9 de junho de 2019

Mare nostrum

A natureza já não é o que era

Atualmente, uma das questões mais prementes no que diz respeito à conservação da natureza, é a perda da biodiversidade. A forma progressiva e célere com que, hoje, o número de seres vivos diminui e o de espécies se extingue, não encontra paralelo na história da humanidade. Para além das alterações climáticas, a introdução de espécies invasoras é uma das principais razões para que isto esteja a acontecer. 
Uma espécie invasora éuma espécie exótica, ou seja, que se encontra fora da sua distribuição geográfica natural, adquirindo, na nova localização, comportamentos agressivos para com o meio ambiente. As invulgares capacidades de adaptação e proliferação, à custa da vida de outras espécies, ditam, pois, o estabelecimento da espécie invasora no novo ambiente.
A introdução de espécies exóticas em novos ambientes é um fenómeno que ocorre, naturalmente, desde os primórdios da vida na Terra. De forma gradual e esporádica, a movimentação de espécies para novos locais equilibra-se, através de processos biológicos e pelos limites geográficos naturais.
Contudo, como resultado da globalização, estes fenómenos, outrora esporádicos e graduais, tornaram-se cada vez mais frequentes e difíceis de prever.
Nos últimos tempos, os ambientes marinhos têm sido particularmente afectados pela introdução acidental de espécies exóticas invasoras.
A construção do canal do Suez,  no século XIX, uma espectacular obra de engenharia, tornou o mundo “mais pequeno”, ao ligar a Europa ao Oriente. Mas, o que o Ferdinand de Lesseps, o francês responsável pela construção, não previu, foi que o canal, aproximaria também, dois ecossistemas completamente distintos e que evoluíram, separados, durante mais de 40 milhões de anos. O resultado, poucas décadas após a abertura do canal, foi a migração, e que hoje ainda decorre de inúmeras espécies aquáticas, como peixes e moluscos, do Mar Vermelho para o Mar Mediterrâneo. Muitas daquelas espécies tornaram-se invasoras, contribuindo para a mudança  do ambiente natural do Mediterrâneo, com impactos nas actividades pesqueiras e nos hábitos de consumo de pescado, localmente.
Por cá, nos Açores, algumas das nossas marinas e portos têm sido invadidos, nos últimos anos, por diversas espécies, nomeadamente, por algas.O aumento do tráfego marítimo de mercadorias ou de recreio, ou o de turismo, é apontado como o vetor da introdução acidental, bem como da dispersão geográfica, destas espécies. É, pois, nos cascos dos navios e/ou nas águas de lastro, que as espécies “apanham boleia” para locais  que podem distar muito da sua localização original.
De acordo com estudos científicos, as espécies marinhas invasoras dos Açores têm origens tão diversas como a Austrália, Nova Zelândia, oceano pacifico, mar mediterrâneo, mar adriáticoou marnegro. 
As espécies exóticas invasoras são, hoje, uma presença cada vez mais comum nos ambientes naturais, o que que faz levantar questões pertinentes como as que se colocam relativamente àquilo que é, ou já deixou de ser, natural,para uma determinada região. Por outro lado, a banalização ou o desconhecimento da sua presença, pode esconderperigos reais para a biodiversidade, dificultando a implementação das medidas que visam combater a sua propagação.

Médica veterinária
*anacbastosgomes@gmail.com
 

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

x
Revista Pub açorianissima