14 de maio de 2019

Cesário: um clássico da modernidade

Estamos na Primavera: céu pouco nublado ou limpo e, apesar das variações atmosféricas, dias claros, sem chuva e temperaturas agradáveis. No século passado, mas ainda no nosso tempo, a Primavera, chegava até nós, nos arredores de Lisboa, em versos «magistrais, salubres e sinceros» de Cesário Verde: «Olá! Bons dias! Em Março, /Que mocetona e que jovem/a terra! Que amor esparso/Corre os trigos, que se movem/às vagas de um verde garço». 
Era no tempo em que podíamos sentir a autenticidade do campo que, a pouco e pouco, ficou ocupado por desordenada e intensa construção civil, para implantar dormitórios da população. Deixamos de viver a proximidade com a natureza: «Como amanhece! Que meigas/As horas antes do almoço! /Fartam-se as vacas nas veigas/e um pasto orvalhado e moço/produz as novas manteigas».  
Cesário passava temporadas numa quinta de família, colaborava na exploração agrícola. Exaltava o ambiente que o envolvia: «Toda a paisagem se doura;/Tímida, ainda, que fresca! /Bela mulher, sim senhora, /Nesta manhã pitoresca, /Primaveril, criadora!» 
Quase não tem biografia. Tudo o que se sabe de Cesário Verde encontra se na sua obra poética e na correspondência com os amigos. O seu percurso situa - se entre 25 de Fevereiro de 1855, data em que nasceu em Lisboa, na freguesia da Madalena e 19 de Julho de 1886, altura em que faleceu, aos 33 anos, no Paço do Lumiar.
Filho de um comerciante de uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros, onde trabalhou Eduardo Coelho, mais tarde fundador e diretor do Diário de Noticias. Se não estava em Lisboa ia para a quinta em Linda a Pastora. Ali passou longas temporadas numa casa que perdura ainda, apesar de transformações profundas. Estreou-se, como poeta no Diário de Notícias. Frequentou o Curso Superior de Letras. 
Poeta do quotidiano, no seu pequeno – grande livro coloca-nos perante o homem com os seus humores, os seus caprichos, o seu modo de ser e de ver. Viveu Lisboa por fora e por dentro. Transmite-nos os sonhos e os pesadelos de uma sensibilidade insatisfeita, as angústias e os problemas sociais e políticos, que se deparavam numa cidade e num país, em processo de crise e de transição. 
Incompreendido e até desdenhado nos jornais, (escreveu Ramalho Ortigão «seja mais Cesário e menos Verde») a dimensão da sua obra só virá a ser entendida já no século XX. Sem falar na importância decisiva de Antero, de Gomes Leal e de Guerra Junqueiro, as predileções repartiam-se entre António Nobre, Camilo Pessanha e Cesário Verde.
 A partir do final do século XIX, o Só de António Nobre tornou-se o breviário de várias gerações. Muitos poetas – ainda em vida de Nobre – choravam as lágrimas de Nobre. Apropriaram-se dos soluços intermináveis, dos poentes revoltos, dos trajetos entre Douro e Minho, da melancolia crepuscular de Coimbra, do recolhimento de Leça e do marulho inquieto da Foz do Douro. Continuou a ter influência, com maior ou menor nitidez, em poetas da Águia, da Presença e, mais recentemente, da Távola Redonda.
Antes da publicação da Clepsidra (1920) Camilo Pessanha provocou grande impacto na geração do Orpheu. Almada Negreiros, numa das entrevistas que lhe fiz, reunidas no livro Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo dizia-me: «Nos Irmãos Unidos, cópias dos versos de Pessanha andavam de mão em mão. Pessoa, Sá Carneiro e, sobretudo Montalvor e Alfredo Guisado recitavam poemas de cor. Ficavam em transe… O Pessoa, também, mas escondendo o transe».
Mas, Almada fazia questão de acrescentar que Cesário Verde era o outro poeta muito admirado pelo grupo do Orpheu. Foi um dos principais mestres de Fernando Pessoa e de outros poetas do Orpheu; teve forte repercussão em poetas da geração da Presença, do Novo Cancioneiro e de vários surrealistas portugueses, como Mário Cesariny.
 Foi acolhido no Brasil não apenas por Manuel Bandeira, Drummond e João Cabral de Melo Neto, mas  muito antes -- logo que saiu em 1901 a 2 edição do livro de Cesário – em poetas do Rio de Janeiro, do Recife (Augusto Anjos, no EU, em poemas como  as Cismas do Destino);de Porto Alegre (Marcelo Gama , em Via Sacra e Filipe de Oliveira, em Vida Extinta), e até no interior do Piauí ( Sangue de Da Costa e Silva) .
 Muito significativa foi a marca que Cesário deixou nos Açores em poetas como Roberto de Mesquita, Duarte Viveiros – basta ler o poema O Príncipe –; em Rebelo de Bettencourt e em Teobaldo da Câmara, um dos mais injustamente desconhecidos poetas micaelenses.
Ainda sobre Cesário Verde, Almada Negreiros pormenorizava numa das entrevistas que me concedeu e que reuni no livro Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo (edição Assírio e Alvim): foi  um dos mestres indisfarçáveis de Fernando Pessoa, de Alberto Caeiro, de Álvaro de Campos e de mim próprio. «Bastam-me – afirmava Almada com veemência – alguns versos de Cesário, ás vezes um só, para reencontrar Lisboa com o Tejo, as fragatas e as varinas, o perfil das ruas e dos bairros, das igrejas e dos conventos. Fernão Lopes e Cesário estão na Gare marítima de Alcântara».
Lisboa está, de rua em rua, no Livro de Cesário Verde. Não esquece os becos e vielas da cidade marginal. Dialogou com as casas, as árvores, os candeeiros de gás, os transportes públicos e privados. Não ignorou figuras típicas da população nos ofícios e locais de trabalho: os empregados do comércio, os dentistas, os calafates, os calceteiros, os guarda noturnos, as varinas e os cauteleiros. Velhos professores de latim, ás esquinas, a venderem lotarias…
Cesário Verde captou a luz e a cor, o que surpreende e distingue cada bairro, a geografia e a essência de Lisboa. O cair da noite enervava-o, perturbava-o: «as sombras, o bulício, o Tejo, as maresias despertam um desejo absurdo de sofrer». Outras vezes, deslumbrava-se com os reflexos intensos do sol que «espalham nas frontarias seus gomos de laranja destilada». 
Personalidade emocionalmente dividida, Cesário Verde tanto é o camponês preso, em liberdade, na cidade, de que falará Alberto Caeiro, como, também, pode ser o citadino, à solta, através do campo. De vez em quando manifestou o «espírito cosmopolita», o fascínio das grandes capitais do mundo, mas sem nunca perder a sedução permanente de Lisboa.
Reteve as margens do Tejo, as fragatas, os barcos, atracados de Alcântara até ao Poço do Bispo e onde «reluz viscoso o rio». Para sempre ficou agarrado ao deslumbramento das manhãs claras, á serenidade das tardes repousadas, aos dias arrepiados e foscos que mergulham Lisboa numa vaporosa e espessa névoa. Tudo quanto, no itinerário das palavras, aparece e desaparece para comunicar toda a energia da liberdade e todos os prodígios da invenção.

António Valdemar

*sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa
e sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras


 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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