Fontes Vivas (5) – José Carlos de Magalhães Cymbron

“Ser atacado em Moçambique a ir buscar água era algo que me causava uma grande impressão”

Como começou o seu envolvimento com a vida militar?
Do lado da minha mãe somos uma família de militares e pode ser que esteja aí a raiz da questão. A certa altura optei por ingressar na Academia Militar, no curso de engenharia, em 1963, porque também havia alguma tradição de engenharia na família.
Tínhamos o curso mais longo do país e em 1970 terminei a frequência do curso no Instituto Superior Técnico; posteriormente fui fazer mais um ano de estágio na escola prática de engenharia e, depois disso, engrenávamos como directores de instrução, directores do curso de oficiais e sargentos milicianos, entre outras coisas.
No final de 1971, fui durante sete meses para Moçambique fazer uma espécie de estágio numa companhia de engenharia. Aliás, estive em duas e assisti à passagem de uma para outra, o que era algo muito complicado, porque havia uma quantidade de material muito grande. Desempenhei missões nesta altura, como oficial subalterno, nas duas companhias e estive em Tete. Visitei Cahora Bassa nos primórdios da sua construção e estive sempre ligado a este lugar por outros motivos.
As companhias de engenharia eram unidades muito grandes, com cerca de 600 homens, e a que eu estava era uma de recrutamento metropolitano. Uma companhia de engenharia tinha um trabalho mais direccionado para as vias de comunicação em zonas sensíveis ou importantes para as comunicações gerais do território.

Que momentos mais marcantes viveu nestas missões?
Nessa altura, a coisa mais sensível que eu vivi eram os ataques que a FRELIMO fazia ao caminho-de-ferro que ia da Beira até Moatize no sentido de impedir o reabastecimento da Cahora Bassa. Eles faziam descarrilar muitos comboios e havia ali uma zona crítica; andei várias vezes para cima e para baixo, mas sempre no comboio que conseguia passar e nunca no que descarrilou, tive sorte! Uma das missões era reparar a linha, a qual era defendida por tropas privativas dos caminhos-de-ferro de Moçambique. (…) A linha nunca deixou de trabalhar, tirando aqueles períodos curtos, e o reabastecimento de Cahora Bassa foi feito até ao fim.
Mais tarde vim para o Portugal Continental, para Tancos. Aí fui o comandante da companhia de sapadores na Escola Prática, sendo que ao mesmo tempo era o director dos cursos de oficiais e sargentos milicianos. Mais tarde fui mobilizado outra vez para Moçambique, em meados de 1973, e estive lá até Maio de 1975. Aí já cumpri outras funções e fui para a logística do Agrupamento de Engenharia.

Como decorreu esta segunda missão?
Moçambique era um território diferente de Angola, e da Guiné muito mais, pois era disperso, muito entrecortado por rios, pelo que as comunicações eram muito difíceis. Era um território complicado, porque, embora as zonas sensíveis fossem no norte, havia uma manobra logística muito complexa. O Agrupamento de Engenharia em Moçambique tinha 3.500 pessoas, e 60% da nossa tropa era moçambicana. Quem entrava no refeitório de engenharia de Nampula, onde eu estava, confrontava-se com várias religiões e com tantas outras etnias completamente diferentes. Tínhamos também chineses, indianos, negros de diversas etnias, assim como havia brancos e mestiços de todas estas etnias, mas corria tudo bem e nunca houve grandes problemas com isso!
Comecei por ser adjunto do chefe da logística e depois fui o chefe da secção logística do agrupamento, que era uma secção que supervisionava a Companhia de Depósito, porque Moçambique era o território ultramarino com mais companhias da engenharia. Tínhamos 10 companhias e à volta de 700 máquinas de terraplanagem em Moçambique, o que não era pouco, e tínhamos algo único, nomeadamente, uma companhia de sapadores de minas, a qual lançava minas e fazia campos de arame farpado, por exemplo.
Havia todo um reabastecimento complexo e a logística fornecia material de engenharia para todas as unidades, tais como moto-bombas, moto-serras, cimento, ferro, etc.; era uma infinidade de materiais e muitos deles volumosos.
(…) Havia sete depósitos de engenharia em todo o território e um deles era muito importante, o de Lourenço Marques, porque aqui se adquiria muito material. Nós em Moçambique produzíamos alguns destes materiais, mas muita coisa vinha do continente e do estrangeiro.
Em Moçambique havia muitos campos de aviação e o transporte aéreo era também extremamente importante, até para transportar peças mais sensíveis.
Havia um leque muito grande de aquisições e o agrupamento ainda tinha uma secção de instalações onde se fazia os projectos e praticamente tudo, e na qual havia algum pessoal de águas, o que em Moçambique era um assunto muito sensível. Este era um problema da engenharia, tínhamos sempre uma secção ou duas que tratava da manutenção das águas.
Nesta altura, fui nomeado representante do agrupamento de engenharia na comissão de defesa de Cahora Bassa, e tinha que supervisionar todos os depósitos de engenharia, pelo que andava permanentemente em Moçambique, razão por que conheço muito bem aquele território. Até porque muitas vezes ia fazer o serviço da secção de operações, como por exemplo avaliar os estragos que um foguete tinha feito num edifício. Era preciso fazer o reconhecimento e o levantamento do que era necessário; eu tratava do assunto.

Mas também esteve no mato, certo?
Na primeira comissão estive no mato, na segunda o meu alojamento base era Nampula. Mas havia companhias de engenharia que se encontravam no mato e em zonas altamente sensíveis, tínhamos uma companhia de engenharia completa em Moeda. Para fazer a célebre operação Nangade, que chegou a empenhar duas companhias, a coisa era tão complicada que a certa altura não chegava cimento a Nangade, o que era fundamental, ou chegava pouco, porque se perdia muito. Chegou-se à conclusão que o cimento até chegar a Nangade tinha 20 ou 21 baldeações e havia que reduzir isso, protegendo o saco, por exemplo.
(…) Havia também outras operações em que as companhias de engenharia iam fazer itinerários de algum risco e tinham companhias de infantaria a protegê-las, mas isso acontecia em sítios muito localizados e específicos.

O que mais o impressionou neste tempo de guerra?
A guerra tem sempre enormes riscos e as pessoas não se sentem bem num ambiente destes, com certeza. É evidente que havia circunstâncias, sobretudo pelas condições em que as nossas forças estavam, que eram muito difíceis do ponto de vista da sobrevivência e este era um problema que nos preocupava muito, claro. Muitas vezes tínhamos problemas para fornecer energia e determinados materiais atempadamente. Quanto ao risco, de facto corri sempre algum, mas o que mais me impressionou foi esta questão do caminho-de-ferro, porque era uma coisa complicada; não saíamos do comboio e estávamos sempre à espera da hora em que alguma coisa ia correr mal, porque não podíamos fugir, mas conseguíamos sempre detectar muitas situações perigosas. Por outro lado, havia muitas flagelações e eu também apanhei algumas situações destas, mas não de grande intensidade.
Uma das coisas que me impressionava muito era o pessoal que morria a ir à água, depois das minas esta foi talvez a situação mais complicada de gerir. Muitas vezes, morria-se na água por descuido; a rapaziada fazia aquilo com uma certa displicência. As águas eram responsabilidade nossa, mas o inimigo nunca envenenou a água porque também precisavam dela. Ser morto ou atacado a apanhar água era algo que me causava uma grande impressão.
Aqui o problema da evacuação, por avião, era também sempre muito complicado e ainda mais para os pilotos, porque tinham que controlar as emoções; às vezes eram pessoas que eles conheciam e outras nem tanto.
Na engenharia também tínhamos algumas baixas, mas a maior parte delas aconteciam por desastres. Oficialmente, no Ultramar ocorreram 8.800 mortes, sensivelmente, mas destas só 48% aconteceram em combate e todas as outras decorreram de desastres ou de doenças, tais como a varíola ou a malária; mas isso era em certas zonas.
Na engenharia também aconteceram algumas baixas em combate; na primeira companhia em que eu estive aconteceu uma baixa devido a uma mina, mas numa altura em que eu já não estava lá.

Quando se deu o 25 de Abril ainda estava lá, não estava?
Sim. Eu achei que aquilo não era a solução para o problema, porque entendia que poderia haver outras soluções. De qualquer maneira, fiquei até bastante tarde; ainda vim ao Continente e voltei para lá, porque na minha opinião nunca se deve deixar os seus homens.
Os períodos mais perigosos e graves que tive foram exactamente depois do 25 de Abril, porque foram situações provocadas de uma forma absolutamente irresponsável.
Organizei a evacuação, sobretudo do material de engenharia em Nacala, onde estive cinco meses, e este local foi muito importante porque aqui conseguimos manter a liberdade de acção até ao fim. Isso permitiu que evacuássemos muita coisa, algumas máquinas até vieram para os Açores, outras desapareceram em Lisboa, mas esta é outra história!

A sua opinião mudou quanto ao 25 de Abril?
Nem por isso, porque não vi a situação ultramarina devidamente resolvida. Só vejo desgraça em África, e pior ainda muita desgraça em Moçambique! Acho que as coisas podiam ter acontecido de uma forma substancialmente diferente, não deixando desestruturar completamente aqueles territórios.
Naquela altura, quando havia uma epidemia de cólera, chegavam milhões de vacinas a Moçambique, distribuíam-se as mesmas, mas nunca se sabia muito bem quantas pessoas morriam; em África era assim! Hoje, nem se percebe bem o que se passa por lá e outra coisa que me indigna é haver fome em Moçambique! Como é possível que num território tão rico agricolamente falando possa haver fome?

Na sua opinião, aquela guerra foi necessária?
Não sei, este é um outro problema porque há sempre estratégias diferentes, mas o problema da guerra já é antigo em Portugal, aliás um país que foi produto disso mesmo.
O que me parece é que a guerra trouxe um desenvolvimento explosivo a Moçambique, a Angola e até à Guiné, o que é pena é que se tenha deixado esvaziar completamente todo esse capital.
Uma das coisas que as companhias de engenharia faziam era o apoio às populações; a nossa tropa fez imenso bem às populações e esta foi uma das nossas acções predominantes, nomeadamente no apoio aos aldeamentos e no apoio sanitário. O certo é que mais de 50% do efectivo era moçambicano, esse é um dado que não pode ser escamoteado. Portanto, com certeza que havia outras soluções!
Penso que tudo quanto aconteceu pode ser importante para uma nova relação com os países africanos e temos a obrigação, dentro das nossas possibilidades e na minha de opinião, de tentar reforçar tudo o que contribua para a unidade destes países, o que é algo que pouca gente pensa actualmente. (…) Existe cooperação, mas acho que deveriam existir mais meios para reforçar todas estas questões.

Quando regressou, os Açores já estavam numa luta pela sua própria autonomia, não foi? Qual é a sua posição quanto a este assunto?
Nesta altura ainda era tudo muito confuso.
Se a autonomia é a consagração do princípio da subsidiariedade no governo das comunidades eu estou totalmente de acordo. Se não for, é porque algo deve estar mal!

                    

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