Base de dados poderá ajudar futuras investigações

Projecto “Joaninhas dos Açores” pretende envolver açorianos no conceito de ciência cidadã

Com o objectivo de conhecer mais sobre as joaninhas que existem nos Açores e de envolver o comum cidadão na investigação científica direccionada para esta espécie, Renato Calado desenvolveu o projecto “Joaninhas dos Açores”, uma plataforma digital no Wordpress, onde podem ser inseridos dados referentes ao avistamento de joaninhas na região.
Actualmente, adianta o mestre em Biodiversidade e Biotecnologia da Universidade dos Açores, a plataforma criada no âmbito do seu projecto de mestrado inclui apenas dados da ilha de São Miguel, mas tem como objectivo “abranger todas as ilhas e tentar arranjar pessoas que nos ajudem a recolher informação de outras ilhas”, contribuindo assim para uma visão mais realista deste cenário.
Neste sentido, o trabalho inserido no conceito de ciência cidadã, definida pelo próprio como “uma forma muito simples de obter a ajuda do cidadão na recolha e tratamento de dados estatísticos que possam vir a ser utilizados na investigação”, permitirá “recolher e manter um registo anual das espécies e dos sítios onde foram encontradas” e, através de futuras parcerias, trabalhar a divulgação ambiental.
Tendo em conta que este é um projecto que dá ainda os seus primeiros passos, Renato Calado conta que está a ser avançada uma proposta de parceria com a Universidade dos Açores que permita divulgar a plataforma – que também pode ser encontrada no Facebook – e os seus objectivos, para além daquilo que é actualmente divulgado no Centro de Educação Ambiental às turmas que o visitam e onde o antigo aluno da academia desempenha a sua profissão.
“Estes são projectos que estamos a tentar fazer no âmbito da divulgação ambiental e ciência cidadã. Estamos a tentar fazer um projecto de parceria com a Universidade dos Açores e fazer esta divulgação nas escolas, não só em São Miguel mas também nas escolas das outras ilhas, mas isso implica deslocações e toda uma outra logística que tem ainda que ser analisada”, afirma.
“Na plataforma virtual, todos os dados recolhidos podem ser marcados no mapa. As pessoas podem tirar fotografias através dos telemóveis e inserir também os dados das coordenadas geográficas que nos permitem introduzir no mapa, que actualmente está a ser feito através do Google Maps, o local exacto de onde foi recolhida aquela espécie e, ao mesmo tempo, as pessoas podem inserir fotografias e podem elas próprias tentar identificar as espécies”, explica o criador da plataforma digital.
Assim, e de uma forma simples, Renato Calado explica que “basicamente é pedida a ajuda das pessoas na recolha da informação e que, depois de ser feita a devida triagem”, é escolhida a informação mais relevante ou a que deve ser tratada estatisticamente e utilizada na investigação científica, permitindo assim chegar a conclusões importantes.
“Recolhendo estes dados e mantendo um registo anual das espécies e de onde elas estão, poderemos ver se as joaninhas identificadas se poderão ou não tornar ameaças para outras espécies locais ou para espécies que já estejam previamente implementadas cá”, exemplifica Renato Calado, salientando que neste caso poderá ocorrer a danificação do ecossistema, “fazendo com que outra espécie desapareça para sempre”.
No entanto, para além dos dados que podem ser inseridos na plataforma, Renato Calado indica que esta é também uma forma de as pessoas ficarem sensibilizadas em relação à temática em causa e uma forma de obterem informação sobre aquilo que é trabalhado, disponibilizando para isso várias informações que ajudarão o cidadão a atingir os objectivos pretendidos.
“Na plataforma virtual criei uma chave cutónica, ou seja uma chave que permite as pessoas distinguirem o tipo de joaninha que encontram para o devido tratamento estatístico. Para além disso, quando as pessoas encontram uma espécie, pelo menos espécies que já tenham sido identificadas nos Açores, há uma ficha de descrição breve da espécie que inclui o tipo de habitat, o tipo de alimento, onde normalmente se encontram, se é uma espécie de joaninha rara ou não, bem como uma fotografia de cada espécie”, adianta.
Durante o tempo que dedicou ao desenvolvimento deste projecto, onde se debruçou na identificação das espécies presentes nos jardins que circundam o Centro de Educação Ambiental localizado no recinto da Associação Agrícola, Renato Calado conseguiu detectar um total de 12 espécies de joaninhas, entre as 22 espécies que existem já identificadas em São Miguel e as cerca de 28 espécies que existem no arquipélago inteiro.
Entre os momentos mais altos da sua investigação, Renato Calado salienta o momento em que conseguiu identificar uma espécie de joaninha que foi apenas vista nos Açores uma vez em 1966, altura em que foi registada apenas a presença de um indivíduo.
“Através deste projecto de ciência cidadã conseguimos visualizar uma joaninha que pertence a uma espécie da qual foi vista apenas um exemplar em 1966 e em 2018 conseguimos encontrar quatro indivíduos. Inicialmente pensou-se que poderia ser um erro de identificação mas a espécie de facto existe cá embora mais escondida”, conta.
Por este motivo, e tendo esta descoberta em conta, o impulsionador deste projecto salienta que “tal como esta espécie, podem existir outras que ainda não foram identificadas ou que se pensa estarem extintas mas que com o aumento da área geográfica de recolha é possível visualizar o contrário”.
É com o aquecer do tempo que começam a surgir mais joaninhas, explica Renato Calado, o que as torna também mais fáceis de observar durante a Primavera e o Verão, indica. No entanto, conta que numa recente visita ao Parque Urbano, onde acompanhou uma turma da escola dos Arrifes, foram identificadas três espécies de joaninhas diferentes em apenas uma hora.
No que diz respeito aos anos anteriores, o criador da plataforma online (http://joaninhasdosacores.wordpress.com) salienta que no ano passado foram inseridas na plataforma cerca de 60 avistamentos, contando ainda com alguns dados inseridos relativamente a 2013, cedidos pela Dr.ª Isabel Borges através das recolhas que foram efectuadas ao longo dos seus trabalhos com joaninhas.
De acordo com Renato Calado, e com os estudos que têm vindo a ser desenvolvidos nesta área, o número de indivíduos e de espécies presentes nos Açores e noutros locais do mundo está directamente ligado ao desaparecimento dos seus habitats de eleição, provocando assim desequilíbrios nos seus ecossistemas.
“A partir do momento em que nós começamos a destruir habitats para produção de pastagens, por exemplo, há um desequilíbrio porque há joaninhas que têm habitats preferencialmente agrícolas, e outras que preferem zonas de erva. (…) Se as espécies existem em árvores e estas são cortadas para dar lugar a pastagens então estas são espécies que vão deixar de existir automaticamente”, explica.
Assim sendo, tendo em conta as descobertas vantajosas que os cientistas cidadãos podem ajudar a desvendar, Renato Calado salienta que este tipo de projecto e de plataforma digital pode “ajudar a determinar espécies potenciais invasoras, não só para joaninhas mas também para outras espécies de insectos” ou para outros projectos no mesmo âmbito, podendo auxiliar “nos estudos sobre o ciclo das espécies”, por exemplo.
Para além dos contributos que podem dar, a ciência cidadã tem também vantagens pelo facto de ampliar as áreas de recolha e de estudo dos investigadores, uma vez que se “com várias pessoas a fazer a recolha a abrangência torna-se muito mais elevada e existem muitos mais dados para trabalhar”.

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