A Nossa Gente (202) – Rui Anjos

“Confesso que ninguém acreditou quando quis criar o Baía dos Anjos, nem o meu pai”

Como começou a sua vida?
Sou natural de São Pedro, da Calheta, e nasci em Maio de 1978. Portanto, tenho 41 anos e sou o filho do meio, porque os meus pais tiveram três filhos. O meu percurso foi completamente normal, tive uma infância muito feliz com um grande grupo de amigos e posso dizer que tive um período juvenil de grande aprendizagem, depois de muito desporto náutico e de judo também. Queira-se ou não, com um bom grupo de amigos e com uma apetência para o deporto, as habilidades foram desenvolvidas, assim como as dinâmicas pessoais, a responsabilidade e o trato com as pessoas. 
Vivi a minha juventude toda até aos meus 17 anos na Avenida E. Gostei destes tempos, porque fui criado na rua, era na rua que se brincava; agora absorvemos esta nova dinâmica da era digital, mas não crescemos com isso. Crescemos a dar importância aos valores enquanto pessoas. 

Como era o seu envolvimento na escola?
Era preguiçoso, nunca estudava e nunca gostei de estudar, mas estava atento nas aulas e quero crer que era bem comportado. Tinha muitas amizades, sempre fui uma pessoa muito fácil de conviver, e tenho muitos professores que me marcaram, que hoje em dia reconheço e cumprimento na rua. 
Até ao 9º ano estive na Escola Secundária das Laranjeiras, depois ingressei no ensino técnico-profissional na EPROSEC, no curso de Segurança e Higiene do Trabalho, e fiquei pelo 12º ano. Finalizei o curso, mas nunca exerci, porque entretanto fui trabalhar com o meu pai. O Cantinho dos Anjos existe desde 1989, tinha eu 11 anos na altura. Sempre me lembro de ajudar, ora de uma forma mais voluntária, ou mais obrigatória. É comum como castigo ou penalização, e se calhar um dia farei isso à minha filha, mandar os filhos ajudar nos negócios de família, até porque nesta actividade se desenvolve muita capacidade de raciocínio lógico das coisas, do trato com as pessoas, do sentido de prestar um serviço e também de dar valor ao trabalho dos pais. Acho que se não tivesse passado por aquele trabalho, dito forçado, se calhar hoje não estaria onde estou! 

É daí que vem o seu gosto pelo mundo empresarial?
Mais ou menos. Confesso que até aos meus 25 anos eu era apenas um rapaz e nesta altura tornei-me provavelmente adulto! Percebi que a estrada da vida tinha que ter um rumo e um foco. Costuma-se dizer que “o trabalho só dignifica o Homem” e quando me foquei a trabalhar com o meu pai a minha conduta e perspectiva mudou completamente; o meu grande desafio era fazer algo bem feito do princípio ao fim e distrair-me pouco. Como consequência passei a estar muito próximo do meu pai e a conhecer o negócio por dentro. Fruto disso, na gestão aprende-se muito e isso dá-nos a vontade de criar o próprio negócio. 
Quando soube da intenção de se fazer o empreendimento Portas do Mar, em 2008, percebi que esta era talvez a minha oportunidade. Confesso que ninguém acreditou nisso, nem o meu pai. Não duvidavam de mim, mas tratando-se de um grande empreendimento como era este, e que ainda hoje é de grande relevo, as pessoas tinham alguma relutância. 
Foi nesta sequência que em 2008 abrimos o Baía dos Anjos, eu e a minha namorada na altura, hoje minha mulher e mãe da minha filha. Vivemos também uma história bonita em termos de conquistas de casal. Acho que este percurso só faz sentido acompanhado, pois se tivesse estado sozinho parece-me que tinha agido de forma diferente, não necessariamente pior mas diferente. O meu comportamento é o reflexo da estabilidade emocional que tenho na minha vida privada.

Antes de tudo isso, a música também marcou um espaço importante na sua vida. 
Sim, é verdade. Sinto todos os dias uma perda nesse sentido. Das coisas que mais me custa admitir e verbalizar em conversa com amigos é que nunca toquei num instrumento novo. Enquanto jovens desejamos ter um instrumento capaz, para ensaiarmos e o primeiro equipamento novo que tive foi comprado para o bar e nunca toquei nele! Se por um lado isso me entristece, por outro ter a capacidade de comprar um instrumento novo para que outro toque também me satisfaz e me faz desfrutar de outra forma; é de certa forma um privilégio também. 
Eu tocava guitarra baixo; nunca fui um exímio mas assumo que tinha alguma sensibilidade para compreender o instrumento. Sabia em que momento mostrar que também estava no palco, era a minha forma de estar. Sei que toda a gente tem espaço e que há pessoas que solam a música inteira, mas isso é perfeitamente desnecessário! 

Onde trabalhou entre o terminar do curso e o começo da vida activa ao lado do seu pai? 
Trabalhei num talho, fui vendedor de “matutanos” e também trabalhei na Fábrica de Tabaco Micaelense, pela qual nutro uma estima muito grande e hoje tenho relações institucionais e de parceiro de negócios; trabalhava como comercial, foi um trabalho que gostei muito de fazer, estava muito bem rodeado de bons valores, estima e consideração. No entanto, este tempo coincidiu com uma vontade própria que tinha de ir para o Canadá trabalhar para experimentar e perceber o que era aquilo. Fui por 11 meses, os primeiros cinco foram fantásticos, fruto da ilusão, mas sou daqueles que não conseguem estar longe do mar! Sempre achei uma patetice um emigrante que chegava cá desejoso para beber uma laranjada, comer uns lapas e cheirar a mar; tantas vezes que ri disso, mas senti na pele esta distância! Isso não é nada vulgar, mas sim muito característico nosso. A pessoa que está habituada a isso nunca esquece, pode conseguir passar sem, mas não esquece; sente sempre a falta. No Canadá trabalhei no Inverno na neve e no Verão nos jardins.

Quais foram os principais desafios ao arrancar, então, com um espaço como o Baía dos Anjos?
Posso dizer que comecei com uma máquina de gelo que hoje dada não quero, porque não tem capacidade nenhuma. Tudo começou com mais três pessoas e isso não dá nem de longe nem de perto para uma das minhas casas. A minha visão há 10 anos atrás do negócio era muito simples, muito de venda ao balcão, mas percebi no Verão de 2018 que esta superou todas as minhas expectativas, tanto em termos de equipamento e condições de trabalho como na minha envolvência no mundo do negócio, que é muito maior hoje em dia. Porém, a minha perspectiva do que ia ser o Baía dos Anjos era minimalista.
Eu e a minha namorada, na altura, éramos a base dos turnos e tínhamos mais três colaboradores, o que na altura foi um grande desafio. Penso que só consegui atingir esta dimensão de uma forma gradual e com alguma sensibilidade fui congregando tudo, sentindo sempre que podia conquistar mais espaços de trabalho.
Isso não é fácil, e dificilmente alguém conseguiria criar de raiz o que está criado, porque tem que ser feito ao longo do tempo, com capacidade de desenvolver, assimilar, manter, aprofundar e melhorar cada vez mais. Para mim é um desafio diário, porque sou aquela peça que está desde o princípio na engrenagem. 

Qual foi o negócio que se seguiu?
Foi o Yatch Club, que agora é o Stage Restaurant. Este restaurante aconteceu um pouco fruto do acaso e pela disponibilidade da loja, que entretanto cedeu a posição contratual à sociedade que eu tinha por inerência de proximidade. Entrei num mundo novo outra vez, pelo que o Yatch Club como restaurante também foi um grande desafio. 
Em estruturas com 10 anos, e neste caso de muito uso, o desgaste é enorme e depois de todo esse tempo claro que as estruturas já não correspondem às necessidades. Muito da minha necessidade de intervir no Yatch Club foi para aumentar a cozinha e este planeamento também me levou a qualificar a sala. 

No total são oito os espaços que constituem o Grupo Anjos, certo?
Sim. Tudo isso leva-nos a desenvolver a nossa mente e a nossa audácia, assim como a estarmos dispostos a correr outro tipo de riscos. Se no início alguma coisa tivesse corrido mal, obviamente que neste novo investimento retraía-me de uma forma muito natural, mas não foi o caso. As coisas correram muito bem e continuam a correr e isso permitiu-me, durante mais de 10 anos, conquistar espaços de referência da cidade de Ponta Delgada, em localizações nobres. 
Desenvolvi equipas de trabalho e, há cerca de quatro anos, uma estrutura que foi fundamental para o sucesso do Grupo Anjos, que foi um bloco administrativo. Criamos uma sede com armazém, desenvolvemos a parte gráfica, de animação, marketing, estratégia comercial, uma secção de compras, tanto na relação com o fornecedor como na entrega de mercadoria nas unidades do grupo, recrutamos um informático para resolver anomalias e fazer mapas, desenvolvemos o secretariado e por último os recursos humanos. Esta é uma secção cada vez mais exigente, pois as pessoas nas empresas são realmente o desafio mas também o garante da estabilidade no dia-a-dia e com o cliente. 

É preciso saber ser líder e patrão hoje em dia?
É. Modéstia à parte, sou uma pessoa que gosta de conquistar os seus funcionários, mentiria se dissesse que sou muito próximo de todos, mas sou da grande maioria e daqueles que considero que possam ser diferenciados. Porém, numa estrutura desta dimensão, sinto que as pessoas têm que me conquistar um bocadinho. Já passamos dos 170 funcionários. De Inverno somos cerca de 130 e no Verão este número dispara para os 170. 

O Cantinho dos Anjos também está agora a seu cargo. Este é o cantinho do seu anjo?
Sim, é o sítio do meu saudoso pai. Esta foi a terceira unidade a ser assimilada pelo Grupo Anjos. Em 2013, aconteceu o fatídico acontecimento da morte do meu pai e neste momento sou o único sócio do Cantinho dos Anjos.
Naquela altura, um conhecido de todos nós, o Ricardo Moura, propôs-me abrir algo em conjunto com ele e eu senti a convicção necessária e o empenho de ambas as partes para desenvolver o projecto do Cais da Sardinha. 
Entretanto, um empresário da nossa praça propôs-me ficar com três espaços na Avenida Marginal e, por último, consegui a cereja em cima do bolo: o Café Central que sempre foi um sonho para mim, ainda antes de trabalhar com o meu pai no sentido mais profissional; sempre achei aquele espaço muito especial! O Café Central era um sonho antigo e foi uma conquista muito saborosa, acho que está devolvido à cidade. 

O seu pai mudou de ideias em relação à sua forma de investir e trabalhar?
Não. O meu pai fazia tudo: era o primeiro a acordar, fazia as compras, estava atrás do balcão, dormia duas horas e regressava. Entendo que isso não é correcto e que ninguém merece isso! Aprendi a ter um pai ausente de casa e muitas vezes, se quisesse estar com ele, tinha que ser no próprio ambiente de negócio, pelo que prometi que não queria isso para a minha vida nem para a minha filha.
Confesso que desde que sou pai também mudei o meu registo, pois agora acordo quando antigamente estava-me a deitar! Temos casas com horário de funcionamento das 07 às 04 horas da manhã e enquanto gestor de negócios senti que o melhor para a minha família seria adequar-me às circunstâncias. Até porque fui pai e casei por opção e estas pessoas não mereciam que eu me dedicasse apenas ao negócio. Por isso, desenvolvi uma forma de estar mais diurna, assim como criei chefias e uma hierarquia organizada que me permite sentir e estar no espaço de outra maneira. Estas são pessoas que estão há muitos anos comigo e por isso há uma confiança absoluta. 

A Ana Sofia, a sua esposa, é um braço direito?
É um braço direito e erradamente muita vez se diz que “atrás de um grande homem está uma grande mulher”; o correcto é afirmar que ao lado de um grande homem tem que estar uma grande mulher! Portanto, além de ser uma pessoa que por motivos óbvios considero, a Ana Sofia é uma mulher que me dá estabilidade emocional quando necessito, ainda mais nos últimos quatro anos quando fomos pais; isso só nos enriqueceu e engrandeceu a nossa amizade, porque também somos bons amigos. Enquanto companheira e sócia, ela é uma pessoa que me acrescenta muito e sabe ouvir e partilhar o que lhe parece que deve dizer!

Como é a sua vivência em família com a filha e com a esposa?
A minha filha está na idade em que quer muito a minha atenção. Na situação da remodelação do Stage Restaurant, dediquei-me a 100% no final da obra e pouco estive em casa com elas, pelo que fico feliz da vida porque ela chorava com a minha ausência. É sinal de que passo tempo de qualidade com ela e de que lhe faço falta. Pessoalmente, fico grato por ela ser uma menina feliz e por sentir que os pais a amam muito. Acho que quando somos pais o melhor que podemos querer é que ela nos ame, não que a amemos. Isso só se consegue quando se passa tempo de qualidade com os filhos!

O vosso exemplo é uma forma de mostrar que ter um negócio e uma família é compatível?
Sim. Cada vez mais temos que optimizar o nosso tempo e estaria a mentir ou a exagerar se dissesse que estou presente em todos os momentos familiares, mas considero que estou nos mais importantes e com as pessoas mais importantes da minha vida. Ressalvo aqui a minha ligação com a minha avó materna de 90 anos, a quem sou muito ligado; esta relação é um sinal óbvio de respeito e consideração que tenho pelos meus familiares.

A sua mãe orgulha-se do sucesso do seu filho do meio?
Cresci numa família feliz e esta felicidade advém de um certo encanto que os filhos têm pelos pais o qual não se perdeu quando eu fui adulto. Somos muito próximos e sinto muito carinho e encorajamento da parte da minha mãe, a qual me dá genuinamente os parabéns e um abraço apertado, porque realmente gosta do filho que tem e sente orgulho dele!

Alguma vez se imaginou um empresário de sucesso como hoje é?
Alguém podia ter desenhado isso a régua e esquadro, mas não ia conseguir que desse certo! O que eu consegui em 10 anos é de uma exigência muito grande, de uma capacidade de acreditar nos projectos, de liderá-los e sobretudo de estimular os colaboradores de uma forma que não é vulgar. Não quero dizer com isso que sou especial, só quero ser especial para aqueles que me são próximos. Onde não apareci e com quem não estive também foi um preço alto a pagar, portanto, embora seja a mesma pessoa e o mesmo amigo, confesso que custou muito em determinados momentos não estar presente ou com quem não merecia que eu estivesse ausente. 

Quais são os próximos investimentos do Grupo Anjos?
Não há nada de momento entre mãos. Acho que agora temos que arranjar uma estabilidade e que nos qualificar cada vez mais. 
Quanto ao desafio do turismo nos Açores, acho que estamos a atravessar um período de crescimento e devemos pensar que este não vai durar para sempre. Portanto, a forma de nos salvaguardamos é trabalhar com qualidade preparando o futuro neste mesmo sentido, para que nos garanta clientes e sucesso. Muitas vezes o sucesso é termos o suficiente para cobrir as nossas responsabilidades. Penso que temos que trabalhar bem para também acrescentar alguma coisa à nossa vida privada como fruto do caminho. Posso dizer que sempre dei os passos pensando bem, não sou louco. Tudo o que conquistei foi sentindo que era capaz de o fazer e tentar ir buscar o mínimo de crédito possível. 
Sempre fui regrado e capaz de não esbanjar, porque “negócio dá casa mas casa não dá negócio”. Comprei casa muito tarde, tive um bom carro muito tarde, fiz viagens de uma forma muito simples e humilde e até a minha filha foi planeada o mais tarde possível, porque sabia que me ia desconcentrar mais um pouco. Sem grandes premeditações, foi tudo mais ou menos calculado. 

Ponta Delgada tem mais por onde crescer ao nível da restauração?
Considero que estamos já no ponto de equilíbrio, em que a oferta está cada vez mais diferenciada. Antigamente, era tudo igual e não se privilegiava tanto o mel, o açúcar, o pão e o bolo lêvedo, ao contrário de hoje que temos esta necessidade de nos diferenciarmos de outras regiões. Hoje quem abre um negócio na porta ao lado quer ser exactamente diferente e há 10 anos o objectivo era ser exactamente igual. A grande dificuldade hoje é mesmo a formação profissional e o número de pessoas para trabalhar, porque não há e isso afecta directamente a qualidade do serviço. É quase constrangedor que uma região que aposta muito forte e há muito tempo na formação profissional tenha cada vez mais a necessidade de recrutar do exterior.

Quais são os sonhos que ainda tem por cumprir?
O nosso grande sonho é muitas vezes manter o que já se tem. Eu gosto de carros antigos e não gosto de os vender, considero que quando se vende alguma coisa é porque vamos ter algo muito melhor ou então por um motivo menos positivo. Quero dizer com isso que o meu sonho é claramente a sonhar, a manter aquilo que tenho e a ser a pessoa que sou! 
                                        

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