e grandes continuaram mais ricos e os pobres e pequenos mais pobres e mais pequenos.
 

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Categorias: Editorial

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