2 de junho de 2019

Crónica da Madeira

A propósito do livro “KNK” do poeta Luís Filipe Sarmento

Quando o poeta borda a palavra na corrente filosófica do seu pensar ressalta na poesia esse talento extraordinário de uma experiência única caseada na multiplicidade de vivências arquivadas no mais profundo do seu ser.
Para mim, é o poeta que se eleva e faz das palavras, desde sempre, caminhos para neles se colocar e neles traçar estradas incomensuráveis de reflexão, de tal forma que os leitores sejam arrastados ao desafio de entrarem na corrente de um pensamento filosófico, fascinante pelo qual se apaixona e vibra intensamente.
Falo do poeta Luís Filipe Sarmento, que é também escritor, novelista, jornalista, realizador de vídeo e de cinema, uma personagem que nos conquista, pelo seu discurso inteligente e pela versatilidade cultural. Um conversador admirável, um contador de histórias que contagia e atrai.
Embora tenha nascido em Lisboa, ele é um verdadeiro cidadão do mundo, não só por uma vivência diversificada em muitos países, mas também pelo sentir, estando, sendo, numa busca constante de saber, de conhecer. Dominar muitos dos idiomas à perfeição permite-lhe embrenhar-se com mais facilidade no países e entender a suas gentes numa convivência preocupada em viver as suas tradições, culturas e histórias, o que o enriquece de sobremodo, tornando-o ecuménico no seu espírito e defensor de direitos humanos. Ele pode cantar outros povos, na essência da exaltação do que são, seres humanos à procura de paz e de amor, porque o mundo esfomeado destes sentimentos desmorona-se cada vez mais. Penso que ele, poeta, desenhou nos olhos cidadãos de países distantes e guardou deles as emoções sentidas; meteu-as na memória do tempo, conservando-as até ao momento de torná-las palavras escritas e colocá-las no tempo da memória.
Luís Filipe Sarmento é um dos conceituados poetas do nosso país e do nosso tempo, por ventura, dos mais universais. Possui uma linguagem que prende os leitores que, num crescente de curiosidade, de página a página, se vão familiarizando com a sua escrita e filosofias subjacentes, vivendo-as empaticamente.
A sua obra é vastíssima e a essa junta-se-lhe a sua, não menos vasta, participação em antologias, não só em Portugal, mas também no estrangeiro.
Falei-vos um pouco do Poeta, do escritor, do homem. Agora tentarei dar-vos um pouco do seu último livro “KNK”, um conjunto de considerações poéticas a partir da elaboração filosófica de três grandes personalidades: Kant, Nietzsche e Kafka, um trabalho de profundo conhecimento das filosofias dos filósofos referidos que tanto marcaram o mundo. A força das suas considerações arrebatam pelo que as palavras nos dizem, revelando o pensamento rico do seu autor e como essas nos influenciam, obrigando-nos a reflectir. É preciso senti-las na essência do que significam como mensagem. O curioso é como as palavras se encaixam e se entrelaçam umas nas outras. Nascem livremente, inspiradas nas filosofias dos filósofos e ganham uma nova dimensão que testemunha do pensar do poeta imbuído da sua própria filosofia.
Recordo o pensamento de Garcia Lorca, na sua entrevista a G. Diego: “O que é que queres que te diga da poesia. Que coisa queres que te diga destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada sobre Poesia. Deixemos que digam os críticos e os professores. Mas nem tu, nem eu, nem outro qualquer poeta sabe que coisa é a Poesia. Está aqui:
 olha o fogo nas minhas mãos. Eu sinto-o e trabalho com ele perfeitamente, mas não posso falar dele sem literatura”.
Certamente sou aquele que vos aconselha a ler o seu livro, porque é na descoberta permanente das palavras que se encontram as suas razões, a grandeza da alma de quem pensa no silêncio e tatua o tempo, este tempo que lhe pertence, com o seu saber. Um património que passa a pertença de todos nós.
Li, com muito entusiasmo, o “KNK” e pensei que seria interessante, pelo menos para mim, desmontar as palavras. Porque a poesia é um facto experiencial: se a leio mas não faço a experiência, essa permanece como palavra muda. Por isso, desmontei-as sem qualquer ordem cronológica ou preocupação literária, juntei-as aleatoriamente. Por fim, vi o resultado desta experiência em que me atrevi meter. Sempre com a preocupação de não diminuir a beleza e a riqueza das palavras do Poeta.
O que eu obtive foi, justamente, o que antes pensara: Luís Filipe Sarmento conhece e domina bem a escrita, joga, num sentido positivo, com as palavras, com inteligência e mestria, tornando-as parte para os seus leitores. Passa-as com a certeza do que elas vão pôr a trabalhar as suas mentes, o que é fantástico. E a mensagem passa. Podia colocar as palavras de trás para diante e o seu resultado seria o mesmo: a grandeza da escrita e a almado autor reflectida nos poemas.
O livro divide-se em três partes: “Transcendental”, “Morte de Deus” e“ OProcesso Labiríntico”.
Concluo, dizendo da riqueza espiritual e a beleza exaltante do “KNK”, a originalidade dos poemas que é, em minha opinião, a exaltação do próprio poeta e do homem. Não posso desassociar um do outro, contribuindo com o seu saber ao enriquecimento da sociedade onde se integra. Esta deve orgulhar-se pelo seu percurso que,inequivocamente, atesta da personalidade que ée como vive, pensando em dar aos outros os seus conhecimentos e preocupações. Ele vive deixando a sua marca e a sua poesia de alta qualidade. Essaconstitui, já,um património da cultura portuguesa. E termino:
No livro “Inquietude, sangue-de-poesia” um poeta pouco conhecido, Nicola Vassallo, escreveu:


Poesia é um fogo frio
que repara a alma
ficando escondida na penumbra.
 

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Categorias: Opinião

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