16 de maio de 2019

Amalie Emmy Noether: uma das mais extraordinárias matemáticas de sempre!

Hoje, 16 de maio, comemoram-se várias efemérides, das quais destaco duas: o dia em que nasceu a matemática italiana Maria Gaetana Agnesi (1718–1799), de quem já vos falei noutro artigo; e o dia em que morreu o matemático e físico francês Jean-Baptiste Fourier (1768–1830). Estes acontecimentos são contrastantes: dois géneros, um homem e uma mulher; e dois momentos opostos, o nascimento e a morte, e ilustram as realidades da vida a que todos nós estamos sujeitos.
Caros leitores, hoje irei falar-vos de Amalie Emmy Noether, uma matemática alemã filha primogénita de Max Noether, professor de Matemática na Universidade de Erlangen, e de Ida Amalia Kaufmann, ambos pertencentes a famílias judaicas ricas. Amalie nasceu a 23 de março de 1882 em Erlangen e teve três irmãos: Alfred, nascido em 1883, Fritz, em 1884, e o mais novo Gustav Robert, que nasceu em 1889.
Amalie ficou conhecida pelas suas importantes contribuições nos campos da Física Teórica e da Álgebra Abstrata, tendo “enfrentado e vencido o preconceito de género na sua brilhante carreira académica.” Foram vários os notáveis matemáticos e físicos da época que lhe teceram o título da “mulher mais importante na história da Matemática.”
Amalie era uma criança adorável, extremamente inteligente e esperta. Frequentou a escola Höhere Töcter, em Erlangen, entre 1889–1897. Aprendeu a falar fluentemente francês e inglês, estudou aritmética e teve aulas de piano. A mentalidade da época determinava que as adolescentes fossem preparadas para o papel exemplar de esposas e mães, pelo que deveriam aprender convenientemente as lides domésticas e a terem aulas de piano, independentemente de se interessarem por tais atividades.
Aos 18 anos prestou exames oficiais no estado da Baviera, tendo obtido a classificação de “Muito Bom”, o que a qualificou para lecionar em escolas de raparigas, tarefa que desempenhou. Todavia, percebeu que aquela não era a sua vocação, pelo que decidiu continuar os seus estudos em Matemática na Universidade de Erlangen, uma decisão pouco convencional para a sua época. Mal sabia onde se iria meter, uma vez que aquela universidade, bem como muitas outras do mundo, não admitiam mulheres como alunas. Movida por uma coragem imensurável, Amalie enfrentou a mentalidade e combateu os preconceitos da altura. O facto do seu pai ser professor na Universidade de Erlangen e o irmão Fritz ser aluno de Matemática na mesma universidade deram-lhe esperança, pelo que ela tentou o seu ingresso. Porém, só conseguiu uma autorização para assistir às aulas, como ouvinte e não como aluna, situação que se manteve entre 1900 e 1902.
Decorridos dois anos de estudos como ouvinte e percebendo que nunca iria fazer parte do quadro de alunos da universidade, mudou-se para a Universidade de Göttingen, no inverno de 1903-1904, depois de passar num exame. Aí, estudou um semestre tendo frequentado as aulas de grandes matemáticos, nomeadamente, David Hilbert (1862–1943),Felix Klein (1849–1925) e Hermann Minkowski (1864–1909), bem como do astrónomo Karl Schwarzschild (1873–1916).
Ao terminar o semestre, em 1904, a Universidade de Erlangen mudou finalmente a sua política e passou a aceitar o ingresso de alunas, o que até então era inédito para as mulheres na Alemanha. Amalie regressa então em outubro de 1904 à Universidade de Erlangen concretizando o seu sonho de se formar em Matemática. Num total de 986 alunos, Amalie foi uma das duas mulheres que fizeram história naquela instituição de ensino superior. Contudo, ela não tinha autorização para assistir a todas as aulas e nas que frequentava tinha de ter permissão individual concedida pelo respetivo professor.
Em 1907, sob orientação de Paul Gordan (1837–1912), ela obteve o seu doutoramento com uma dissertação intitulada “On Complete Systems of Invariants for Ternary Biquadratic Forms” na área da Álgebra. A opção por Álgebra parece estar relacionada com o ramo de investigação do seu pai e do seu orientador, o qual era um amigo muito próximo da família Noether.
Em pleno século XX a discriminação contra as mulheres ainda era uma realidade marcante na Europa. Na universidade onde Amalie estudou foi-lhe negado o direito a dar aulas e mostrar o seu talento intelectual apenas por ser mulher. Entre 1908 e 1915 Amalie deu continuidade à sua investigação e lecionou ocasionalmente na Universidade de Erlangen, sem vínculo oficial e sem vencimento, substituindo o pai quando este ficava doente. Em 1909, foi admitida na Sociedade Matemática Alemã.
O seu orientador, Paul Gordan, reformou-se em 1910, deixando Ernst Fischer(1899–1972) como seu sucessor. Segundo testemunhos, Fischer foi uma boa influência para Amalie, tendo sido ele a apresentar-lhe o trabalho de David Hilbert. No período de 1913 a 1916 Amalie publicou vários trabalhos e afirmou-se na Álgebra Abstrata. Chegou a trabalhar com David Hilbert e Felix Klein, que a convidaram para ir para a Universidade deGöttingen. No entanto, os esforços feitos para o seu regresso a Göttingen esbarraram, inicialmente, nos entraves colocados pela maioria do corpo docente, que defendia que as mulheres não podiam ser privatdozent (título universitário, próprio das universidades alemães, que designa professores que receberam uma habilitação sem terem uma cátedra de ensino ou de investigação). David Hilbertnão se deixou demover, defendendo-a e argumentando que “não vejo como o sexo da candidata possa ser um argumento contra a sua admissão como privatdozen. Além disso, estamos numa universidade e não numa casa de banhos.” Regressando a Götttingen, Amalie tentou, uma vez mais, a sua carreira de professora universitária, começando por ser aprovada no exame de habilitação e preparando-se para enfrentar mais uma temporada de contrariedades. Uma delas, foi a morte súbita da mãe. Na mesma altura, o pai reformou-se e o irmão Fritz alistou-se no exército alemão, para servir na I Guerra Mundial.
Os seus primeiros anos em Göttingen não foram fáceis, pois não tinha nem uma posição oficial nem um ordenado. A família pagava as despesas e o material académico que ela necessitava. As aulas que ministrava eram, normalmente, anunciadas sob o nome de David Hilbert. Não obstante, Amalie alcançou um enorme prestígio e demonstrou um teorema importante, conhecido como Teorema de Noether.
Só no ano de 1922Amalie acabaria por se tornar professora em Göttingen. Em 1930, tinha-se estabelecido um rigoroso centro matemático em Göttingen, sendo Amalie uma professora efetiva, inovadora, dona de uma imaginação fértil e que transmitia, de forma transparente, a sua criatividade aos colegas e alunos.
Foi a única mulher a proferir uma palestra plenária no Congresso Internacional de Matemática de Zurique, em 1932. Ganhou, juntamente com o matemático Emil Artil (1898–1962), o prémio Alfred Ackermann-Teubner, pelos seus trabalhos em Matemática.
A felicidade durou até 1933, altura em que o regime nazi a proibiu, juntamente com muitos outros intelectuais, de exercer a atividade académica. Com efeito, o facto de ela ser de origem judaica e de ser mulher agravaram ainda mais a situação. Impossibilitada de desempenhar as suas funções, neste mesmo ano, Amalie foi convidada para lecionar nos EUA e em Inglaterra. Opta pelos EUA e ocupa uma cadeira no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, numa altura onde notáveis génios da Matemática e da Física, tal como Albert Einstein(1879–1955) e Hermann Weyl (1885–1955), trabalhavam lá, refugiados do regime nazi. Numa ocasião, Einstein comentou que “Amalie era o mais significante génio matemático criativo produzido desde que as mulheres começaram a lecionar estudos superiores.”
A estada nos Estados Unidos foi talvez a mais produtiva e a mais tranquila da sua vida. Brilhou  como investigadora, encontrou o respeito e a admiração dos seus colegas e sentiu o entusiasmo dos seus alunos. Este sonho durou pouco e acabou de forma abrupta. Segundo consta, em abril de 1935, foi-lhe diagnosticado um tumor no quadril. Durante a cirurgia, a equipa médica descobriu um quisto no ovário de grandes dimensões. Nos três dias que se seguiram à intervenção cirúrgica, a recuperação foi normal. Lamentavelmente, a 14 daquele fatídico mês de  abril, Amalie desmaiou com grandes febres e faleceu aos 53 anos no auge da sua efervescência científica. O seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas no Bryn Mawr College.
Amalie tornou-se uma fonte de inspiração para as gerações vindouras de mulheres que, por serem mulheres, têm de lutar contra a mentalidade e o preconceito vigentes, sinais da estupidez da humanidade!

 

 

 

 

 

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Categorias: Opinião

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