2 de junho de 2019

Arquitectura LXVI

A Esperança

 
O isolamento como existência
A existência como subsistência
A subsistência como subdesenvolvimento
O subdesenvolvimento como media
Os media como mensagem
A mensagem como intervenção
A intervenção como comunicação
A comunicação como política
A política como esperança

Manuel Vicente com Alberto Oliveira, arquitectos, in “Programa-manifesto do grupo de trabalho Espectáculo Permanente no encontro Nacional de Arquitectos”, Lisboa Dezembro de 1969.
Por cá a « Esperança» inscreve-se a bronze na esquina do convento, mas aí desesperado, sem esperança, suicidou-se Antero de Quental.
Dois anos quase passados sobre as ultimas eleições autárquicas, e não vislumbramos esperança em quaisquer mudanças urbanas que alterem a cidade, que tranquem a sua descaracterização e lhe apontem um futuro diferente, que se está a adiar.
Porque a «humanização da cidade» de que recentemente se falou, como se hoje fosse um facto, não se faz com cosmética e animação, antes com intervenções que se acontecerem, terão que ser profundas, por ao longo dos anos as termos e continuarmos a descurar.
E se é importante a participação cívica de todos na construção da Cidade, a que já não se assiste, cabe ao Município, chamar, discutir e responsabilizar, cabendo-lhe uma actuação firme no planeamento territorial e urbano que tudo funda e interliga, ao invés de impávido e sereno assistir, e tomar como bom, o que todos os dias lhe impingem. 
A recente pressão imposta pelo turismo, para que não estávamos, não estamos, nem sei se alguma vez, por este andar, estaremos preparados, veio pôr a descoberto as fragilidades urbanas na mobilidade, no ambiente, no património histórico, ou na habitação, com repercussão social, evidentemente.
Todos estes factores se interligam, constituem já um novelo que se agiganta, e que me parece que ninguém quer desfazer.
Se a mobilidade estava estagnada, ao abrir-se, e bem, o espaço aéreo, a estagnação das outras componentes a nível urbano e rural veio a mostrar-se de forma abrupta, quando a pressão imposta pelo turismo se manifestou, e todos os dias se reforça através de mais tráfego e muito maior número de utilizadores de todos aqueles espaços e infraestruturas.
Este aumento exponencial e instantâneo, pelos vistos, deixou-nos atarantados, sem capacidade de reação, acabou com o parqueamento, e trouxe à estrutura urbana de séculos, na sua reduzida dimensão, uma sobrecarga que não comporta e se manifesta negativamente no ruído, na poluição, e simultaneamente avilta o peão.
A Cidade não estava preparada, não se prepara, nem tão pouco se adivinha qualquer vontade que queira alterar a situação e a dote de uma nova organização, reforçando os transportes públicos, o parqueamento, as áreas pedonais, a recolha de resíduos, lhe garanta as acessibilidades e lhe imponha uma disciplina viária, preservando a qualidade que deveria ter.
Em paralelo a perda de identidade que o crescimento por “subtracção” lhe impõe, com o aumento de implantações e alturas do edificado, garantidas por sucessivas alterações dos documentos de planeamento, reflecte-se também na qualidade ambiental das zonas históricas, que no desrespeito pela sua escala, perderam insolação, arejamento, áreas verdes e ganharam ruído, já sem falar na perda de edifícios de relevante arquitectura.
Em simultâneo a perda de residentes que neste desregulamento se não revêm, ou se vêm forçados a sair por imposição da desregulação do arrendamento, impôs o consumo que substituiu a vivência.
A actuação firme em quatro factores regenerariam a Cidade:

- Na Mobilidade:
- Criando as estações rodoviárias de conexão dos diferentes transportes e transportadoras.
- Reestruturando os transportes públicos, através da remodelação da rede urbana de transportes; da intensificação da sua frequência; da substituição progressiva da sua frota por veículos eléctricos; de novo tarifário; da integração do sistema de bilhetes e passes comum entre transportadoras, com implementação de passes turísticos.
- Criando um efectivo Regulamento de cargas e descargas.

- No Ambiente:
- Combatendo as fontes emissoras de poluição, por onde passa a implementação de um sistema concelhio de recolha selectiva de resíduos porta-a-porta, e de um sistema de recolha de urgência.
- Criando um Regulamento da publicidade, pela salvaguarda das acessibilidades em meio urbano, e por uma paisagem e património que se querem libertos de qualquer tipo de agressão.

- Na Reabilitação Urbana:
- Assumindo a verdadeira reabilitação que não descaracteriza, mas valoriza os conjuntos históricos.
- Criando a inevitável taxa turística que apoia a reabilitação e a preservação do espaço público.

- Na Habitação:
- Assumindo verdadeiramente um Sistema Nacional de Habitação, legislação em vias de aprovação na Assembleia da Republica, que imporá (figas!) uma visão e concertação sobre o planeamento, que permitirá a garantia do direito constitucional.
Mas quando foram precisos vinte anos para tomar uma má decisão sobre a Calheta (se é que é desta), quantos serão precisos para preservar o que resta da Fundição da Calheta e espaço envolvente, reabilitar o tecido da mesma zona interligando a Avenida D. João III à Avenida Marginal, reabilitar o Mercado da Graça, infraestruturar e reabilitar o Parque dos Valados, implementar aquelas medidas de regeneração da Cidade e por aí adiante, garantindo um futuro com história, conferindo-lhe outra qualidade, que os prémios da estatística que a nomeiam de smart não avaliam? 
 

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Categorias: Opinião

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