Gerações (12) – Guilherme Miranda

“Considero a droga e o álcool os problemas mais graves da actualidade nos Açores, que não existiam na minha geração”

Quando e onde nasceu? Conte-nos como foi, de uma forma resumida, o seu crescimento.
Eu era o neto mais velho, tanto do lado do meu pai como do lado da minha mãe, e com tias solteiras, também de ambos os lados, penso que está tudo dito! Não precisava pedir ou choramingar muito para conseguir o que queria, mas esta estratégia não funcionava muito bem com a minha mãe. 
Aos cinco anos entrei para o colégio A Passarada, ainda na Rua da Boa Vista, estive na infantil, ingressei na primária e tenho muita honra em dizer que faço parte da classe que terminou a escola primária no 2º ano em que houve 4ª classe do colégio. Foi durante a minha 3ª classe que o colégio se mudou para a Rua do Contador. Na primária tive sempre a mesma professora, a D. Maria Joana, grande impulsionadora d’ A Passarada e com quem muitas vezes me cruzo e converso na rua. 
Terminei o Liceu em 1974 e no dia 25 de Abril tive aulas normais; só ouvi falar no Golpe de Estado à tarde, durante uma aula, através de um comentário da professora cujo marido fazia parte da Assembleia Nacional, e não percebi bem o que tinha acontecido.
Concorri e fui aceite na universidade, só que no ano de 1975 as universidades portuguesas estiveram fechadas e os meus pais enviaram-me para o Canadá para continuar a estudar. Tive que fazer um curso de inglês de nível avançado como segunda língua e fui tirar programação de computadores. 
A informática daquela altura não tem qualquer semelhança com a informática dos dias de hoje, só a lógica. A programação era feita em cartões perfurados e o BASIC era programado numa espécie de máquina de telex sem ecrã.
Terminado o curso, e com boas hipóteses de carreira na área, decidi que deveria voltar para São Miguel. A 1 de Abril de 1981 integrei os quadros da então Caixa Económica da Misericórdia de Ponta Delgada, que em 2002 foi integrada no Banco Espírito Santo dos Açores e hoje é Novo Banco dos Açores.
Quando regressei do Canadá submeti um processo de equivalências para o Ministério da Educação. Os papéis ficaram lá a criar “mofo” e volvidos dois ou três anos foram todos devolvidos com a justificação de que a competência de atribuição de equivalências tinha passado para as universidades. 
Com o apoio do Dr. Gualter Furtado submeti um novo processo de equivalência à Universidade dos Açores, consegui equivalência para algumas cadeiras e licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas.
Posteriormente fiz uma pós-graduação em “Fiscalidade” no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade Técnica de Lisboa. Volvidos 38 anos e com 64 de idade, continuo a trabalhar como “Técnico Superior” no Novo Banco dos Açores e quando olho à minha volta já me considero um “Dinossauro da Banca”.
Para além da minha actividade bancária, durante muitos anos foi professor dos cursos nocturnos da Escola Secundária Antero de Quental da qual tenho as melhores memórias, onde conheci muita gente, entre professores e alunos que hoje em dia me dedicam amizade. 

Que tradições/costumes da nossa terra recorda do seu tempo de infância que hoje já não se celebrem da mesma maneira ou de todo? 
Uma das coisas que me recordo do meu tempo eram as refeições, que tinham um horário mais ou menos definidos, a família estava presente e onde havia um bom convívio familiar. Hoje em dia a televisão está ligada, os olhares estão centrados na televisão e não se fala. Para os mais pequenos estarem calados é-lhes dado o telemóvel com um jogo ou um filme.
No Natal, na Páscoa e no dia de Todos os Santos havia uma reunião de família alargada em casa dos meus avós tanto paternos como maternos. Hoje em dia já muitos faleceram outros já não vivem em São Miguel e as ditas reuniões familiares alargadas foram-se esmirrando com o passar do tempo.
Em casa dos meus avós havia outras coisas que se deixaram de fazer como as vindimas, a amarra do milho, a matança do porco, que eram sempre motivo de reunião familiar incluindo as Festas de Nossa Senhora de Lourdes nas Capelas.
O meu avô paterno era da Pedreira do Nordeste e tinha dois irmãos que lá viviam. Em Setembro era obrigatório irmos todos às Festas da Pedreira e era sempre igual: saíamos de casa por volta das sete, a viagem era uma eternidade, chegávamos por volta do meio-dia e a minha tia começava a dizer que o almoço estava quase pronto, mas só ficava efectivamente pronto por volta das quatro da tarde! A ementa era sempre igual: sopa de cozido, cozido, um assado, arroz doce e tigelada. Isto foi sempre assim até aos meus 16 anos, altura em que os meus tios do Nordeste faleceram.
Muitas vezes recordo tudo isto e muito mais com saudade!
Uma outra coisa que não é considerada um costume ou tradição, mas que na minha infância foi importante e que hoje recordo com saudade era a caça à baleia. Nas férias eu acompanhava toda a operação, desde o lançamento do “bombão” a chamar os baleeiros até partida das lanchas e canoas. No final da tarde ou no dia seguinte ia à fábrica ver as baleias. É engraçado que falando com pessoas que experimentaram estas mesmas vivências, com familiares a trabalhar na faina da baleia, é notório o carinho com que falam da caça à baleia numa altura em que a vida era bastante dura para aquelas gentes de famílias numerosas e com poucos rendimentos. 

Comparando com a geração dos dias de hoje, na sua opinião que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
Antigamente os avós tinham um papel muito importante na educação dos netos. Eram o porto de arribação dos tempos livres. Hoje em dia as crianças têm o dia tão ocupado, com a escola, a música, o ballet, o futebol, a ginástica, a natação, o judo, etc., que convivem muito menos com os avós. Além disso, muitos deles vivem a grandes distâncias o que restringe muito o convívio e a influência dos avós na educação dos netos. A minha avó é que me incutiu o gosto pela leitura!
Quando era miúdo, tal como os outros da minha idade, dávamos mais valor às coisas porque eram desejadas e compradas com o dinheiro que nos davam, desde logo tínhamos que fazer opções, ou nos eram oferecidas numa data especial, por isso, dávamos valor e estimávamos o que tínhamos. Hoje em dia há brinquedos para todos os gostos, qualquer miúdo tem acesso praticamente aos brinquedos e jogos que quer, mas também a estimação e o valor que lhes dão é pouca ou nenhuma. 
Antigamente brincávamos muito uns com os outros e convivíamos bastante, foram feitas amizades que vão durar uma vida. Hoje em dia as crianças passam muito tempo vendo televisão, a jogar na playstation, computador ou no telemóvel, o que, na minha opinião, faz com que convivam muito menos. Este é um factor que contribui para algum isolamento das pessoas e a vida social passou a ser quase virtual. 
As mudanças económico-sociais a que temos assistido obrigam as crianças e os adolescentes a competirem muito cedo desde as notas na escola para ingressarem na universidade no curso escolhido.
Em termos de educação, quanto ao saber estar e ao respeito pelos outros, penso que as coisas regrediram. Considero a droga e o álcool os problemas mais graves que não existiam na minha geração. 

Que evoluções e alterações tem notado no mundo de trabalho desde que começou a trabalhar até àquilo que é hoje a sua realidade profissional?
As mudanças verificadas no mundo do trabalho nos últimos anos têm sido galopantes. Cada vez mais as empresas entram no mundo das novas tecnologias e hoje em dia só se fala no digital. 
Quando entrei para a banca todos os serviços eram manuais, usávamos a máquina de escrever e a máquina de calcular, o telex e os computadores eram de tarjas. As inovações começaram com as fotocopiadoras com cada vez mais qualidade, com sistemas informáticos cada vez mais rápidos e sofisticados que produziam mais e melhor informação; estes foram gradualmente substituindo o trabalho manual, em especial o administrativo. 
As grandes mudanças que se têm verificado nos últimos anos, não só a nível laboral mas também a nível social, são nos comportamentos e hábitos das pessoas. Hoje fazem-se cada vez mais compras online, comunicamos e convivemos socialmente através das redes sociais, para qualquer parte do mundo durante as 24 horas do dia. O mesmo se passa no campo dos negócios e onde a globalização é uma realidade. Todas estas mudanças associadas às novas tecnologias e ao automatismo eliminaram postos de trabalho especialmente de mão-de-obra indiferenciada. Porém, surgiram novas oportunidades que exigem outro nível de escolaridade e especialização, o que obriga o sistema de ensino e os professores a uma dinâmica permanente de adaptação às necessidades das novas gerações e do mercado de trabalho. Agora temos a robótica que é uma nova ameaça aos nossos postos de trabalho. 
Quando comecei a trabalhar sabia fazer as coisas manualmente e sabia o que estava a fazer e porquê, o mesmo se passava com todas as outras pessoas. Hoje em dia opera-se num posto de trabalho (terminal), muita vez remoto, carregam-se os dados e a máquina faz o processamento, só temos que esperar pela resposta. Na década de 80 os bancos eram compostos por vários departamentos devidamente especializados, hoje em dia um comercial bancário tem que ser polivalente. Aliás, até já caminhamos para as lojas automáticas em substituição das agências bancárias e com a internet a necessidade de os clientes irem ao Banco é cada vez menor. Em termos profissionais fui-me adaptando às novas realidades através da formação profissional interna e externa.
Pelo caminho que isto vai, qualquer dia, quando formos ao supermercado vamos constatar que as meninas dos caixas desapareceram e foram substituídas por caixas automáticas.
As viagens são uma parte importante da sua vida? Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
Viajar é o melhor que há, viajo sempre que posso. A viagem que mais gostei foi à minha ida à Índia, porque não tem descrição. A que menos gostei foi a minha ida à Bermuda, porque ficou muito abaixo das minhas expectativas e da imagem preconcebida que tinha por influência do que ouvi da boca de emigrantes. O que mais me marcou das minhas viagens foi o Campo de Concentração de Auschwitz na Polónia, o espólio existente é revelador de uma maldade (crime) de uma dimensão difícil de imaginar. As que mais me divertiram foram a Euro Disney e a Legolândia na Dinamarca. Os cruzeiros também são fantásticos. Tenho em mira o Parque do Astérix, São Tomé e Príncipe e um safari no Quénia. Mas entre tudo isto viva a Portugal em termos de gastronomia!

Que relação estabelece diariamente e actualmente com a sua família? Sente que hoje tem mais tempo para lhe disponibilizar? 
Hoje o tempo para disponibilizar à família é muito menor devido a todos os constrangimentos que temos nos dias de hoje. É a vida profissional, a pessoal, os engarrafamentos, o nosso comodismo, o tempo que necessitamos para nós próprios; tudo isto faz com que o tempo disponível para a família seja menor!

E os amigos que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem?
Tenho um grupo de bons amigos e juntamo-nos com relativa frequência em momentos que se traduzem sempre em bons convívios. Diariamente convivo com as pessoas com quem trabalho e temos um grupo que almoça junto.
Actualmente o convívio com os amigos é diferente, porque todos têm a sua vida pessoal familiar e profissional. Antigamente a minha preocupação era acordar vivo no dia a seguir e ir para as aulas. O mesmo se passava com os meus amigos. Como andávamos todos no mesmo estabelecimento de ensino entravamos e saíamos todos à mesma hora, íamos e vínhamos da escola em grupo. No liceu, vínhamos e íamos para as Capelas todos no mesmo autocarro. Ninguém nos ia levar nos ia levar de carro à escola como hoje. 
Havia muito mais tempo para conviver. A partir do momento que as pessoas foram tirar os seus cursos e seguiram com as suas vidas o convívio começou a diminuir, contudo a amizade perdura. Com a vida contínua vamos sempre arranjando novos amigos ao longo do tempo.
 
Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também? 
A minha relação com a internet é boa, penso eu! Utilizo a net no serviço, porque tem que ser, ainda mais nos nossos dias em que a comunicação por mail é a mais comum. Além disso, os sistemas operacionais com que trabalhamos no dia-a-dia dependem da net e de um bom sistema de comunicações.
Uso também bastante a internet como forma de lazer e comunicação. Todos os dias à noite passo um bocadinho no Facebook, gosto de ler o Açores Global e algumas publicações de pessoas que conheço, vejo páginas relacionadas com os meus passatempos. Comento muito pouco as publicações das outras pessoas apenas ponho uns “likes”. Compro muita coisa online, especialmente aviões para a minha colecção. Acho que a internet é uma ferramenta muito poderosa, tudo depende da utilidade que lhe damos. A minha relação com a internet foi sempre evoluindo e é cada vez com maior envolvimento. 

Como caracteriza o seu modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo?
O meu fato de macaco no dia-a-dia envolve uma gravata e pelo menos um blazer, logo, adoro qualquer oportunidade para calçar sapatilhas vestir calças de ganga e um pólo. 
Penso que hoje em dia a maneira como nos vestimos é mais confortável e mais variada, tudo depende da ocasião e o formalismo relacionado com o evento a que vamos. Antigamente havia a roupa para ir à missa ao Domingo, a roupa para as ocasiões especiais e roupa de usar no dia-a-dia. Nos tempos que correm andamos como queremos, usamos a roupa que queremos e damos importância à marca. Pessoalmente, e como muita gente, gosto de me vestir para ir a um jantar uma festa ou um evento. Regra geral gosto de me sentir confortável.

Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo dos tempos?
A minha alimentação actual é um desconsolo, até perco a vontade de comer, são só dietas e mais dietas, mas peco muita vez!
A minha alimentação mudou muito ao longo da minha existência. Antigamente tinha uma alimentação mais diversificada e saudável, comia muito peixe, muito menos carne, muitos mais vegetais e legumes, especialmente na sopa e saladas, menos congelados. Em termos de açúcar ingeria pouco, porque as bebidas gaseificadas existentes eram apenas os produtos da Melo Abreu, pirolitos, gasosa, laranjada e cerveja preta doce; em termos de guloseimas não existia a oferta que há hoje e a minha mãe, que era muito boa cozinheira, também não fazia doces em grandes quantidades. 
Quando fui viver para o Canadá, em 1975, julgava que estava no paraíso com uma série de coisas que não conhecia como a Pizza Hut, o McDonald´s, o Burger King, Coca-cola, maionese em frasco, montes de chocolates, gelados ao quilo! Resumindo, um mês depois a roupa não me servia. 
Quando deixei de fumar é que foi a grande desgraça, fiquei com um apetite do tamanho de uma garagem e bati o meu recorde de 140 kg, acompanhado das respectivas consequências a nível de saúde. Com muita força de vontade e ajuda médica consegui reduzir 50 kg!
Hoje em dia a alimentação é muito diferente em todas as refeições que se fazem durante o dia; consumimos muita galinha, carne e pouco peixe, compramos muita comida já cozinhada, comemos qualquer coisa para despachar e muitas vezes em pé! Temos ao nosso dispor vários tipos de cozinha e de culturas diferentes e muita comida plástica. 
E hoje em dia nada é como era quando eu cresci, umas coisas para melhor e outras para pior!
                                    

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