14 de maio de 2019

Abstenção, sim ou não?

Apenas me vou circunscrever às eleições para o Parlamento Europeu, que terão lugar já no próximo dia 26 de Maio de 2019.
Pergunta difícil, para uma resposta ainda mais complicada e controversa. Que terá de ser decidida, por alguém que sempre votou. 
Para estas eleições, a abstenção de 80 % nos Açores tem batido todos recordes, tanto na Madeira como em Portugal e quiçá em todo o espaço europeu, como já não bastassem os outros indicadores, que nos colocam, a nós açorianos, em lugares que nos deviam  envergonhar a todos, pelo menos eu sinto vergonha, quer por inacção, omissão e pior, pelo silêncio.
A abstenção deverá ser evitada, no espírito de cidadania duma sociedade que se pretende Livre e Democrática, a não ser que, outros valores passem a estar em causa, como sejam os do próprio espírito democrático, que devem prevalecer, sempre, sobre os demais.
Dilema terrível! O que fazer? Há momentos na vida, em que, decisões têm de ser tomadas. Temos de nos informar, ouvindo ou lendo, o que sobre o tema em apreço, outros nos vão comunicando.
A Constituição da República de Portugal apenas contempla um círculo eleitoral para as eleições europeias, assim como inibe a formação de partidos gerados e nados nos Açores, ao contrário de outros países, daí que na constituição das listas, a inclusão de açorianos ou não, foram sempre factores de duras negociações, sendo o desfecho final o resultado da maior ou menor influência dos líderes locais junto dos seus homólogos em Portugal.
O Presidente Mota Amaral e a sua longa história de lealdade ao seu PPD/PSD, nem sempre tem sido correspondida pelos líderes em Lisboa, nomeadamente Cavaco Silva e agora Rui Rio, à excepção do Doutor Sá Carneiro, que sempre teve a maior consideração pelos anseios do Povo Açoriano. A pretensão da Direcção local do PSD, de incluir o Doutor Mota Amaral, em lugar elegível na lista de candidatos, não mereceu acolhimento. Decisão local, não fazer campanha. Desconheço se existiu alguma orientação de voto.
Todos concordam com a constituição de partidos açorianos, que poderia ser um passo para evitar tais situações. 
Sobre este tema permitem-me fazer uma referência histórica sobre o cidadão açoriano José Francisco Nunes Ventura, por quem tenho uma especial admiração e amizade, desde os meus 13/14 anos. A JOC- Juventude Operária Católica, foi uma escola. Ainda hoje quando me questionam sobre as minhas posições políticas, digo que também são o resultado do que o José Ventura nos transmitia, enquanto líder local dum movimento fundado pelo Padre belga Joseph Cardijn.  
Com o 25 de Abril, José Ventura participa na criação do PPDA Partido Popular Democrático dos Açores, fazendo parte da Comissão Organizadora e militando no mesmo até 1984, ano que pede a sua demissão. Em 1988, adere ao P.D.A.- Partido Democrático do Atlântico e, no período mais difícil da vida deste partido (2002) aceitou a eleição para a sua Presidência, tendo conseguido praticamente sozinho, a sua sobrevivência às várias tentativas de o encerrarem, desde a guerra das multas, do número mínimo de militantes e à lei eleitoral, conseguindo com os restantes partidos sem assento parlamentar, uma inesperada vitória a nível nacional.  Após as eleições para a ALRA em 2008, cessa as funções que exercia no Partido a partir de 2010 (por razões de saúde).
O nosso concidadão José Ventura, numa das suas últimas crónicas, intitulada “ Eleições para o Parlamento Europeu e os Açores como vão votar?”, escrevia “… São diversos os países da comunidade europeia que têm uma distribuição geográfica dos seus deputados ao PE. E porquê? Porque sendo democráticos como dizem nas suas constituições, reconhecem as suas Regiões onde inclusivamente admitem a constituição de partidos de índoles Regionais, Independentistas e ou Separatistas. Sendo que um número considerável desses, fazem parte do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia (28 efectivos e nove observadores)”.  E a terminar, Ventura salientava ”Nós vamos -nos Abster. Porque os sonhos democráticos dos açorianos não cabem nas urnas europeias e portuguesas”.
Pela mesma altura, Rui Machado Medeiros num artigo de opinião, subordinado ao tema  “Assim não voto” escrevia “… Para os Açorianos, as próximas eleições europeias já estão decididas. Já sabemos quem vai representar os Açores, independentemente dos resultados eleitorais. Ganhe quem ganhar, o eleito está escolhido...”. Mais à frente no seu artigo, Rui Medeiros referia que, “… países como a França, a Irlanda, a Itália, a Polónia… têm um distribuição geográfica dos seus deputados europeus…” e acrescentava “…a comunidade germanófila da Bélgica, com cerca de 77 mil habitantes e 850 Km2, tem direito a um circulo eleitoral próprio…” E adiantava,”… perante este cenário a abstenção pode ser usada como forma de protesto…” .
Foram vários os testemunhos sobre esta polémica, mas destaquei estes dois, por representarem duas gerações de açorianos que abraçaram com coerência e autenticidade o ideal da CAUSA AÇORIANA. Aos outro,  e são muitos, o meu perdão, mas o espaço não dá para mais.
Há sempre uma primeira vez. No próximo dia 26 de Maio, não irei votar. Pela Causa. Por uns Açores diferentes.
Não participei no 6 de Junho de 1975. Nunca fui militante do PDA. Fui sempre tido de esquerda e até comunista, rótulo que não renego e até me provoca um certo “gozo”. Gozei ainda mais, quando no dia 10 de Junho de 2019, depois de me verem nas redes sociais no dia anterior com a bandeira da FLA, me diziam, então meu amigo, agora és fascista… Recordo que estas bandeiras dos Açores foram as únicas desfraldadas naquele dia… Nem a da Autonomia, foi autorizada. Entre outras respostas, ocorreu-me esta, agora a salada é chinesa, e tal como a russa, continua a servir-se fria. Por outro lado, enquanto algumas elites dão mostras de estarem muito preocupadas com os populistas e com a velha extrema - direita, também chamada de fascista, outras nem tanto, porque sabem, como ninguém, que os “negócios” estão primeiro, mesmo que sejam da china. 
Como eu, existem milhares de açorianos (nascidos ou do coração) a aderir à Causa, mesmo na 25.ª hora, o que tem deixado os centralistas à beira dum ataque de nervos. Devo dizer que nunca me perguntaram qual era a minha simpatia política ou partidária. 
Termino, sugerindo a leitura dos artigos, de dois açorianos ( um do coração e outro nascido), por altura do 99.º aniversário do Correio dos Açores.
 José Manuel Monteiro da Silva, titulava o seu artigo: “ Para Onde Vamos?” 
“Pelo Sonho É Que Vamos”, era o testemunho de Eduardo Paz Ferreira.   
Por uns AÇORES Sociais e Democráticos, SEMPRE!  

Print

Categorias: Opinião

Tags:

x
Revista Pub açorianissima