Carlos Pavão alerta para a variedade dos problemas relacionados com o tabaco

Entusiasmo por mais um dia de luta contra o vício que faz dos Açores a região do país onde mais se fuma

O Serviço de Pneumologia do Hospital do Divino Espirito Santo faz, sempre que possível, rastreios para alertar a população sobre os malefícios do tabaco. Ontem, Dia Mundial sem Tabaco, não foi à excepção. O rastreio realizou-se na Matriz de Ponta Delgada e logo à chegada sentia-se o entusiasmo por mais um dia de missão e luta contra o vício que faz dos Açores a região do país onde mais se fuma. 
Sobre este assunto falamos com Carlos Pavão, pneumologista e Director do Serviço de Pneumologia do Hospital do Divino Espírito Santo. “Recorrentemente aproveitamos estes dias comemorativos relacionados com as doenças respiratórias para fazer estes rastreios em vários locais. Trata-se de um exame simples, rápido e que permite ter uma boa informação sobre a repercussão respiratória do tabaco”, esclareceu o médico. 
No entanto, não é assim tão depressa que cada fumador descobre que tem problemas a este nível. “O tabaco demora entre 20 a 30 anos a causar sintomatologia, pelo que a maior parte dos fumadores não se apercebe que vai perdendo capacidade respiratória e só nos aparece nas consultas em fases muito avançadas das doenças.” 
Carlos Pavão adianta que o melhor é mesmo não fumar, mas nesta impossibilidade há práticas que podem ajudar. “Todos os fumadores a partir dos 45 anos deviam fazer regularmente um exame para detectar precocemente alterações respiratórias que permitem, por um lado, uma intervenção terapêutica mais rápida e eficaz e, por outro, evitar a progressão da doença, sendo certo que a suspensão do tabaco é fundamental.” 
Seja como for, o médico admite que “é muito mais importante não começar a fumar do que deixar de fumar, porque deixar de fumar é difícil! Portanto, a nossa intervenção assenta naturalmente na motivação dos fumadores para deixarem de fumar, mas o nosso principal objectivo é incentivar os jovens para estilos de vida saudáveis sem tabaco”.
Por isso mesmo, o Serviço de Pneumologia do Hospital do Divino Espírito Santo lançou “uma campanha nas redes sociais, para estarmos mais perto dos jovens, com testemunhos de todos os elementos do serviço subordinados ao tema “Eu não fumo e você?”. 
Ao longo de todo o dia de ontem, neste evento de rastreio, foi possível ver em vídeos realizadas para este efeito, mas o objectivo deste serviço vai mais longe e Carlos Pavão explica porquê. “Pretendemos que a partir de hoje os não fumadores colaborem nas redes sociais com uma pequena mensagem para desafiar os seus amigos a fazer o mesmo”, destaca o director do serviço.
Apesar dos pesares, “a maior parte das pessoas não fuma, contrariamente à ideia que se tem. Há um número muito significativo de fumadores, cerca de ¼ da população, mas a grande maioria não fuma e era importante que estas pessoas dessem o seu contributo e o seu testemunho da sua situação de não fumador”.
Particularizando o caso da nossa região, Carlos Pavão realça que “os Açores são a região do país onde mais se fuma e também por causa disso temos a taxa mais alta de cancro do pulmão. O tabaco é responsável por 30% de todos os cancros e por 90% do cancro do pulmão, além do que 75% dos doentes com bronquite crónica está relacionado com o tabaco”, enumera.
Assim sendo, “o tabaco é a principal causa de doença e morte evitável e absorve recursos económicos muito significativos em doenças que poderiam ser facilmente evitáveis; estes recursos podiam ser utilizados em políticas sociais e de educação, que seriam muito mais úteis”, alerta o pneumologista.
O médico aproveitou o ensejo para realçar que o ambiente também sofre com este consumo excessivo. “O tabaco tem um impacto ambiental muito significativo. Hoje em dias as beatas dos cigarros são um dos principais poluentes dos oceanos, até mais do que o plástico, e para os jovens isso também pode ser uma motivação muito grande.”
Mas ainda existem outras questões relacionadas com o tabaco que preocupam o pneumologista. “Mais de 80% das grávidas continuam a fumar durante a gravidez e o tabaco passivo é um problema, pois o tabaco ambiental tem quase a mesma composição que o fumo do tabaco e causa as mesmas doenças; a situação da grávida fumadora é preocupante, porque o feto não tem defesas nem protecção.”
O fumo passivo no local de trabalho também é um aspecto que preocupa o Serviço de Pneumologia do Hospital do Divino Espírito Santo, pois “a Organização Internacional do Trabalho estima que todos os anos morram 20.000 pessoas no mundo por exposição profissional ao fumo do tabaco no local de trabalho”. 
O médico realça que os jovens fumam bastante actualmente, mas são as raparigas que mais o fazem. “Hoje em dia os jovens, principalmente do sexo feminino, fumam muito. Por outro lado, há também a questão das novas modalidades de tabaco que estão a ser apresentadas como meios de deixar de fumar, mas não o são! A única maneira de não fumar é não consumir nenhum tipo de produto do tabaco e o tabaco aquecido não é uma forma eficaz de deixar de fumar”, alerta Carlos Pavão.
“Tem-se verificado que nos sítios onde há um aumento de consumo de tabaco aquecido há uma redução de pessoas que recorrem às consultas de cessação tabágica; minimizar os riscos não deve ser a nossa política, mas sim evitar”. 
Segundo o profissional da saúde, o mais complicado é que “estes são aspectos facilmente evitáveis. O fumo passivo do tabaco é a terceira causa de morte e doença evitáveis e julgo que por isso temos uma boa razão de ser para estas campanhas e lutas”.
O importante é começar a trabalhar já nestas mudanças para que a situação possa reverter, mas Carlos Pavão garante que isso não acontece de hoje para amanhã. “Se todas as pessoas deixassem de fumar hoje só daqui a 20 ou 30 anos é que veríamos um reflexo significativo, mas se não se começar não se consegue mesmo chegar a parte alguma” , conclui o médico como alerta para que este paradigma mundial se altere.

                                     
                                        

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